Será mesmo que lá em casa não mandamos nada?

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Querida mãe,

Sempre que ouvimos a palavra “poder”, ligamo-la imediatamente a um CEO de uma empresa gigante, a um presidente, um rei, a forças policiais. Mas, se pensarmos bem, quem são as pessoas que exercem mais poder sobre nós? Isso, querida mãe, acertou: os nossos pais. Não apenas os autoritários ou rígidos, mas todos. Todos, mesmo os mais permissivos do mundo. E a sua influência faz-se com amarras totalmente invisíveis, e para a eternidade.

Ou seja, não é tanto a pedagogia que se usa ou o tipo de parentalidade que se escolhe que traz poder, porque a questão é que ele já lá está, imbuído na dependência total em que nascemos. Quer se queira quer não, ao ponto de, no limite, mesmo os pais que abandonam ou maltratam os filhos, de alguma forma o manterem.

É por isso que, mesmo em adultos, continuamos a fazer birras com os nossos pais, porque as birras, na maior parte das vezes, não são mais do que tentativas de nos libertarmos do poder que alguém tem sobre nós. Quando não nos sentimos suficientemente seguros para sermos capazes de serena, mas firmemente, afirmar o nosso território, gritamos e esperneamos.

São birras que representam um esforço contínuo de determinar quanto poder vamos continuar a dar aos nossos pais sobre as nossas vidas. E esse é um trabalho longo e difícil, com altos e baixos e que, muitas vezes, só dá um salto qualitativo quando nos tornamos também pais e mães. No momento em que, de repente, tomamos consciência de que temos nas mãos um poder igual ao deles e que, com ele, vem uma responsabilidade tão gigantesca que, às vezes, preferimos refugiar-nos naquele discurso de que lá em casa não mandamos nada.

Mas as birras são sempre uma luta de poder desigual. Enquanto pais, se formos sérios connosco próprios, reconhecemos que temos a faca e o queijo na mão, e que eles berram e gritam porque intuem que não sobrevivem sem o nosso amor e a nossa proteção, com toda a frustração e medo que isso lhes provoca.

A verdade é que quando percebemos que não se trata de um braço de ferro, mas de um pedido de que com todo o nosso poder os ajudemos a crescer, tornamo-nos mais capazes de gerir as suas explosões, ensinando-lhes formas eficazes de fazerem valer a sua vontade, tornando-os a cada dia mais independentes. Quanto melhor o tenhamos conseguido fazer em relação aos nossos pais, mais fácil será fazê-lo em relação aos nossos filhos.

Resumindo, posso continuar a fazer birras contra o seu poder sobre mim?


Querida Ana,

É claro que podes, porque eu continuo a fazê-las todos os dias com a tua avó. É essa a dimensão do poder dos pais sobre os filhos, a que nem a barreira da morte consegue (felizmente) por fim. Discuto com a minha mãe todos os sábados de manhã, porque a oiço dizer-me que não devo dormir até tão tarde, protesto com ela porque me continua a mandar comer a horas e, por muito que tenha refilado por me estar sempre a mandar pentear o cabelo atrás — a que respondia com um “Não vale a pena porque não vejo!” —, a verdade é que aos 66 anos estou constantemente presa no dilema de a contrariar ou não.

Mas estas são birras benignas, as que já não doem, nem fazem mossa, mas tantas vezes o sabor que fica aos filhos do poder dos pais é muito mais amargo. É o do abuso do poder, de como foram humilhados e mal-amados por pais que, provavelmente, repetem numa nova geração as prepotências de que foram alvo.

Por pais narcisistas que quiseram dobrar os filhos à imagem que viam de si próprios no espelho, sem qualquer respeito pela sua individualidade. Pais que colocaram um tal colete-de-forças às suas crianças que elas só se conseguiram libertar dele com violência. E quando isto acontece é mesmo preciso pedir ajuda (e não ter medo de recorrer à terapia) para cortar o ciclo, antes de o repetir porque, infelizmente, não basta desejar não o fazer. Usamos o poder como o vimos ser usado em casa, no trabalho, na relação com os outros, e quando baixamos a guarda, damos o que recebemos.

A moral da história é simples, mesmo que tenha um sabor a sermão de domingo: quando merecemos o poder que recebemos e o pomos ao serviço dos outros, a coisa acaba bem.


O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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