Enquanto a economia húngara continua em declínio – foi recentemente rebaixada para “lixo” pela Moody’s – o ministro húngaro da Construção e dos Transportes, János Lázár, vem dizer que o papel reservado às comunidades ciganas é limpar casas de banho. Trata-se claramente de uma humilhação pública encenada.
No caso de esta retórica ter sido intencionalmente utilizada como um artifício político para mobilizar os eleitores que partilham a visão do mundo do Fidesz, representada por Lázár – considerado o sucessor de Viktor Orbán, líder do partido e actual primeiro-ministro –, os eleitores das comunidades ciganas terão em breve a oportunidade de expressar claramente a sua resposta nas urnas.
Espalhadas por todo o país, as comunidades ciganas constituem cerca de 10% da população húngara e representam uma parte decisiva do eleitorado, com capacidade para influenciar o rumo do país a longo prazo, apesar de o sistema político ter sido moldado para os excluir do poder. Os dados das eleições parlamentares húngaras de 2022 mostram que a participação das comunidades ciganas tende a ser consistentemente elevada, excedendo até, nalgumas regiões, a média nacional, sobretudo em locais onde estes eleitores têm um envolvimento directo no processo eleitoral.
O capital político das comunidades ciganas não deve ser ignorado. No ano passado, na Roménia, os eleitores ciganos desempenharam um papel decisivo na segunda volta das eleições presidenciais.
Os comentários como o de Lázár têm como objectivo humilhar estas pessoas e recorrer a clichés racistas de baixo nível para desviar a atenção da verdadeira responsabilidade. A realidade é que a economia da Hungria precisa dos trabalhadores ciganos e os políticos necessitam cada vez mais dos eleitores ciganos.
Na Hungria, o crescimento estagnou, as finanças públicas estão sob pressão e a confiança foi minada. Em Dezembro, a Moody’s rebaixou a classificação de crédito de Budapeste para o nível “lixo”. Ao mesmo tempo, há entidades empregadores de sectores-chave que alertam, há anos, que a escassez persistente de mão-de-obra, particularmente em empregos de baixa e média qualificação, está a restringir o crescimento.
Neste contexto, agravar a exclusão não só é injusto como é também economicamente irracional. A taxa de desemprego da Hungria tem oscilado entre os 4,3 % e os 4,6 %, permanecendo estável em mínimos históricos. A escassez de mão-de-obra persiste e o declínio demográfico acentua-se, devido à baixa taxa de natalidade e à emigração, o que resulta numa redução constante da população activa. Há mais de uma década que o governo recorre a programas de trabalho público que encaminham estas pessoas para empregos temporários, mal remunerados e pouco qualificados, sem perspectivas significativas de produtividade, desenvolvimento de competências ou emprego estável. A experiência mostra repetidamente que estes programas raramente resultam em empregos estáveis no mercado de trabalho aberto – acabam, assim, por aprisionar as pessoas em ciclos de dependência, em vez de permitir a mobilidade.
Este fracasso é visível nos resultados. As comunidades ciganas na Hungria enfrentam taxas de emprego persistentemente mais baixas e níveis mais elevados de desemprego de longa duração do que a população em geral, a par de taxas significativamente mais baixas de conclusão do ensino secundário. Estas disparidades não são o resultado de uma falta de vontade de trabalhar, mas sim de um subinvestimento de longa data na educação e nas competências, reforçado pela segregação e pelas vias limitadas para além dos programas de trabalho público.
A Hungria não se pode dar ao luxo de manter este subinvestimento. O que hoje é tratado como alvo de exclusão é, na verdade, um dos maiores activos económicos desaproveitados pelo país. Há estudos realizados na Roménia, na Eslováquia e na Bulgária – três países com uma percentagem semelhante de população cigana – a mostrarem que, quando as comunidades ciganas têm acesso à educação, qualificações e emprego, podem gerar milhares de milhões em valor económico adicional, reforçar a produtividade e ajudar a estabilizar as finanças públicas.
Esta realidade continua a ser ignorada pelo actual governo, em detrimento de perspectivar a sociedade húngara como um todo. As declarações de Lázár podem ser eleitoralmente úteis para o Fidesz a curto prazo, mas são prejudiciais para a economia da Hungria a longo prazo.
O comentário de Lázár revela mais do que um preconceito pessoal, já que aponta para uma lógica governamental que enfraqueceu a economia da Hungria, reduziu a sua base política e alienou centenas de milhares de cidadãos num momento em que a integração económica genuína já não é opcional.
As pessoas a quem é dito que não pertencem ali continuam a votar, mesmo que a elevada participação tenha sistematicamente falhado em concretizar-se numa representação política significativa, tendo a sua participação consequências políticas reais.
Durante muitos anos, a política húngara assentou numa contradição cínica: os votos das comunidades ciganas são mobilizados durante os períodos eleitorais, enquanto os interesses destas comunidades são marginalizadas nos períodos em que não há eleições. A linguagem degradante diminui as expectativas e desvia a atenção da má gestão económica e da erosão democrática.
A Hungria não pode reconstruir a sua economia, nem a sua democracia, enquanto tratar parte da sua população como dispensável. Os eleitores ciganos têm poder e, mais cedo ou mais tarde, esse poder far-se-á sentir.
(Tradução de Nelson Filipe)
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