Muito tem sido escrito sobre o emprego jovem. Dezenas de artigos, notícias e relatórios amontoam-se na tentativa de explicar o que espera os recém-diplomados à saída do ensino superior. Contudo, a discussão parece ter ficado em águas de bacalhau, como se este problema já tivesse sido resolvido.
Em Portugal encontramo-nos, diz-se, numa situação de “pleno emprego”, a famosa terminologia que dita que toda a população activa que procura emprego encontra-o, o que demonstra crescimento económico e um mercado de trabalho dinâmico. Mas a realidade é bem mais complexa, o que torna o uso desta terminologia algo falacioso.
Para a maioria dos jovens, o futuro cada vez mais passa pela frequência no ensino superior, o que traz uma gigante pressão no que diz respeito ao ensino obrigatório. Durante a permanência do ensino secundário e aquando da sua saída, entram numa competição feroz por uma vaga no curso que ambicionam estudar ou na faculdade com a melhor reputação. Seguem-se três, cinco ou mais anos de formação, na qual são seduzidos pela promessa de um mercado de trabalho aberto ao talento jovem, com oportunidades de progressão e valorização intelectual.
A experiência recente contraria rapidamente esta expectativa. Nos últimos cinco anos, ou quem sabe mais, a entrada de jovens altamente qualificados nas áreas para as quais se especializaram tornou-se numa competição com mais obstáculos que um hyrox. Uma realidade que é continuamente ignorada no debate público, o que leva a uma enorme contestação que parece silenciosa.
Os números ajudam a enquadrar a dimensão deste problema. Segundo o INE, a taxa de desemprego jovem (menos de 25 anos) situava-se nos 21,9% em 2025, mantendo-se acima dos 20% desde 2018. De acordo com a Pordata, falamos de mais de 73 mil jovens desempregados num universo superior a 380 mil em idade activa. Ao fim de um ano de desemprego, a taxa permanecia nos 18,2% (dados de 2024). E apenas 11,1% dos jovens com menos de 25 anos estavam inscritos no IEFP nesse ano.
Com ainda memórias de um passado sombrio marcado por movimentos como a Geração à Rasca ou os Homens da Luta, muitos jovens procuram informação e pistas em plataformas como o Infocursos, analisando taxas de desemprego por curso e instituição, de modo a fazer a escolha mais acertada, como se do ranking de produtos da Deco Proteste se tratasse. O que raramente se sublinha é que esses indicadores resultam do simples cruzamento entre diplomados e inscritos no IEFP. Ora, como podemos ver pelos dados, uma parte significativa dos jovens desempregados não se inscreve no instituto, seja por desconhecimento, seja por o considerar pouco útil.
É já do conhecimento dos portugueses a existência dos estágios do IEFP como instrumento de apoio à integração dos jovens no mercado de trabalho. E a verdade é que têm aberto inúmeras portas. Mas também é verdade que podem funcionar como solução temporária para empresas avessas ao risco de contratar jovens a longo prazo, além de envolverem processos burocráticos complexos. Entre 2021 e 2024, apenas 55% dos estágios culminaram em contrato de trabalho, segundo o próprio IEFP, sendo este um sinal claro de precariedade no início de carreira.
A contestação pode por vezes ser silenciosa na rua ou nos media, mas é visível nas redes sociais. Uma pesquisa no TikTok basta para encontrar diplomados que se queixam da falta de oportunidades. A narrativa do pleno emprego não resiste a este escrutínio informal: pode haver emprego, mas não necessariamente emprego qualificado.
Podemos exemplificar estes casos.
Ana (nome fictício), 24 anos, licenciada em Marketing e mestre em Gestão, passou seis meses à procura de trabalho na sua área. Sem sucesso e pressionada pela necessidade de autonomia financeira, aceitou um emprego em que os requisitos mínimos eram a frequência no ensino secundário numa empresa industrial perto de casa. Está empregada, mas não está integrada na profissão para a qual tanto estudou. Quantas Anas existem no país?
A Ana terá de emigrar? Mesmo que recorra a um estágio do IEFP e ultrapasse a burocracia associada, o salário poderá não ser suficiente para pagar renda e assegurar estabilidade. E nada garante que, no fim, haja contrato de trabalho.
Portugal enfrenta uma crise do custo de vida e um contexto internacional marcado por prudência no investimento. A isso soma-se o conservadorismo de parte do tecido empresarial, que continua a hesitar na aposta em jovens quadros. O resultado é uma situação complexa para os jovens.
Sem talento jovem, que futuro do país se projecta? Debatem-se reformas laborais, anunciam-se medidas estruturais, multiplicam-se campanhas contra a fuga de cérebros. Mas onde estão as políticas concretas que alterem o ponto de partida?
O país não pode continuar a proclamar a necessidade de reter talento enquanto mantém uma geração à porta do mercado de trabalho qualificado. O pleno emprego pode existir nas estatísticas. A integração plena dos jovens, essa, continua por cumprir.
Para terminar, como referiu António José Seguro no passado: “Isto não se faz.”
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