A tempestade que recentemente atingiu várias regiões do país — com especial impacto no litoral centro — foi um fenómeno natural extremo, impossível de evitar. O que era, e continua a ser, evitável era a dimensão dos danos que este tipo de catástrofes provoca.
Mais do que um episódio excecional, estas imagens de destruição revelam um padrão nacional: um território excessivamente fragmentado, infraestruturas frágeis, uma ocupação dispersa e decisões acumuladas ao longo de décadas que tornaram Portugal particularmente vulnerável a eventos climáticos extremos. Num momento em que se fala já em milhares de milhões de euros de prejuízos e num esforço público de reconstrução muito significativo, importa colocar uma questão que é urgente precisamente por ser incómoda: o que estaremos a reconstruir e para quê?
Não se trata este questionamento de aproveitar uma tragédia, nem de desvalorizar o sofrimento de pessoas e empresas. Trata-se, sim, de reconhecer que o processo de reconstrução é inevitável e necessário, mas que reconstruir sem critério é garantia de que o próximo fenómeno extremo terá consequências semelhantes ou ainda piores.
Um território disperso é um território frágil
Portugal desenvolveu-se, sobretudo desde a segunda metade do século XX, num modelo de ocupação do solo profundamente disperso e fragmentado. Habitação, indústria e serviços foram-se espalhando por periferias indefinidas, pequenos aglomerados sem identidade urbana e zonas rurais sem vocação clara para acolher edificado intensivo.
Este modelo, além de pouco ponderado na sua génese, tem custos elevados, muitas vezes invisíveis: redes elétricas extensas e maioritariamente aéreas, quilómetros de infraestruturas difíceis de manter, acessos frágeis e enorme dificuldade de resposta em situações de emergência. Quando milhares de quilómetros de linhas elétricas são afetadas em simultâneo, a reposição torna-se lenta não por incapacidade técnica, mas porque grande parte do sistema foi desenhado para alimentar edifícios isolados espalhados por um território desconexo.
Num território mais concentrado, com focos urbanos e industriais bem definidos e adequados à geografia do local, a resposta seria necessariamente diferente: mais rápida, mais eficiente e com menor impacto económico. A dispersão transforma qualquer evento extremo num problema nacional. Esta tempestade não foi uma ocorrência excecional; excecional foi a fragilidade que, sem grande novidade, expôs e tornou ainda mais aparente.
Uma indústria isolada é mais vulnerável
Esta fragilidade é particularmente evidente na localização de muitas empresas e unidades industriais. Salvo exceções muito específicas, não existe racionalidade económica nem territorial em dispersar fábricas, armazéns e sedes empresariais por zonas isoladas, frequentemente rodeadas de mato e afastadas de núcleos urbanos estruturados.
A consequência é dupla: maior exposição a riscos — incêndios, cheias, falhas de energia —, menor capacidade de atrair e reter mão de obra e dificuldade acrescida para gerar sinergias entre empresas. Zonas industriais qualificadas, bem infraestruturadas e integradas em sistemas urbanos não são uma ideia nova, mas continuam a ser subaproveitadas, enquanto se permite a proliferação de unidades isoladas sem qualquer lógica de conjunto.
Num cenário de crise, a concentração permitiria priorizar a reposição de serviços essenciais, manter atividade económica mínima e acelerar a própria reconstrução. A sua dispersão faz exatamente o contrário.
Energia, clima e a oportunidade perdida da concentração
Muito se fala hoje de transição energética e de comunidades de energia. No entanto, estas soluções exigem proximidade, escala e coordenação — condições difíceis de alcançar num território fragmentado.
Parques industriais concentrados, edifícios com produção fotovoltaica integrada e redes enterradas não são utopias técnicas, mas opções de planeamento. A razão pela qual grande parte da infraestrutura continua aérea prende-se menos com escolhas tecnológicas e mais com a impossibilidade financeira de enterrar milhares de quilómetros de rede dispersa por um país pouco concentrado. A concentração territorial não elimina os riscos climáticos, mas reduz drasticamente os seus impactos e acelera a resolução dos danos causados.
Incêndios, floresta e fragmentação da propriedade
O mesmo problema estrutural repete-se na gestão florestal, sendo Portugal um dos países europeus com maior fragmentação da propriedade rural – realidade amplamente identificada em estudos sobre riscos de incêndio. Pequenas parcelas abandonadas, muitas vezes sem identificação clara de proprietários, criam um contínuo de combustível que torna os incêndios extremamente difíceis de controlar.
Esta situação não resulta, na maioria dos casos, de negligência deliberada, mas de um sistema disfuncional. Uma reorganização territorial — com maior intervenção pública, gestão agregada e parcerias com privados — permitiria criar áreas contínuas de biodiversidade, zonas de produção florestal sustentável e uma redução efetiva do risco de incêndio.
A lógica atual não protege a floresta nem os proprietários; expõe ambos a riscos acrescidos e a potenciais desastres naturais e ecológicos, como evidenciado recentemente em processos questionáveis para a criação de centrais de produção de energia elétrica.
Água, cheias e a ilusão do controlo
As cheias recorrentes em vários vales fluviais, incluindo o do Mondego, são outro exemplo de teimosia territorial. Continuar a permitir construção em zonas inundáveis, reconstruir habitação isolada em leitos de cheia e manter infraestruturas críticas em cotas vulneráveis é insistir num conflito perdido com a natureza.
Libertar margens, relocalizar usos incompatíveis e devolver território à água não é um retrocesso, mas uma estratégia adotada por países que aprenderam com eventos extremos. Persistir no modelo atual é aceitar prejuízos recorrentes e riscos humanos evitáveis.
Reconstruir não tem de ser repetir
O investimento público para responder a esta crise é elevado e necessário. Precisamente por isso, não pode servir para reproduzir erros antigos. Reconstruir “onde estava” e “como estava” pode ser politicamente mais simples, mas é territorialmente irresponsável.
A reconstrução deveria ser orientada por critérios claros: localização adequada, concentração, resiliência e compatibilidade com riscos conhecidos. Não se trata de impor soluções individuais, mas de definir o tabuleiro onde o investimento faz sentido a médio e longo prazo.
Reconstruir sem critério é uma escolha ativa por manter a vulnerabilidade. O território é um recurso finito e cada decisão tomada agora terá impacto durante décadas. A tempestade não foi evitável e a próxima também não o será; porém, a dimensão dos seus efeitos depende, em grande medida, das escolhas que fizermos hoje.
Reconstruir é escolher – e escolher permite corrigir para não voltar a errar. Que a bonança que se seguir a esta tempestade não repita os erros do passado e permita finalmente escolher o (re)ordenamento territorial de que o país necessita.
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