Os passeios ocupados e a erosão do respeito colectivo: uma obra pequena, uma grande reflexão

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Há histórias aparentemente pequenas que dizem muito sobre o estado de uma sociedade. A rua de Cabinda, na União de Freguesias Parede/Carcavelos, é uma dessas histórias. Não apenas por uma obra ou um problema de estacionamento abusivo, mas porque nela se cruzam temas hoje centrais na vida colectiva: o civismo, a resignação social, a força do poder local e o papel dos cidadãos que se recusam a desistir.

Como em tantas artérias de inúmeros concelhos por esse país fora, durante demasiado tempo os passeios da rua de Cabinda deixaram de cumprir a sua função mais básica. Automóveis estacionados sobre as zonas pedonais transformaram algo tão simples como caminhar num obstáculo diário para idosos, pessoas com mobilidade reduzida, pais com carrinhos de bebé ou, simplesmente, para quem acredita que o espaço público deve respeitar todos e não apenas os mais fortes ou os mais indiferentes.

Mas o mais preocupante não é apenas a infracção. É a normalização da infracção. Como sociedade, habituámo-nos perigosamente ao “sempre foi assim”. À ideia de que reclamar não vale a pena, de que nada muda e de que o espaço público é um território onde cada um faz o que quer, desde que lhe seja conveniente. Entre portugueses e estrangeiros, estes últimos com responsabilidade acrescida de respeitar as regras da comunidade que os acolhe, instalou-se demasiadas vezes uma cultura de ausência de civismo, onde os direitos são exigidos, mas os deveres convenientemente esquecidos.

Talvez seja precisamente aqui que esta história ganha importância. Porque sempre me recusei a conformar-me. Recuso-me a aceitar que idosos tenham de caminhar pela estrada porque alguém decidiu ocupar um passeio. Recuso-me a aceitar que a falta de educação e de civismo se tornem paisagem normal nas nossas cidades. E recuso-me, sobretudo, a aceitar esta ideia cada vez mais instalada de que “não vale a pena”. Vale sempre a pena.

Foi essa convicção que me levou a insistir junto das entidades competentes, a acreditar ainda no poder local e a manter a certeza de que uma intervenção podia acontecer. Houve avanços e recuos, atrasos e dificuldades, mas manteve-se sempre a ideia essencial: cada cidadão pode fazer a diferença quando decide não desistir.

E a obra começou alguns meses depois. Num tempo marcado pelo descrédito na política, importa reconhecer aquilo que raramente se reconhece: ainda existem autarcas que dão a palavra e cumprem. E, quando isso acontece, merece ser dito com clareza. O poder local continua a ser a forma mais próxima e humana da política. É ali, na rua concreta, no problema concreto, que uma junta de freguesia ou uma câmara municipal conseguem melhorar efectivamente a vida das pessoas.

A política nacional vive muitas vezes aprisionada em slogans, guerras partidárias e debates abstractos. O poder local, pelo contrário, mede-se em passeios acessíveis, ruas organizadas, segurança, limpeza e qualidade de vida. Mede-se na capacidade de ouvir cidadãos e agir.

Por isso mesmo, esta não é apenas uma crónica sobre uma obra. É uma reflexão sobre o país que nos estamos lentamente a habituar a ser. Somos uma sociedade resignada, pouco exigente consigo própria, onde demasiadas vezes se perdeu a noção de comunidade, de respeito pelo outro e de responsabilidade colectiva. Nenhum pilarete ou passadeira resolve sozinho a falta de educação. Nenhuma fiscalização substitui os valores. Nenhuma obra pública consegue compensar a erosão cultural do civismo.

Ainda assim, há razões para acreditar. Porque basta um cidadão insistir para obrigar outros a agir. Basta um autarca cumprir a palavra para mostrar que a política não tem de ser sinónimo de desilusão. Basta uma rua melhorar para recordar que o espaço público não é uma abstracção: é o lugar onde vivemos juntos.

E talvez seja essa a verdadeira lição da rua de Cabinda. A de que as sociedades não mudam apenas através de grandes discursos ou reformas distantes. Mudam quando alguém decide não aceitar o inevitável. Mudam quando cidadãos participam. Mudam quando o poder local funciona. Mudam quando ainda existem pessoas que acreditam que vale a pena fazer, em vez de apenas comentar.

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