De Sócrates a Sócrates, o que mudou em 2400 anos?

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Em 399 a.C., Sócrates foi julgado e condenado à morte pela cidade de Atenas. Sabemo-lo pelos escritos de Platão, na Apologia, no Críton, no Fédon, testemunhos que atravessaram dois milénios e chegaram até nós com uma nitidez perturbadora. A acusação formal dizia que corrompia a juventude e não reconhecia os deuses da cidade. Mas o que Atenas não conseguia suportar era que Sócrates pensava em voz alta, questionava o que parecia estabelecido, e tinha o dom incómodo de tornar visível aquilo que muitos preferiam não ver.

Não foi condenado pelo que fez de errado. Foi condenado pelo que fez de certo.

Há algo nesta história que atravessa os séculos sem envelhecer, é a dificuldade que os sistemas têm em lidar com a lucidez que os desafia.

A investigação em psicologia organizacional tem um nome para o que Sócrates (a.C) viveu em versão institucional moderna, injustiça processual. Num estudo que se tornaria referência na área, Jason Colquitt demonstrou, em 2001, que as pessoas não avaliam as decisões apenas pelo seu resultado. Avaliam, com igual ou maior intensidade, a forma como o processo decorreu. Um processo opaco, inconsistente ou demorado sem explicação, mesmo que produza um resultado eventualmente justo, deixa marcas que um resultado não apaga.

Porque o processo é também uma mensagem. Diz às pessoas o que a instituição pensa delas. Diz-lhes se são vistas, se importam, se o seu tempo e o seu trabalho têm valor reconhecível. Quando o processo falha, quando se prolonga sem critério aparente, quando a comunicação se ausenta, quando a consistência cede ao arbítrio, a instituição não está apenas a atrasar uma decisão. Está a ensinar algo sobre si própria.

E as pessoas aprendem. Aprendem que a excelência não é suficiente. Que o mérito é uma condição necessária, mas não garantida. Que podem dar o melhor de si e, ainda assim, ficar à espera de um reconhecimento que o sistema retém sem explicação.

O que se perde neste processo é difícil de quantificar, mas fácil de reconhecer. Perde-se a confiança de quem investiu genuinamente. Perde-se a energia criativa de quem esperava que o esforço tivesse consequências visíveis. Perde-se, lentamente, a convicção de que vale a pena continuar a tentar dentro de um sistema que parece não responder.

Sócrates (a.C) escolheu não fugir quando podia. Escolheu permanecer fiel à sua forma de pensar mesmo quando o sistema o puniu por isso.

A maioria das pessoas não foge de forma dramática. Simplesmente vai ficando mais pequena. Vai aprendendo os limites do que é permitido dizer, propor, ser. Vai administrando a própria lucidez como se fosse um risco a gerir e não um recurso a celebrar.

As instituições que produzem este efeito raramente o fazem com intenção. Fazem-no por inércia, por opacidade, por ausência de coragem para tornarem os seus processos tão rigorosos quanto os seus discursos. E é precisamente aí que reside a sua responsabilidade, não nos grandes gestos, mas nos processos quotidianos que ensinam às pessoas, dia após dia, o que a instituição verdadeiramente valoriza.

Sócrates (a.C.) foi condenado por uma cidade que não soube o que fazer com a sua clareza. Nós, dois mil e quatrocentos anos depois (2425 anos, mais precisamente), ainda estamos a aprender a construir instituições que saibam.

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