A chuva não dá tréguas e os caudais dos rios, alimentados por descargas das barragens, engordam e transbordam das margens. A expressão “cheia de 100 anos” pode marcar este momento do país, à boleia das imagens de rios galgados, estradas submersas e populações desalojadas. Mas os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO convergem num ponto essencial: é prematuro — e tecnicamente arriscado — classificar já o que o país está a viver.
Antes de mais, um esclarecimento essencial: o conceito de cheias de 100 anos não quer dizer o que intuitivamente podemos ler. Ou seja, este termo não significa que estamos perante cheias que ocorrem de 100 em 100 anos, mas refere-se a inundações de magnitude extrema, com 1% de probabilidade de ocorrer num dado ano.
Para já, depois de um Janeiro chuvoso, que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) classifica como o segundo mais chuvoso desde o ano 2000, os caudais dos rios Douro e Tejo atingiram níveis críticos em Fevereiro, comparáveis aos registados nas cheias de 1997. Este fenómeno extremo, associado a condições meteorológicas adversas, levou a Protecção Civil a emitir alertas vermelhos. O risco de perigosas cheias mantém-se com a influência da depressão Marta.
“Tudo aponta para uma cheia de 20 anos”
Jorge Avelar Froes, engenheiro agrónomo e presidente da Associação +Tejo, acompanha há décadas o comportamento hidrológico deste rio. E a sua leitura é clara: “Não chegámos aos dez mil metros cúbicos por segundo [na madrugada de sexta-feira] no Tejo e já está a baixar. Espanha também. Acredito que se vai ficar por uma cheia média”. Numa conferência de imprensa realizada na sexta-feira, a Agência Portuguesa do Ambiente e a ministra do Ambiente e da Energia referiram que o caudal do Tejo tinha descido, encontrando-se nos 6700 m3/s.
IPMA
Na sequência dos dados divulgados pela APA sobre o risco de cheias durante a depressão Marta, o especialista comenta: “A informação refere-se aos caudais de cada bacia portuguesa e vemos que dia 11 de Fevereiro [próxima quarta-feira] será o dia crítico. Por exemplo, no Tejo, em Almourol, o caudal deverá subir para 7854 m3/s. Mas na quinta-feira, na mesma zona, chegou a 8900 m3/s”.
Assim, apesar da anunciada chegada da tempestade Marta, o especialista arrisca: “Parece-me que o pior já passou”. Os valores registados até agora e previstos para os próximo dias definem já o que “é tecnicamente considerado uma grande cheia no Tejo”, mas estão longe do patamar dos 100 anos.
Jorge Froes fez as contas: “Entre 1920 e 2020, houve sete ou oito cheias com caudais na ordem dos dez mil metros cúbicos por segundo. A probabilidade de acontecerem anda nos 15% a 20%.” Traduzindo: “Para, já são cheias de 15 a 20 anos.”
A maior cheia do século XX ocorreu em 1979, com 14 mil metros cúbicos por segundo. “A cheia de 1979 é a que corresponde mais ou menos a uma vez em 100 anos”, diz. E, antes dela, a maior de sempre registada foi em 1876. “Esta que estamos a viver não chega lá.”
E confirma: “Não há grande diferença entre o caudal dos 20 anos e o dos 100 anos.” A diferença entre 12 mil e 14 mil m3/s é pequena, e os níveis de água variam apenas cerca de um metro entre eventos extremos. “Mas, tecnicamente, não estamos numa cheia de 100 anos.”
Cheias históricas
Temos no nosso passado situações de cheias que são indiscutivelmente marcos na história. O momento que estamos a enfrentar, sem qualquer hesitação, vai ser um novo marco, sobretudo pelo rasto de destruição deixado por ventos de uma força brutal e chuvas intensas em algumas regiões do país. Mas será “uma cheia de 100 anos”? É cedo para dizer, respondem os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO, mas é possível, admitem alguns deles, que se chegue a esta classificação, uma vez que a água não vai parar de encher os caudais e as bacias.
Olhando para o passado, Ricardo Trigo, climatólogo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, lembra, por exemplo, que “as cheias de 1967 – classificadas como cheias de 100 anos – foram essencialmente cheias urbanas, porque choveu muito num só dia na região de Lisboa”. Algo muito diferente do que se está a passar agora.
Para quem já não se lembra, na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 “a morte caiu do céu”. “A noite do fim do mundo“, como recordou Margarida David Cardoso no PÚBLICO em 2017. Mais de 500 mortos foram contabilizados em estatísticas duvidosas “controladas” pelo regime, sobretudo nos arredores de Lisboa. Residentes em nos bairros pobres e vulneráveis, em Odivelas ou Loures, perderam a vida depois de uma chuva que atingiu valores históricos.
Ricardo Trigo também recusa usar neste momento o rótulo dos 100 anos para a situação de enfrentamos. “A resposta vai ser diferente para cada bacia hidrográfica”, afirma.
“Provavelmente vai ser um período de retorno [o período de retorno de precipitação, ou tempo de recorrência, é uma estimativa estatística do intervalo médio, em anos, para que um evento de chuva de determinada intensidade seja igualado ou superado] bem mais alto para o Sado do que para o Mondego.” Mas, sublinha: “Não faz muito sentido especular quando o fenómeno ainda não acabou.”
“A pergunta é: onde?”
Rodrigo Proença de Oliveira, especialista em hidráulica e recursos hídricos e investigador no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, responde imediatamente com uma interrogação: “A pergunta é onde?”
O período de retorno — o tal número que popularmente se traduz em “cheia de X anos” — depende sempre de um local concreto e de dados que ainda não existem, justifica. E os que existem estão claramente incompletos por esta altura, quando se espera que a precipitação continue nos próximos dias, talvez mesmo até ao Carnaval.
MIguel Manso
No Tejo, recorda também Rodrigo Proença de Oliveira, “ainda não chegámos aos valores da cheia de 1979”, quando o caudal atingiu cerca de 14 mil metros cúbicos por segundo. “Quinta-feira pode chegar aos nove mil ou dez mil, mas ainda não chegámos aos 14.” E insiste que qualquer afirmação agora seria um “gut feeling, sem cálculo nenhum”.
Um ano excepcional
Ainda assim, o fenómeno que atravessamos é excepcional. Froes sublinha que este Inverno tem uma característica rara: “Este ano foi para o país todo.” Não é comum haver cheias simultâneas no Tejo, Sado, Mondego e Guadiana, nota. “Passaram grandes massas de água e choveu por todo o país e toda a Espanha.”
Ainda assim, distingue riscos: – Tejo, Sado e Mondego são as bacias mais vulneráveis, pela extensão das várzeas; – Guadiana é “pacífico”, porque está encaixado; – Douro só inunda pontualmente na foz e zonas ribeirinhas, como aconteceu esta madrugada de sexta-feira.
O que era raro pode deixar de o ser
A discussão sobre períodos de retorno já não pode ignorar o impacto das alterações climáticas. Um estudo publicado em Setembro de 2023 na revista Earth’s Future concluiu que a subida do nível do mar está a alterar profundamente a frequência das grandes inundações costeiras.
Num cenário moderado, avisavam os autores do estudo, as cheias de 100 anos poderão ser seis vezes mais frequentes já em 2050. No cenário mais drástico, poderão tornar‑se 11 vezes mais frequentes. Em muitas regiões costeiras do mundo, eventos que hoje são raríssimos poderão ocorrer a cada nove a 15 anos a meio do século — e, mais dramático ainda, todos os anos em 2100.
João Joanaz de Melo, especialista em política ambientais e avaliação de impactos e também membro do Conselho Nacional da Água, sublinha a implicação directa e a associação com as alterações climáticas que vão aumentar a intensidade destes fenómenos extremos: “Num clima em mudança, podemos até vir a concluir agora que isto é uma cheia dos 100 anos e daqui a dez anos perceber que afinal é uma cheia dos 20.”
Copérnico
O investigador não deixa, no entanto, escapar a oportunidade para um apelo “às contas” que se vão fazer após estas tempestades: “Será uma oportunidade única para actualizar os mapas de risco que temos actualmente. Olhar para onde construímos ou planeamos construir”. Um exemplo? “Já viu que o local onde se planeia construir uma mega estação para a Alta Velocidade em Coimbra está agora totalmente submerso?”.
Cheias diferentes, riscos diferentes
Os especialistas distinguem fenómenos distintos. As cheias repentinas — como as de 1967 — resultam de precipitação muito intensa em pequenas bacias urbanas. Já as cheias actuais são “cheias nas grandes bacias”, alimentadas por semanas de chuva generalizada e pela gestão das albufeiras.
Por isso, a percepção pública pode enganar: “As pessoas vêem um metro de água numa rua e pensam logo em cheia de 100 anos”, admite o investigador Rodrigo Proença de Oliveira, especialista em disponibilidades hídricas. Mas o que está a acontecer “não é o tipo de cheia que mata sem aviso em pequenas ribeiras; são cheias de grande escala”.
Ordenamento do território: o factor esquecido
Joanaz de Melo insiste que o território continua a ser um amplificador de risco: “O uso do solo tem imensa influência sobre o comportamento das cheias.” A impermeabilização urbana, a ocupação de zonas de risco e a degradação de diques e sistemas de drenagem agravam a vulnerabilidade.
Froes confirma: “Há 40 anos que os diques deixaram de ter manutenção.” E também repete o aviso: “Se rebentar um dique, não é uma inundação lenta — é uma enxurrada. O meu medo é que nesta cheia rebente um dique.” Se isso acontecer, “a água entra por ali abaixo e arrasta tudo”.
Um Inverno muito chuvoso
Janeiro, de acordo com o resumo preliminar do Boletim Climatológico do IPMA, posiciona-se como o 14.º Janeiro com maior precipitação desde 1931. Os dados disponíveis revelam que o total de precipitação atingiu 233,4 milímetros (litros por metro quadrado), praticamente o dobro do valor médio correspondente ao período 1991-2020, situado em 105 milímetros.
Nuno Ferreira Santos
Na sexta-feira o IPMA lembrou que a chuva não começou em Janeiro e fez as contas, recuando mais um pouco. “Entre Novembro de 2025 e Janeiro de 2026, Portugal continental registou um período excepcionalmente chuvoso, posicionando-se entre os mais intensos das últimas décadas. Este trimestre foi o 7º mais chuvoso desde 1931 e o 2º mais elevado desde 2000, com precipitação acumulada acima da média em todo o território.”
Sobre o ano hidrológico 2025/26, iniciado a 1 de Outubro, o instituto refere que será “um dos mais chuvosos dos últimos 25 anos, sendo até ao momento o 2º mais elevado desde 2000 e com valores já cerca 1,5 a 2 vezes o valor normal na maior parte das bacias hidrográficas”. “Em várias regiões, a precipitação acumulada aproxima-se ou já corresponde ao valor médio anual esperado”, assinalam.
Colar rótulos não é o mais importante
Os especialistas convergem numa mensagem: é cedo para classificar o que está a acontecer. Falta esperar pelo fim desta tormenta que parece interminável, analisar o episódio meteorológico, recolher dados, analisar caudais, precipitação e impactos em cada bacia hidrográfica.
Proença de Oliveira resume o actual momento: “Estamos perante uma cheia de 100 anos? Ainda não sabemos. Onde? Não sabemos. Talvez. Só com dados, que ainda não temos, saberemos.”
Depois de ouvirmos os vários especialistas, fica outra dúvida e uma certeza. Será assim tão importante colar o rótulo de “cheias de 100 anos” a este momento quando olhamos à volta e sabemos que estamos a viver um tempo aflitivo e marcante de tantas maneiras, para tanta gente e em tantos lugares?
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