É um lugar comum dizer que antigamente é que era bom e que, antigamente, é que as crianças aprendiam muito na escola. Mas será que esse antigamente afinal era assim tão bom e as crianças aprendiam assim tanto?
Foi com esta pergunta em mente que fui revisitar o programa do tempo em que eu andava na escola primária, o chamado “Programa de capa cor de laranja”, e aquilo que li levou-me a confirmar aquilo que já intuía: os programas do “meu tempo”, afinal, eram bem mais simples e curtos do que os atuais.
Também os programas do tempo em que comecei a dar aulas, há quatro décadas, eram mais simples e curtos do que os atuais, prevendo uma introdução mais progressiva dos conteúdos a lecionar.
O que mudou, entretanto?
Atualmente, vivemos de acordo com uma lógica aditiva do quanto mais e do quanto mais cedo melhor. De acordo com essa lógica, enchemos os currículos das crianças com conteúdos e competências com o intuito de lhes transmitir o património de saberes herdados do passado, mas também de as preparar para lidarem com um futuro incerto, que ainda ninguém sabe ao certo qual vai ser.
De cada vez que se faz uma revisão curricular, a intenção começa por ser definir o que é essencial, mas, na verdade, aquilo que se tem verificado é que, em vez de retirar, são introduzidos mais conteúdos. E, quanto aos conteúdos que já estavam contemplados em programas anteriores, opta-se, por vezes, pela sua antecipação para anos mais precoces de escolaridade, como, por exemplo, no caso da Matemática.
Só para concretizar, quando comecei a lecionar trabalhavam-se os números até 20 no 1.º ano, até 100 no 2.º ano e até 1000 no 3.º ano. Atualmente, as crianças operam com números até 100 no 1.º ano, até 1000 no 2.º ano e até 10 000 no 3.º ano, sendo que, logo no 2.º ano, são introduzidos os números fracionários.
Mas há mais: tendo em conta a diminuição da taxa de natalidade, antecipamos também a entrada das crianças na escolaridade, facilitando o ingresso dos alunos condicionais no 1.º ano, com apenas cinco anos. Quando tal acontece, conseguimos um dois em um, que é ter crianças mais novas a aprender conteúdos mais complexos cada vez mais cedo.
Para novos problemas, novas soluções
Mas há mais, muito mais. De acordo com esta lógica aditiva, de cada vez que se identifica um problema na sociedade, logo se descobre uma solução para o enfrentar: como não poderia deixar de ser, acrescentando mais um conteúdo ao currículo ou desenvolvendo um novo projeto a nível escolar.
Se existe maior agressividade entre os jovens, é necessário sensibilizar para o bullying; se existe maior propensão para a obesidade infantil, deve insistir-se na educação alimentar; se existe dificuldade na gestão do orçamento, importa sensibilizar para a educação financeira; se existe falta de espírito de iniciativa, o caminho passa pela educação para o empreendedorismo… e por aí fora.
Poderia continuar esta listagem interminável, nomeando sempre novos problemas e propondo sempre novas soluções para os novos problemas, que passam invariavelmente por acrescentar novos conteúdos e novos projetos aos já existentes nas escolas.
Corrida contra o tempo
Não pretendo dizer que estes conteúdos, problemas ou projetos não sejam importantes. O cerne da questão é que a escola não é — nem pode ser — um saco sem fundo onde pode caber tudo, de acordo com uma lógica aditiva interminável. Porque para dar resposta a tantas demandas, em vez de “darmos” conteúdos, parece que “corremos” atrás dos conteúdos. Mas é sempre uma luta desigual, em que os alunos saem a perder.
Porque se há algo de que as crianças do 1.º Ciclo necessitam é de estruturar bem os alicerces sobre os quais assentam as aprendizagens. E, para tal, é inevitavelmente necessário tempo: tempo para trabalhar os conteúdos e tempo para os revisitar periodicamente, até que estejam bem sistematizados. E, nessa corrida contra o tempo, foi precisamente para essa consolidação que se foi perdendo o tempo. A consequência é que as crianças são confrontadas com muitas matérias sem que, muitas vezes, consigam verdadeiramente apreendê-las.
Ainda para mais, como sinal dos tempos, a atenção das crianças que frequentam atualmente a escola tende a ser mais dispersa e fragmentada. Mas este contra-relógio curricular também não contribui para estabilizar e densificar essa atenção. Antes pelo contrário. Porque, entre as atividades curriculares e as extracurriculares, a cabeça das crianças está cheia: o saber também ocupa lugar.
Para pensarmos em todas estas questões, temos de começar por ultrapassar o mito da eterna idade do ouro, desenredando-nos das saudades do passado. A partir desse momento, estaremos disponíveis para procurar resposta para a seguinte pergunta: o que é mais importante que as crianças aprendam aqui e agora?
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