Caudais vindos de Espanha através do rio Guadiana continuam a subir

0
2

Os residentes nas povoações ribeirinhas instaladas junto às margens do Guadiana em território português e espanhol ainda não podem respirar aliviadas. A cota de escoamento à meia-noite deste sábado, a partir do açude de Badajoz, registou um caudal de 1.761 m³/s, a que se seguiram constantes descidas pouco significativas. Às 14h00 o volume debitado situava-se nos 1.733 m³/s, mas às 18h30 atingiu os 1.784 m³/s.

Os fluxos voltam em crescendo, resultado das descargas de 17 barragens instaladas na bacia hidrográfica do Guadiana em território espanhol: Cijara, García de Sola, Orellana, Zújar, Cancho del Fresno, Ruecas, Azud de Lavadero, Gargáligas, Cubilar, Los Molinos, Villalba de los Barros, Tentudía, Proserpina, Villar del Rey, Los Canchales, Horno Tejero e El Boquerón.

Até La Serena, a maior barragem espanhola e a terceira na Europa, continha 2.887 hm³ (90%) da sua capacidade total de 3.219 hm³. No mesmo dia do ano passado, a água armazenada situava-se nos 1.252 hm³ (38%). Aguarda-se, a todo o momento, que a “Alqueva espanhola” proceda à terceira descarga da sua história iniciada em 1990. As enchentes anteriores ocorreram em 1997 e 2013. O governo regional já alertou para a ocorrência de inundações resultantes do aumento do caudal de vários rios e ribeiras na bacia do Guadiana a montante de Alqueva.

Na sua passagem pela Ciudad Real, na manhã deste sábado, a população deparou-se com um cenário raro: a planície que envolve a cidade com cerca de 75 mil habitantes na província autónoma de Castela La Mancha, um extenso lençol de água atingia mais de 500 metros nalguns troços do rio Guadiana.

O elevado volume de escorrências provenientes dos solos saturados de água está a fazer sair o percurso do Guadiana das suas margens.

Vive-se uma situação invulgar por serem incomuns as descargas de albufeiras numa bacia hidrográfica marcada por sucessivos episódios de seca severa e extrema e por centenas de milhar de hectares de perímetros de rega que consomem grande parte da água represada e dos aquíferos subterrâneos. E os fluxos só podem ter um destino, a partir do momento em que a capacidade de armazenamento nas albufeiras espanholas se esgota: a albufeira de Alqueva, que terá de continuar a fazer descargas para jusante.

Até às 18 horas de sábado as povoações ribeirinhas no troço do Guadiana a jusante de Alqueva (Mértola, Pomarão e Alcoutim em território português e El Granado, Sanlúcar del Guadiana e Ayamonte em território espanhol) escaparam aos cenários extremos que aconteceram em 1823, 1876 (a grande cheia), 1895, 1912, 1947 e 1997.

O Guadiana sempre foi olhado como rio de maus humores, dada a imprevisibilidade que se observava nos seus caudais. Em 1876, o ano da maior cheia alguma vez registada no grande rio do sul, num telegrama enviado pelo Governador de Badajoz para o ministro do Interior, estava redigida, apenas, uma frase impressiva: “O Guadiana se foi; chegou o oceano”.

Temporais com chuvas copiosas tinham engrossado de uma forma extraordinária e brutal as águas do Rio Guadiana, na noite de 6 para 7 de Dezembro daquele ano. Em Mértola, segundo a imprensa da época, a água galgou as muralhas da povoação. A cota do rio subiu 27 metros acima do seu leito normal. Arrasou as povoações do Pomarão e provocou perdas consideráveis em Sanlúcar do Guadiana e Alcoutim, que ficaram debaixo de água.

Mas se formos a uma inundação mais recente, em 1997, no Pomarão “a desolação era bem visível através das casas alagadas e quase submersas” e em Alcoutim a cheia “cavalgou por sobre os prédios da роvoação, com tal impetuosidade que só resta um montão de ruínas”. E, em frente, a localidade de Sanlúcar do Guadiana “foi arrebatada pelo rio”.

Fazendo um paralelismo dos caudais que percorreram o curso do Guadiana nas diversas inundações de que há registo constata-se que em 1876 o volume de caudais que percorreram o Guadiana a jusante da barragem de Pedrogão ascendeu aos 11.520 m³/s. Nas cheias de 1997 ficou-se pelos 7.474 m³/s. Nas cheias deste mês de Fevereiro de 2026, até ao momento, o máximo caudal escoado ficou-se pelos 5.000 m³/s.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com