Porta-aviões ao fundo: o fim dos Trabalhistas em Makerfield?

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Leio os jornais ingleses numa minudência clínica, de estetoscópio na mão não à procura de esperança, mas para perceber se o paciente ainda respira. E o Partido Trabalhista, este Partido Trabalhista de Keir Starmer, é o paciente.

Andy Burnham decidiu regressar ao Parlamento e o impulso é compreensível. Há políticos incapazes de ficar à margem de um incêndio e querem entrar no edifício em chamas convencidos de poderem ainda salvar os móveis. Mas Makerfield não é apenas uma eleição. É um referendo.

Os jornais descrevem Burnham como a possível salvação dos Trabalhistas, um homem capaz de reconquistar o norte perdido, as cidades industriais abandonadas, os eleitores fugidos para o Reform UK como quem foge de uma igreja onde já ninguém tem fé.

Infelizmente, esta corrida não é apenas política e Burnham parte com atraso. Porque da janela do autocarro vejo os rostos cansados de Croydon, Wigan e Rochdale, operários reformados, mulheres com sacos dos bancos alimentares, rapazes a trabalhar doze horas por dia em armazéns mal alumiados, e nos seus olhares a mesma desilusão aquando do Brexit.

Um referendo nem por isso sobre a Europa, mas sobre décadas a ouvir promessas enquanto os salários encolhem, os hospitais esboroam-se, as rendas disparam e os empregos passam a trabalhos temporários em aplicações de entregas ao domicílio.

Neste cenário, votou-se Leave em nome de uma vida melhor. E desde então continuam a votar por uma vida melhor.

E Westminster é hoje um carro gripado, incapaz de melhorar materialmente a vida das pessoas, uma espécie de teatro administrativo onde se discutem percentagens enquanto a população passa fome.

O eleitorado já não procura programas. Procura culpados. E nesta arena, Nigel Farage prospera.

Porque a política inglesa já não funciona pela esperança, mas pela raiva, e enquanto os Trabalhistas apresentam relatórios, Farage apresenta inimigos de bandeja entre imigrantes, elites, Bruxelas, legisladores, ambientalistas e Westminster.

Qualquer alvo serve conquanto dê ao eleitor a sensação de ter alguém do lado de lá capaz de partilhar a sua frustração. E a estratégia funciona quando a vida piorou.

Basta olhar para as antigas cidades industriais do Norte, agora transformadas em conglomerados de apartamentos de luxo onde animais de estimação comem refeições orgânicas entregues por assinatura mensal. Uma realidade díspar lado com os bancos alimentares cujas famílias têm na escola a única garantia de uma refeição para os seus filhos.

E no meio disto os Trabalhistas inertes e incapazes de tomar uma decisão sequer, com medo dos mercados, medo dos jornais, medo dos investidores, medo da City.

A resposta governamental? Prudência, estabilidade, uma gestão responsável. Infelizmente, um eleitor desesperado não vota na prudência, vota em quem promete incendiar a sala.

Burnham acredita na sua imagem de homem do norte, mais próximo dos sindicatos e mais distante e dos salões de Westminster, uma imagem à procura de inverter o rumo. Mas Makerfield não quer saber de Burnham, quer saber dos Trabalhistas face a face com um verdadeiro teste existencial. E o importante é castigar quem governa.

Desde 2016. Primeiro contra David Cameron. Depois contra Theresa May. Depois contra Boris Johnson. Depois contra os Conservadores. Agora contra Starmer. Amanhã contra quem vier a seguir. Uma espécie de vingança eleitoral permanente num país onde a desigualdade cresce como bolor nas paredes das casas num Inverno sem fim.

Uma eleição após a outra num efeito dominó lento e inexorável rumo ao cenário antes impensável e impossível: Nigel Farage em Downing Street.

Fecho o jornal, olho pela janela para esta Inglaterra exaurida, também Ela uma jangada de pedra à deriva.

Deus nos acuda. Porque mais ninguém pode.

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