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O jornalista e poeta Elio Russo nasceu na Itália, viveu quase 70 anos no Brasil e há cinco anos escolheu Portugal como novo lar. Agora, às vésperas dos 80 anos de idade, transforma em poesia seis décadas de reflexões sobre política, espiritualidade, amor, inquietações existenciais e esperança humana no livro Trovador de Utopias, lançado recentemente na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, no Norte do país. “Obrigado Itália por ser a minha maravilhosa origem. Obrigado Brasil por ser onde vivi feliz dos cinco aos 72 anos. Obrigado Portugal e Braga por me receberem e onde continuo feliz aos quase 80 anos”, declara o autor.
Filho de imigrantes italianos refugiados da Segunda Guerra Mundial, Elio Russo chegou ao Brasil em fevereiro de 1952, com apenas cinco anos e meio. A família desembarcou na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, seguiu para Barra Mansa e, depois de alguns meses, mudou-se para São Paulo, onde passou a viver em um bairro periférico. Foi nesse contexto que começou o processo de adaptação do menino italiano ao cotidiano brasileiro.
Sem falar português e usando roupas diferentes das demais crianças, o jornalista e poeta tornou-se alvo das brincadeiras dos colegas. Um dos episódios mais marcantes da infância ocorreu quando esconderam a bicicleta que ele havia ganhado no Natal. “Eu comecei a gritar em italiano ‘Dov’è la mia bicicletta?’ (onde está a minha bicicleta?). Os garotos me rodearam, riram e começaram a imitar o meu jeito de falar”.
A reação inicial foi de revolta. Ele chegou a entrar em confronto com um dos meninos, mas o episódio terminou em amizade. Pouco depois, matriculado em um colégio de freiras, aprendeu rapidamente a língua portuguesa. Antes mesmo dos dez anos, já escrevia os primeiros poemas, iniciando, a partir de então, uma relação permanente com as palavras.
Ao longo da vida, Russo construiu uma carreira ligada à comunicação. Atuou como redator publicitário, jornalista, editor, diretor de comunicação e consultor de empresas e agências de publicidade. Também trabalhou como diretor de marketing e palestrante em universidades e associações profissionais. Paralelamente, publicou contos, poesias e um romance, além de colaborar com revistas como Bondinho, Mercado Global e The Brazilian Sun.
A juventude, segundo define, foi marcada por contradições e intensa busca intelectual e espiritual. “Minha juventude foi tal como minhas ideias: um paradoxo, cheio de polaridades. Boêmio e a passar fins de semana fechado em casa. Briguento e pacifista. Leitor voraz e aluno preguiçoso. Católico praticante, depois espírita, Rosacruz e livre pensador à busca de saciar minha sede de respostas em fontes tradicionais de filosofia e espiritualidade ou em fontes no mínimo excêntricas”, pontua.
O primeiro e único amor
Foi também ainda bem jovem que conheceu Dinaura, apontada por ele como o primeiro e único grande amor de toda a vida. O relacionamento começou quando ele tinha 17 anos e ela, 13. Desde então, construíram uma trajetória em comum baseada, segundo afirma, em “respeito mútuo e sinceridade”. Os poemas românticos do livro são dedicados a ela, especialmente Menina e Divinaura.
O casal participou de um movimento juvenil cristão progressista chamado Formigueiro, experiência que ajudou a consolidar a visão humanista e libertária do escritor. Nas reuniões, discutia-se temas como sexualidade, feminismo, Teologia da Libertação e a realidade sociopolítica brasileira e mundial. O grupo também promovia convivência comunitária, festas e atividades culturais.
As viagens pelo Brasil ampliaram ainda mais o vínculo afetivo de Russo com o país onde cresceu. “Viajei por todo o Brasil, de Norte a Sul, explorando a sua bela geografia e imergindo na sua rica cultura, música, folclore, danças, culinária, literatura, sotaques, história. Exalto isso tudo no meu poema Brasileirinho Italianinho, que aborda não só minha infância como a cultura do Brasil”, acrescenta o autor.
Outro momento decisivo em sua trajetória, segundo conta, foi o período de redemocratização brasileira. O fim da ditadura militar e o movimento Diretas Já, em 1985, despertaram forte sentimento de esperança ao comunicador. A formação intelectual também foi influenciada pela leitura de obras de psicologia, filosofia, política, sociologia e física quântica, além de clássicos da literatura portuguesa, brasileira e universal.
“Escrever é algo que me acompanha desde os nove anos. Escrevi e publiquei no Brasil contos, crônicas, artigos profissionais e um romance. Fato curioso é que não gosto de ler poesias, apesar de ter escrito centenas. Vem a inspiração e pronto, escrevo”, detalha, sobre o processo criativo.
Espírito aventureiro
Já vivendo em Braga, cidade portuguesa para onde se mudou há cinco anos, Russo decidiu organizar parte da produção poética escrita ao longo de seis décadas. Com apoio da agente literária Ana Sofia Monteiro, selecionou textos que abordam amor, alienação, monotonia existencial, desigualdade social, exploração política e espiritualidade. Assim nasceu Trovador de Utopias.
Apesar do tom crítico presente em muitos poemas, o autor afirma preservar uma visão esperançosa sobre a humanidade. “Sou um paradoxo de cético utópico”, resume. A mudança para Portugal aconteceu depois que a filha, o genro e as netas decidiram viver no país, enquanto o filho mudou-se para a Inglaterra. O casal, então, optou por acompanhar a família e iniciar uma nova etapa de vida fora do Brasil.
“Quando minha filha, genro e netas, uma delas casada, decidiram mudar para Portugal e meu filho e nora para a Inglaterra, Dinaura e eu sofremos o impacto de ficar longe deles. Passado o susto, refletimos e quisemos acompanhar a família e deixar o Brasil, onde vivíamos confortáveis e felizes. Prevaleceu o amor e o espírito aventureiro. E agradeço todos os dias por esta decisão. Amo Portugal, sou residente permanente e aqui quero estar. É o meu lar escolhido”.
O lançamento do livro em Braga simboliza justamente essa nova fase. A obra está disponível em livrarias físicas e online em Portugal, e Russo afirma que espera alcançar leitores de diferentes gerações. Entre memórias pessoais, críticas sociais e reflexões existenciais, o autor reafirma o posicionamento contrário aos extremismos políticos e ideológicos.
“Quanto às ideologias de ultradireita sou visceralmente contrário. Contudo, também sou contra qualquer ideologia extremista e fanática, seja de direita ou de esquerda, política ou teológica. A melhor ideologia é amar o próximo como a si mesmo. Com fraternidade, liberdade, igualdade; respeito, bondade e compaixão”, complementa o poeta ítalo-brasileiro.
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