São pungentes as imagens de desolação provocadas pela catástrofe que tem assolado o país nos últimos dias. A par desse cenário devastador, multiplicam-se também exemplos extraordinários de resiliência e solidariedade. Tem sido admirável a dedicação e a abnegação dos bombeiros, da Proteção Civil e dos profissionais de saúde. Ainda assim, impõe-se uma reflexão séria sobre a relação profunda entre esta catástrofe e a saúde das populações.
Em primeiro lugar, é fundamental recordar que estas catástrofes decorrem das alterações climáticas provocadas pela ação humana, em particular pela emissão de gases com efeito de estufa. Como estas alterações têm evoluído de acordo com os cenários mais pessimistas, é previsível que as catástrofes climáticas se tornem cada vez mais frequentes, intensas e prolongadas, com um profundo impacto na saúde humana,
A saúde está no topo das preocupações das pessoas, enquanto as alterações ambientais estão num plano secundário. Os profissionais de saúde têm a obrigação ética de alertar para o impacto das alterações ambientais na saúde humana, fatores que já são responsáveis por uma em cada quatro mortes a nível global.
Importa sublinhar que muitas das consequências destas catástrofes poderiam ser significativamente mitigadas através de medidas eficazes de prevenção e adaptação. Entre elas contam-se a não impermeabilização excessiva das cidades, evitando o asfaltamento dos leitos de cheia, a não construção em reservas ecológicas, a criação de bacias de retenção e, sobretudo, um planeamento sério, integrado e atempado da resposta, a todos os níveis, com especial atenção às populações mais vulneráveis.
No domínio da saúde, é essencial alertar para o impacto direto destas catástrofes climáticas no funcionamento dos serviços de saúde. Este impacto não se limita aos hospitais públicos e centros de saúde, abrangendo igualmente hospitais privados, clínicas, unidades de exames complementares de diagnóstico, unidades de cuidados continuados, farmácias, centros de hemodiálise, postos de colheita de análises clínicas e doentes em cuidados domiciliários. Durante a depressão Kristin, por exemplo, 195 farmácias ficaram sem comunicações, ficando impossibilitadas de aviar receitas.
Torna-se, assim, evidente a necessidade de um planeamento de contingência específico para o setor da saúde, a nível institucional, regional e nacional. Foi notável o esforço das instituições de saúde, do Ministério, da Direção Executiva do SNS e das autoridades regionais de saúde; contudo, tratou-se sobretudo de uma resposta reativa, não planeada, assente numa soma de atos individuais de enorme abnegação.
Teria sido crucial proceder a uma inventariação rápida e sistemática de todos os estabelecimentos de saúde total ou parcialmente inoperacionais, ou com dificuldades de acesso, tanto no setor público como no privado, acompanhada da sua divulgação pública e da reorientação da população para unidades plenamente operacionais.
É igualmente fundamental garantir a divulgação atempada de medidas de prevenção de doenças e acidentes durante e após as cheias, utilizando canais e linguagens adequados a cada grupo populacional. O Conselho Português para a Saúde e Ambiente emitiu um conjunto de recomendações consultáveis no seu site (cpsa.pt). A isto deve somar-se a implementação célere de medidas de saneamento, de gestão ambiental e de controlo integrado de pragas, assim como uma monitorização epidemiológica contínua, assegurando uma resposta eficaz e sustentada por parte dos serviços de saúde.
Os problemas de saúde pública decorrentes das inundações fazem com que o número total de vítimas desta catástrofe seja, sem dúvida, muito superior ao das vítimas diretas reportadas pelos meios de comunicação social. Falamos de dificuldades no acesso a cuidados de saúde, de acidentes ocorridos durante ações de limpeza e reparação das habitações, de doenças infeciosas de origem hídrica, como gastrenterites, hepatites, leptospirose e infeções cutâneas, de contaminações químicas e de graves perturbações da saúde mental. Está demonstrado que a taxa de suicídio aumenta cerca de 20% no primeiro ano e até 60% no segundo ano após este tipo de catástrofes.
Os crimes ambientais não são apenas crimes contra o ambiente. São crimes que matam pessoas.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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