Contra a indignação seletiva

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Estou no Brasil onde um assunto muito debatido nas últimas semanas foi o espancamento do cãozinho Orelha, em Santa Catarina. Não quis me aprofundar nos detalhes, nem li reportagens sobre o assunto. É horrível ver que adolescentes achem que não há problema em agredir um animal inocente até deixá-lo à beira morte. Mais terrível ainda é saber que existem estímulos vindos da internet para essas sessões de sadismo, e jovens idiotas o suficiente para segui-los.

É uma tristeza imensa pensar que existem pessoas no mundo que não se preocupam com o sofrimento alheio, nem dos humanos e muito menos dos animais. Mas o que mais me assusta é o que chamo de indignação seletiva. Fiquei muito chocada com a morte de Orelha e ao tomar conhecimento dessas comunidades que estimulam o assassinato de animais. No entanto, em um mundo que acha normal torturar e matam mais de 80 bilhões de seres todos os anos (se somarmos os peixes e outras criaturas marinhas, esse número pode facilmente chegar a casa do trilhão), por que a morte de Orelha nos causa tanta revolta?

Algumas pessoas dizem que animais de companhia são diferentes de animais de “corte”. Por que fazemos diferença se são todos seres vivos, que sentem dor, solidão, fome e medo? Por que devemos tratar alguns, por exemplo, cachorros e gatos, melhor do que os outros? E por que a maioria das pessoas não se indigna com o teste doloroso de cosméticos em cães da raça beagle (que são conhecidos por sua doçura) ou em coelhos e macacos a ponto de deixar de comprar cosméticos que são testados em animais, e sofremos com a morte de Orelha? Juro que me escapa o mecanismo que nos faz ignorar o sofrimento de uns e gritar com a dor dos outros.

Por que ignoramos o sofrimento da vaquinha Mimosa, que durante toda a sua vida será estuprada e dará à luz a seus filhotes só para vê-los arrancados de seu convívio e assassinados como dejetos da indústria do leite? Por que a galinha Cocó, que mal consegue ficar de pé porque é estimulada a botar mais ovos do que sua estrutura óssea é capaz de suportar não é alvo de abaixo assinados que impeçam seu sofrimento e o de seus filhotes que, se nascerem machos, serão triturados ou queimados vivos?

Ignoramos também o sofrimento de animais que não são mortos pela carne, mas passam a vida a sofrer por nossa causa. As ovelhas e alpacas, por exemplo, sentem dor e pavor não apenas na hora da tosquia, quando as máquinas cortam suas peles junto com a lã, mas também quando são imersas em tanques com produtos químicos destinados a prevenir parasitas. Mas não vejo muita gente protestando para impedir que isso aconteça em locais com criação desumana.

A maioria das pessoas que conheço nem ao menos deseja conhecer a realidade sobre o assunto da criação de animais para o abate e outros usos humanos, porque o considera muito indigesto. Com certeza o tema é mesmo bastante horrível. Mas temos que encarar os efeitos de nossas ações e de nossa falta de ação. A ignorância conveniente nada mais é do que uma forma de complacência.

Eu entendo que não querer saber é muito mais fácil do que mudar hábitos tão enraizados quanto a alimentação ou a maneira como nos vestimos e os produtos que usamos. Eu também sinto essa dificuldade em um mundo que ignora a dor dos animais. O que tento fazer é diminuir os danos, evito comer qualquer coisa que venha dos animais e comprar roupas e produtos que possam ser fruto de sofrimento. E vejo, com esperança, que algumas pessoas estão aos poucos caminhando nessa direção.

Imagino que seja nossa responsabilidade como sociedade cuidar de todos, não só do pobre Orelha. Até para evitar que adolescentes e adultos continuem a achar normal matar – humanos ou animais.

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