É preciso saber viver com emergências. Epidemias causadas por agentes infeciosos novos, sazonais ou reemergentes, fenómenos climáticos extremos, bem como falhas tecnológicas, ruturas de abastecimento e conflitos fazem hoje parte dos desafios centrais de um Estado moderno.
No entanto, persiste a dificuldade de a administração pública assumir plenamente as suas responsabilidades: antecipar riscos, preparar respostas adequadas e agir com rapidez, eficácia e empatia quando as pessoas mais precisam.
Este inverno voltou a confirmá-lo.
A intensidade da gripe não podia ter surpreendido. A evidência acumulada mostra que o período pós-pandémico se associa a epidemias respiratórias mais irregulares e intensas, com maior impacto nas pessoas mais vulneráveis e padrões sazonais menos marcados, tornando cada vez menos relevante a ideia de um “pico” único como momento de resolução.
Sabe-se também que o frio agrava doenças crónicas e aumenta a mortalidade evitável. O frio não mata apenas por razões biológicas: mata sobretudo quando encontra pobreza energética, habitação inadequada, isolamento e um sistema de proteção social insuficiente e lento.
Perante um excesso de mortalidade, as explicações das autoridades de saúde voltaram a oscilar entre a normalização, o adiamento de balanços e a invocação de fatores excecionais. É verdade que a análise das causas de morte exige rigor e algum tempo. Mas a vigilância epidemiológica já mostrava um excesso de mortalidade persistente, com impacto para além das pessoas mais velhas — um perfil fora do padrão europeu.
Não se trata de estabelecer causalidades simplistas, mas de reconhecer que as condições deste inverno — com barreiras no acesso à triagem e ao socorro, e serviços de saúde com recursos insuficientes — aumentam riscos conhecidos, sobretudo em populações envelhecidas e socialmente expostas. E esses riscos podem, e devem, ser mitigados através de planeamento e prontidão sazonal consistentes, com reforço atempado de meios e proteção ativa das pessoas em risco. A falha não foi apenas de leitura; foi de ação e de investimento em prevenção. Até as vacinas recomendadas para os mais idosos estiveram indisponíveis.
Este padrão não se esgota na saúde. Atravessa áreas distintas, revelando uma fragilidade mais profunda: a dificuldade em corrigir vulnerabilidades antes do episódio seguinte. Cada emergência continua a ser tratada como um caso isolado, e não como parte de um risco estrutural que exige preparação cumulativa, recursos em prontidão e capacidades efetivas. Exige não apenas planos no papel, mas meios mobilizáveis e a capacidade real de os ativar, coordenar e fazer chegar às pessoas quando é preciso.
O apagão de abril de 2025 expôs fragilidades muito além da energia: comunicações interrompidas, serviços essenciais paralisados, pessoas dependentes dessas infraestruturas em risco e uma população demasiado tempo sem informação clara nem presença visível do Estado. A criação posterior de um novo centro de resposta, sustentado por um manual não acessível ao público, reconheceu implicitamente essas falhas. Mas estruturas no papel, sem transparência e sem serem testadas e revistas, não garantem preparação.
Menos de um ano depois, a tempestade Kristine confirmou a persistência das mesmas insuficiências. Não surgiu de forma isolada: integrou uma sucessão de depressões atlânticas que já vinham a fragilizar o território. O risco era conhecido e cumulativo, o que tornava ainda mais necessária a antecipação de meios e a prontidão operacional. Ainda assim, o país entrou nesse período crítico sem capacidade de resposta adequada. A destruição foi extensa e, quase cinco dias depois, mais de 150 mil clientes continuavam sem eletricidade, afetando centenas de milhares de pessoas privadas de energia, água ou comunicações, em pleno inverno e com novas intempéries já anunciadas para dias depois.
Quando a resposta institucional se tornou visível, foi muitas vezes tardia e limitada, com comunicação centrada na narrativa do esforço mais do que na resolução concreta dos problemas. No terreno, a resposta assentou sobretudo na solidariedade entre pessoas, no esforço dos autarcas e na mobilização da sociedade civil.
O discurso recorrente da “aprendizagem coletiva” e a invocação da inevitabilidade destes impactos tornaram-se, demasiadas vezes, substitutos da ação. É verdade que nenhum Estado pode ser dimensionado para catástrofes permanentes. Mas confundir limites reais com impreparação é insustentável perante o sofrimento de quem ficou sem proteção quando mais precisava.
O problema não foi apenas de tempo. Foi de adequação e de escala. Em situações desta gravidade, espera-se que as autoridades atuem de forma integrada: na proteção civil, na resposta social, na saúde, na administração e no acesso à justiça. A ausência ou fragilidade dessa coordenação aprofunda o sentimento de abandono e revela a falta de uma visão sistémica na gestão da crise.
A preparação para emergências sanitárias, climáticas, tecnológicas ou geopolíticas é uma função essencial do poder público. Exige também uma ligação articulada e permanente ao conhecimento científico. Não basta reagir em crise. Um país preparado beneficia de mecanismos estáveis de aconselhamento científico multidisciplinar, capazes de antecipar riscos, acompanhar sinais precoces e traduzir evidência em decisão política de forma transparente. Isso não substitui a responsabilidade política — reforça-a.
Na saúde, isso é particularmente evidente: novos agentes infeciosos, alterações climáticas e fragilidades acumuladas dos serviços públicos continuarão a testar a capacidade de resposta e a expor desigualdades. Empurrar profissionais e cidadãos para uma adaptação permanente não é responder; é desgaste acumulado.
Preparar melhor o país exige decisões difíceis, investimento sustentado e tempo. Três fatores que raramente coincidem nos ciclos políticos. Mas a aceleração, a complexidade e a diversidade das crises atuais tornam essa preparação cada vez menos adiável. As emergências do nosso tempo exigem memória institucional, planeamento sério e uma governação que valorize a empatia tanto quanto a eficácia. Exigem uma administração pública presente antes, durante e depois da crise. A insistência em classificar cada evento como “excecional” ou “o pior de sempre” é uma má desculpa e cria uma ilusão perigosa: num contexto de risco cumulativo, as situações extremas são parte do cenário com que os responsáveis têm de contar.
Continuar a tratar o previsível como surpresa é uma escolha que tem custos humanos, sociais e políticos evitáveis que não podem continuar a ser ignorados.
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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