O que há para debater?

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Olhando apenas para a quantidade de vezes que pessoas trans têm sido mencionadas em debates televisivos e assembleias nos últimos tempos poderíamos julgar que cometemos, todos e em conjunto, algum crime horrendo, ou vários até. Um observador passivo com pouco conhecimento da língua portuguesa, mas com sapiência suficiente para percepcionar a repetição desta palavra-prefixo, julgaria que formamos uma célula terrorista decidida e determinada em dar fim a tudo o que há de bom e bonito no mundo. Surpreender-se-ia por saber que estamos firmemente e apenas interessados em ser quem somos, sem qualquer intuito de incomodar ou afetar negativamente a vida de quem, à nossa volta, tenta também o seu melhor para se fazer feliz.

O mesmo não se pode dizer dos homens e mulheres que escolheram nos últimos meses usar algum do seu tempo para propagar mentiras transfóbicas – agora também em formato televisivo, ódio ao vivo, a cores e em televisão nacional, para toda a gente ver.

Existe aqui algum tipo de fascínio fetichista. Quem mais nos repudia verbalmente mostra, ao fazê-lo, adorar falar dos nossos corpos. Das especificidades das nossas experiências. Da forma como nos enquadramos – ou não – nas suas visões egoístas e mesquinhas do mundo. A verdade é que nunca consentimos a ter os nossos corpos nas vossas mentes, as nossas histórias deformadas pelas vossas bocas ou sequer fazer parte da sociedade maçadora e imaginária que insistem pregar enquanto real.

Quem não consegue abrir a sua mente à possibilidade de experiências da realidade diferentes das suas irá sempre estar sozinho por mais aparentemente acompanhado que esteja. A verdade é que quando se fala sobre a realidade, sobre experiências reais que comprovadamente ocorrem tanto hoje como há milhares de anos atrás em variadíssimos contextos e civilizações, não há nada para se debater.

Querem tornar a nossa coragem em blasfémia. Numa sociedade que se preza tanto pelo controlo dos corpos, em que insistem em ditar vidas pelo que tens entre as pernas – dos teus pés à tua cabeça, do teu início até ao teu fim, firmemente definidos por um aspeto que nem chega a ser um décimo de quem somos – somos nós a ditar quem somos e não deixamos que nos tirem esse direito. Contra todas as adversidades e todas as dores lutamos por uma vida que nos faça sentido. Que nos faça felizes. Mas não será isso o que toda a gente faz, todos os dias da sua vida? Não será essa a grande odisseia que é estar vivo? O conto heróico que todos os seres humanos, independentemente da nacionalidade, género ou qualquer outra mísera característica, canta a cada dia que passa?

Cada pessoa trans, viva ou morta, é uma prova da coragem inerente ao ser humano. É um exemplo da garra que a autenticidade exige quando nos impõem modos de ser que sentimos enquanto artificiais e conformismo que os mantenha. É uma demonstração da diversidade da experiência individual, endémica à natureza da qual fazemos parte.

Tratar as pessoas trans com respeito a quem são não é “apenas” uma questão de nomes ou de pronomes, é uma questão de vida ou morte. A disforia de género e a transfobia causam um sofrimento tão horrível que chegam a matar, a qualquer idade. Podem ler inúmeros relatos, histórias e estudos que comprovam este facto ou, alternativamente, apenas falar com qualquer um de nós. De tão notavelmente ausentes que estamos nestes debates públicos fazem parecer que quase nem existimos, e pelo aspeto da situação e a violência que desencadeiam parece que é mesmo esse o intuito.

Se vos peço alguma coisa que seja, quando escolherem entre forçar uma visão do mundo no esforço de controlá-lo ou entender que a realidade se alonga muito além da vossa experiência e imaginação, fiquem-se pela segunda opção. Só nela é que qualquer tipo de amor, empatia e felicidade pode acontecer – e no fundo, por mais aparentemente distintos que nos possamos parecer, é só isso que todos nós queremos. Deixem-se maravilhar pela multiplicidade e complexidade do mundo em vez de a recear e aí, quem sabe, talvez até poderão encontrar algo muito mais belo do que alguma vez imaginaram. Talvez até poderão aprender a amá-lo. Talvez até poderemos encontrar, juntos, o longo caminho para uma sociedade baseada no respeito e na tolerância e não no ódio e na violência, onde mais nenhuma pessoa tenha de sofrer ou até morrer pela falta de empatia e bondade de a quem deveria ter cuidado. Eu pelo menos bem espero que sim.

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