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As contribuições de imigrantes brasileiros para a Segurança Social portuguesa podem sofrer redução neste ano de 2026, apesar do crescimento verificado entre 2024 e 2025. O alerta é do economista, professor e pesquisador José Roberto Afonso, que aponta atrasos nos processos de regularização, conduzidos pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), e as políticas de países como Espanha, Itália e Alemanha, que vêm adotando medidas para atrair trabalhadores estrangeiros, como fatores que podem provocar uma desaceleração na arrecadação de impostos pagos por imigrantes em Portugal.
Em 2025, os trabalhadores estrangeiros contribuíram com 4,1 bilhões de euros para a Segurança Social, um aumento de 465 milhões de euros em relação a 2024, segundo dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS). Desse total, os brasileiros responderam por 1,446 bilhão de euros — cerca de um terço das contribuições feitas por estrangeiros — enquanto receberam 363 milhões de euros em apoios sociais, o que resultou em um saldo amplamente positivo para o sistema previdenciário português.
No ano anterior, as contribuições dos brasileiros haviam somado 1,372 bilhão de euros, crescimento de 5,4% em 2025. Para José Roberto Afonso, no entanto, esse ritmo pode não se manter. “Era de se esperar que os números de 2026, quando forem computados, fossem superiores a estes que temos agora. Entretanto, devido a todos os problemas que os imigrantes trabalhadores precisam enfrentar para regularizar suas situações na AIMA, algo que não acontecia no passado, eu temo que isso possa vir, sim, a afetar o crescimento na recolha dos impostos”, afirma.
Arquivo Pessoa
O economista observa ainda que o próprio governo português divulgou recentemente uma queda expressiva na formalização de trabalhadores. “Embora invoque a União Europeia para adotar essas restrições sobre a imigração, Portugal está na contramão do que está sendo feito em países como Espanha e Itália, que estão com campanhas explícitas para atração de imigrantes, inclusive buscando brasileiros que estão em Portugal”, diz.
Esse movimento tende a estimular a migração secundária dentro da Europa. “O trabalhador brasileiro que já está aqui em Portugal, vendo mudanças legislativas que acenam para a anti-imigração e enfrentando dificuldades com a AIMA, pode sim decidir sair para outros países, em particular a Espanha, pela proximidade da língua e pela localização geográfica, aqui ao lado de Portugal”, afirma Afonso.
A economista Sandra Utsumi destaca, por sua vez, que a presença de brasileiros é estratégica para suprir a escassez de mão-de-obra em Portugal, não apenas em setores onde o trabalho é mais pesado, como agricultura e construção civil, mas também em áreas como hotelaria e serviços. Segundo ela, o país registra, há anos, uma forte saída de jovens qualificados. “Um dos problemas que Portugal enfrenta desde a grande recessão de 2008 é a ida desses jovens para países como Alemanha, Irlanda e Inglaterra, onde os salários são duas ou três vezes maiores”, afirma.
Para Utsumi, esse fenômeno amplia a necessidade de trabalhadores estrangeiros qualificados. “Portugal perde capital humano para outros países europeus. Para o brasileiro qualificado que não aprendeu outras línguas, Portugal é altamente viável”, diz ela, citando carreiras promissoras como a engenharia agrônoma.
Dinamismo na economia espanhola
José Roberto Afonso chama a atenção para o dinamismo da economia espanhola. “Hoje a Espanha é uma das economias europeias que mais crescem. No ano passado, dois de cada três empregos criados na Europa foram gerados na Espanha. Se Portugal não agir rapidamente, pode perder ainda mais competitividade”, afirma.
O economista relata ainda experiências pessoais que ilustram esse movimento migratório. “Em julho do ano passado, fui a Vigo, na Espanha, e a coisa que eu mais ouvia era: ‘você está se mudando para cá?’. Quando dizia que estava apenas passeando, a resposta vinha: ‘é que os brasileiros estão se mudando para cá’”, conta. Segundo ele, muitos brasileiros que chegaram a Portugal estão agora se deslocando para regiões como a espanhola Galícia.
Revelância dos imigrantes
Os dados reforçam a relevância econômica dos imigrantes. Em 2025, o saldo global da Segurança Social portuguesa alcançou 3,2 bilhões de euros, alta de 11% em relação a 2024, quando o superávit foi de 2,9 bilhões de euros, impulsionado, em parte, pela ampliação da base contributiva com a imigração.
De acordo com o MTSSS, os brasileiros representam quase 10% dos trabalhadores formais em Portugal, com 401.712 pessoas empregadas em um universo de 4.471.111 vínculos formais. As contribuições financiam benefícios como aposentadorias, subsídios de maternidade e seguro-desemprego, reforçando o equilíbrio do sistema.
Para Afonso, a maioria dos imigrantes é composta por trabalhadores jovens, em idade ativa. “Vieram para Portugal para trabalhar e contribuir”, afirma. Ele ressalta que os aposentados portugueses dependem diretamente dessas contribuições. “Se você não tivesse tanta contribuição desses trabalhadores imigrantes, haveria redução dos benefícios de quem está se aposentando e também de quem já está aposentado”, diz.
O economista rebate ainda discursos contrários à imigração. “Uma mentira muito clara é dizer que os imigrantes vieram para receber benefícios e não contribuem. Os números provam o contrário”, afirma. E finaliza: “O imigrante que está empregado contribui, inclusive, para pagar o seguro-desemprego do português que está desempregado”.
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