A colónia de abutres-pretos mais ameaçada do país, a do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), tem mais uma hipótese para se manter e, se possível, expandir-se, depois de ter sido criticamente afectada pelo incêndio que, em Agosto, dizimou mais de dez mil hectares daquele território. A campanha de recolha de fundos lançada pela organização não-governamental de ambiente Palombar conseguiu angariar os 30 mil euros necessários para implementar todas as medidas consideradas essenciais para a conservação daquela espécie ameaçada e as medidas já estão no terreno.
Foram várias as pessoas e as entidades colectivas que se juntaram à campanha Ajudar o Abutre-preto após incêndio no Douro Internacional, permitindo que a meta fosse atingida. Há, por isso, alívio e percebe-se um sorriso na voz do biólogo Iván Gutiérrez, da Palombar, no momento de fazer o balanço da iniciativa. Graças ao valor conseguido, todas as medidas necessárias à conservação do abutre-preto (Aegypius monachus) vão poder ser implementadas, ainda que a chuva incessante que tem afectado também o PNDI não tenha permitido, para já, o avanço de todas elas.
Entre o que já foi feito está a limpeza do terreno, a realização de sementeiras, para acelerar o restauro do habitat, a colocação de três ninhos artificiais (todos do lado português do parque) e a reconstrução das quatro plataformas-ninho afectadas pelo incêndio, o reforço da alimentação, a recuperação da jaula de aclimatação e o aumento da monitorização.
Os seis abutres-pretos que estavam na jaula de aclimatação aquando do incêndio e foram resgatados antes de o fogo destruir o espaço, também já foram libertados no PNDI, na esperança de que o escolham como local para nidificar, já que não tinham ainda um território definido quando foram inicialmente colocados na jaula.
Das medidas essenciais, a única que ainda falta concretizar é a reactivação do sistema de videovigilância, mas o material necessário para que isso aconteça, como painéis solares e baterias de longa duração, já foi adquirido. “A empresa que contratámos já tem tudo pronto, só precisamos de um dia sem chuva para poder montar o sistema”, diz o biólogo da Palombar.
Primeiro o fogo, agora a chuva
E não é essa a única consequência da chuva que não tem dado tréguas ao país. Desde logo, porque tem impedido os técnicos da Palombar, um dos parceiros do programa LIFE Aegypius Return, de irem para o terreno e perceberem como está a colónia.
Uma das grandes dúvidas depois da devastação deixada pelo incêndio era se os oito casais que se estima que ali nidificaram no ano passado iriam regressar. Das cinco crias que nasceram em 2025, duas morreram e há a suspeita que outras duas possam também ter perecido. Dois ninhos foram destruídos por completo e outros seis foram afectados.
Havia a expectativa que no final de Janeiro já fosse possível perceber se as aves que tinham escolhido o PNDI para se reproduzir estavam de volta, mas a chuva que tem impedido os técnicos de ir para o terreno fez com que a incerteza se mantenha. “Ainda não conseguimos ver se os oito casais estão todos no território, porque o tempo tem estado tão mau que não tem dado para monitorizar. Mas no campo de alimentação, junto à jaula, aparecem indivíduos adultos. Vamos ver se daqui a 15 dias já conseguimos ter uma ideia mais clara”, diz Iván Gutiérrez.
Quando a chuva der tréguas, os técnicos também poderão perceber se a chuva afectou os ninhos dos abutres-pretos – a espécie é extremamente fiel ao espaço que escolhe para se reproduzir. “Aqui, como nidificam em arribas, não há risco causado pelo deslizamento de terras. O problema destes temporais, por causa da chuva e do vento, é que os ninhos possam ter caído ou ter ficado parcialmente destruídos. São muito grandes, com a água da chuva ficam muito pesados e com o vento podem partir”, explica o biólogo.
Quase certo, para os técnicos que estão no PNDI a acompanhar o abutre-preto, é que o período de nidificação da espécie será, este ano, atrasado, por causa do mau tempo. Em situações normais, há casais que no final de Janeiro já têm um ovo, mas todo o processo que leva a esse desfecho – recompor o ninho, recolher alimentação, o voo de “cortejamento” – está a ser afectado pelos sucessivos temporais.
“Já tivemos dois grupos na jaula de aclimatação e do primeiro, de 2024, formou-se um casal que ficou na colónia. Acreditamos nisso porque têm emissor GPS e praticamente voam sempre juntos, passam as noites em ninhos antigos de outros casais e achamos que vão ocupar um em que estão muito fixados, mas ainda não devem ter começado [a postura], porque há uns dias em que estão ali e outros não. Se tivessem ovo, permaneceriam no ninho”, diz o responsável da Palombar.
Crescimento tímido
A palavra de ordem é, por isso, esperar. Mas também de agradecer a todos os que participaram na angariação de fundos – o que a Palombar fez em comunicado, referindo que o apoio veio de muitos particulares mas também de entidades colectivas, como a União Internacional para a Conservação da Natureza dos Países Baixos, a REN – Redes Energéticas Nacionais, a Lightsource bp e a Proactivetour.
A colónia de abutres-pretos do PNDI é a mais isolada e frágil do país. Os dados relativos à época de reprodução de 2025, divulgados em Dezembro, apontavam para um crescimento tímido das cinco colónias conhecidas em todo o território nacional, muito graças ao mau tempo que se fez sentir e aos incêndios.
Estima-se que existam entre 119 a 126 casais nidificantes nas cinco colónias, dos quais 94 a 100 nidificam em Portugal, sendo os restantes transfronteiriços, com os ninhos em Espanha. Quanto às crias, foram “recrutadas para a população” 56 (40 nascidas em Portugal), o que significa que sobreviveram até se tornarem independentes.
Os números são claramente positivos, face aos objectivos iniciais do projecto LIFE Aegypius Return, já que em 2022 estimava-se que existiriam cerca de 40 casais nas quatro colónias então conhecidas, e se pretendia duplicar esse número até 2027.
Apesar de esse valor ter sido claramente ultrapassado, quem acompanha as colónias de abutre-preto no país recorda, sistematicamente, que a espécie continua na categoria Em Perigo no Livro Vermelho (uma vitória, já que em 2022 estava classificada como Criticamente em Perigo), pelo que a sua fragilidade é ainda uma realidade.
Algo que o incêndio do PNDI tornou evidente. A expectativa é que a boa notícia trazida pela recolha de fundos possa dar um novo impulso à colónia do Douro.
A nível nacional, a colónia do Parque Natural do Tejo Internacional é a que tem maior expressão: estima-se que ali se reproduzam entre 68 a 72 casais, tendo havido no ano passado 36 crias recrutadas para a população.
As restantes colónias estão na Herdade da Contenda (16 a 18 casais, cinco crias), na Reserva Natural da Serra da Macalta (15 casais, oito crias) e na Vidigueira. Esta última é a mais recente, tendo sido descoberta apenas em 2024. A estimativa é que tenha entre 12 e 13 casais e duas crias.
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