As ditaduras e a América de Trump que mata cidadãos

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As mortes de Renee Good e de Alex Pretti às mãos do ICE, a polícia federal de imigração, provocaram um murro no estômago a todos os defensores da democracia. A América de Trump está a caminho de um autoritarismo cada vez maior e todos os dias descobrimos mais um dado que o prova, apesar de preferirmos acreditar que algo vai acabar por salvar os EUA do populismo radical.

Renee Good e Alex Pretti morreram com uma diferença de duas semanas, ambos na cidade que se tornou o epicentro recente da luta pelos direitos dos imigrantes e pela liberdade, Mineápolis. E era isso que faziam: protestavam contra a actuação desumana dos agentes do ICE e monitorizavam os seus passos tentando dar aos imigrantes a possibilidade de escaparem. Por isso, foram executados por polícias e de seguida difamados por Trump. Renne, poetisa, escritora, mãe, passou a ser uma “desordeira” e “agitadora profissional” e Pretti, enfermeiro num hospital de veteranos de guerra, um “rufia” e um “insurgente”. O Presidente dos EUA justificou as duas mortes, Mineápolis e o estado do Minnesota revoltaram-se exigindo a saída imediata dos agentes do ICE das ruas.

O que diferencia estas mortes nos EUA de outras registadas em países tomados há anos por ditaduras? Olhemos por exemplo para Angola, país que tem um regime que a Human Rights Watch continua a classificar como autoritário face às restrições severas à liberdade de expressão, de associação e de imprensa, e ao recurso de polícias à tortura e a detenções arbitrárias.

Em Novembro de 2020, a polícia matou a tiro Inocêncio de Matos, de 26 anos, num protesto em Luanda, Angola, contra o adiamento das eleições autárquicas. Dois anos depois, Adão Caoluna, de 32 anos, e Luís Lourenço, de 35 anos, foram baleados pela polícia durante uma greve de trabalhadores na província do Cuanza Norte.

De acordo com a Amnistia Internacional, Inocêncio estaria ajoelhado com as mãos no ar e António tentava explicar aos polícias os motivos da greve. Também Renee, desarmada e dentro de um carro que não avançou contra agentes do ICE, tinha acabado de dizer aos agentes: “Está tudo bem. Não estou chateada consigo. Não estou chateada com nenhum de vocês”. Igualmente, Pretti acabara de perguntar a uma mulher atirada ao chão pelos agentes se “estava bem”. Foi manietado, desarmado pelo ICE (carregava uma arma legal) e morto logo a seguir.

Os vídeos divulgados pelos jornais norte-americanos são de uma crueldade inaudita que não se espera encontrar em polícias numa democracia do século XXI. O Washington Post e o The New York Times, assim como o PÚBLICO, analisaram-nos ao pormenor: foram mortos quando não representavam qualquer ameaça. Os médicos-legistas que depois fizeram as autópsias classificaram-nos como casos de homicídio.   

Aldous Huxley dizia que os ditadores apostam na “repetição de palavras de ordem que desejam que sejam aceites como verdadeiras e na supressão de factos que desejam que sejam ignorados” e que “à medida que a arte e a ciência da manipulação forem melhor compreendidas, os ditadores do futuro sem dúvida aprenderão a combinar estas técnicas com as distracções incessantes que, no Ocidente, ameaçam agora afogar num mar de irrelevância a informação racional essencial para a manutenção da liberdade individual e para a sobrevivência das instituições democráticas.”

O pensamento do escritor foi premonitório — escreveu-o em O Regresso ao Admirável Mundo Novo, publicado em 1958. Trump e outros populistas anteriores ou actuais estão a comprová-lo num exercício entre o recurso à desinformação como ferramenta (com intenção de enganar com factos falsos) e à propaganda, que nem sempre usa mentiras, pode até usar factos reais mas distorcidos de forma tendenciosa e inflamados com linguagem emocional cujo objectivo é frequentemente o favorecimento de uma ideologia.

Esta newsletter é referente a Janeiro, mês em que Donald Trump fez um discurso cheio de mentiras no Fórum Económico Mundial. Verificamos algumas, desde a energia eólica chinesa à NATO, passando pela situação na Gronelândia. E o Presidente do Brasil afirmou que “pobre não precisa de estudar”? Não, as declarações foram descontextualizadas. Lula da Silva usou a ironia para criticar o facto de, no passado, existirem muitos jovens no Brasil que, por serem pobres, não conseguiam chegar ao ensino superior.

E no panorama nacional, será que o líder da comunidade do Bangladesh em Lisboa prometeu estabelecer o Islão em Portugal? Não, é falso, como verificamos.

Janeiro foi o mês dos vários debates entre os candidatos presidenciais e mais uma vez o PÚBLICO verificou-os através da Prova dos Factos. Fez o mesmo no único debate entre Seguro e Ventura já na segunda volta eleitoral. Saúde, imigração e o que disseram outros Presidentes foram os temas que marcaram o debate.

Em Janeiro, realizamos também a conferência final do projecto Upstream, uma iniciativa de monitorização, estudo e divulgação de narrativas desinformativas antes da sua disseminação generalizada, financiada pelo European Media and Information Fund, e levada a cabo em estreita colaboração entre o PÚBLICO e o Iscte. O debate, que decorreu no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do Iscte-IUL fez-se em torno da relação entre desinformação, polarização e narrativas falsas.

Veja aqui mais algumas Provas de Factos:

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Desconstruindo a desinformação

Narrativa de que estrangeiros obtêm nacionalidade numa hora em serviços do Estado é falsa

Alguns vídeos que alegam que há imigrantes a comprar a nacionalidade em serviços do Estado “em apenas uma hora” mostram documentos que não são portugueses. Outros foram gravados há já vários anos.

Obrigado por acompanhar o PÚBLICO e a Prova dos Factos. Bom fim-de-semana!

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