A minha mãe ensinou-me que não devemos falar da vida dos outros. Durante muitos anos segui esse ensinamento, uma espécie de regra de ouro contra as chatices. A vida dos outros é uma propriedade que não nos pertence e, por isso, não devemos afoitar-nos, armados em espertos, por terrenos privados. Mas que fazer quando ouvimos a vizinha da frente chorar e pedir ajuda com uma frequência que desejaríamos ter sido única, ou nunca ter existido?
Estou certa de que todos os inquilinos a ouvem tão bem como eu, de que a palavra “socorro” é perceptível para os ouvidos que habitam de o rés-do-chão ao segundo andar. Neste prédio somos poucos moradores e demasiados cúmplices de um crime que acontece no segundo esquerdo, quase sempre quando está escuro, pela madrugada dentro, o que torna ainda mais delicado sair do quarto em pijama e bater à porta de um casal doente.
Há dias, depois de ouvir o choro alto da mulher e uma tentativa interrompida de sair de casa, liguei para a polícia. Lembrei-me do ensinamento da minha mãe e, esforçando-me por contrariá-lo, pedi que viessem ajudar aquela mulher, mesmo que ela não quisesse ser ajudada. Às vezes é preciso que alguém nos salve.
Pensei que seria desumano continuar inerte perante uma violência, uma força de morte que me entrava líquida pela casa adentro sem que eu tivesse sede. Chamei a polícia e, inquieta, esperei à janela pela ajuda pedida. Demoraram mais de uma hora. Quando bateram à porta dos meus vizinhos da frente, eles já se tinham calado, o dique das ofensas e das agressões estancara.
Através do óculo da porta vi o agressor, de camisola e cuecas com Mickeys e Minnies, e, confesso, surpreendeu-me o estampado infantil numa besta que eu imaginava vestida de látex ou flanela rançosa. Ali, diante de dois agentes da polícia, mentia com uma tranquilidade quase doméstica: que tinha sido engano, que não se passava nada, que a mulher estava deitada e não deviam acordá-la porque sofria de insónias.
Vi os agentes insistirem para que a esposa viesse à porta, precisavam de confirmar com ela. E a rapariga apareceu enfim, a medo, fingindo um despertar recente, os cabelos amarrotados, não sabemos se da almofada ou da pancada. Uma rapariga que não teria mais de trinta anos, vestida com um pijama completo que lhe cobria cada centímetro de pele, negando a queixa, dizendo que era engano, que devia ter sido noutro prédio, que ali não se passava nada.
E eu a lembrar-me do conselho da minha mãe, com vontade de permanecer calada, de não me meter na vida dos outros. Mas não sei o que me deu. Não sei se foram as figuras da Disney nas cuecas do monstro, se os cabelos da rapariga, tão desnorteados quanto o que lhe ia por dentro. Resolvi falar. Resolvi abrir a porta. Mesmo que não resolvesse nada, mesmo que apenas me criasse problemas, decidi fazer o que gostaria que fizessem por mim.
E então, quando me apresentei e disse que tinha sido eu a fazer a denúncia, a rapariga perdeu a força nas pernas e tombou sobre um dos agentes, um homem calvo e maduro. Depois chorou agarrada a ele, os olhos tão apertados como se não quisesse ver o que seria a sua vida dali em diante, como se não quisesse que a vissem a ela. Mas eu vi. Eu vi. E não me esqueço.
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