Eunice Foote, uma pioneira na ciência do clima resgatada do esquecimento

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Estávamos em 1856. Era uma época em que muitas vozes foram silenciadas na ciência. Múltiplas descobertas e invenções surgiram, mas nem todas foram reivindicadas pelas suas verdadeiras autoras. Hoje, no Dia Mundial das Mulheres e Raparigas na Ciência, instituído pela Resolução 70/212 da Assembleia Geral das Nações Unidas em 2015, celebramos não apenas estatísticas, mas também a coragem de quem fez ciência apesar de permanecer invisível.

Em Portugal, mais de 51 mil mulheres trabalham atualmente em investigação científica, representando cerca de 43% da força científica, um valor ligeiramente acima da média de 40% registada nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Mas a presença não é necessariamente reconhecimento. A história ensina-nos que a ciência não é neutra e que a ciência só se torna completa quando todas as vozes são ouvidas.

Uma dessas vozes tinha nome. E fez uma descoberta central para a ciência do clima do século XXI. Hoje sabemos que o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, um poderoso gás com efeito de estufa resultante de atividades humanas, é a principal causa do aquecimento global, responsável por cerca de 1,3 a 1,4 graus Celsius de aumento da temperatura desde níveis pré-industriais, de acordo com a última análise do Programa Copernicus.

Poucos, porém, conhecem a quem identificou experimentalmente pela primeira vez, em 1856, a relação entre o CO2 e a subida da temperatura: Eunice Foote. Apesar de não ser uma desconhecida na história da ciência, a sua descoberta pioneira permaneceu invisível, como o gás que estudou. Este seu contributo terá sido redescoberto apenas em 2011 e desde então, a sua obra é referida em estudos sobre alterações climáticas, questões de género e ciência. Continua, contudo, a ser extremamente importante lembrar o seu legado porque permanece esquecida do grande público.

Quem foi e o que descobriu

Eunice Newton Foote (1819-1888) foi uma cientista amadora norte-americana, formada num contexto em que as mulheres estavam globalmente excluídas das instituições científicas formais. Em 1856, motivada por problemas científicos da época, conduziu uma série de experiências pioneiras sobre gases atmosféricos expostos à radiação solar. Com cilindros de vidro selados, termómetros e diferentes concentrações gasosas, observou que o CO2 aquecia mais rapidamente e retinha o calor por mais tempo do que o ar comum. A partir destas observações, Eunice Foote concluiu que uma atmosfera com maior concentração de CO2 levaria inevitavelmente a um aumento da temperatura global, antecipando o princípio físico fundamental do efeito de estufa.

Eunice Foote chegou a divulgar a descoberta numa conferência científica. No entanto, o trabalho não foi apresentado por si, mas por um colega masculino – então, era pouco habitual ser uma mulher a fazê-lo. Cinco anos mais tarde, o físico irlandês John Tyndall chegaria, de forma independente, a conclusões semelhantes, recorrendo a instrumentos mais sofisticados e integrado numa elite científica reconhecida. Contudo, o trabalho de John Tyndall foi amplamente celebrado, enquanto o de Eunice Foote caiu no esquecimento. Este apagamento não foi científico, mas estrutural.

Esquecimento histórico

A história de Eunice Foote insere-se num padrão mais vasto. Também na Europa oitocentista, a participação de mulheres em atividades científicas foi marcada por constrangimentos sociais, falta de reconhecimento e fraca visibilidade pública, chegando o seu conhecimento a ser escondido por medo de serem alvo de chacota, ou por significar perda de feminilidade. Excluídas das universidades e academias, muitas mulheres, ainda assim, tiveram um papel importante na produção e circulação de ideias científicas. No entanto, a sua invisibilidade institucional fez com que grande parte das contribuições fosse esquecida ou atribuída a terceiros.

Apesar de Eunice Foote ter tido alguma educação científica, não teve acesso a uma formação completa em física experimental e desenvolveu o seu trabalho fora dos circuitos profissionais, como “amadora”. Ao invés do seu marido, o seu trabalho “Circumstances affecting the heat of the Sun’s rays”, apresentado na 10.ª conferência da American Association for the Advancement of Science (AAAS) em 1856 não foi lido por si (embora seja possível que tenha estado presente), nem foi convidada a tornar-se membro desta associação.

Ainda assim, Eunice Foote foi pioneira em algumas publicações: o seu segundo trabalho, “On a new source of electrical excitation” (1857), foi o primeiro artigo de autoria feminina publicado nas Proceedings da AAAS. Além disso, estes dois trabalhos são os únicos publicados por uma mulher norte-americana na área da física antes de 1889.

O seu percurso revela ainda que estava a par da literatura científica da época sobre eletricidade atmosférica, magnetismo terrestre e geologia. Expandiu esse conhecimento ao relacionar a temperatura mais alta da Terra num “dado período da sua história” com uma maior concentração de CO2 na atmosfera, fornecendo uma explicação para períodos mais quentes do passado geológico e respondendo a preocupações coevas da geologia.

Não deixa de ser significativo o nome da Eunice Foote ser recuperado num momento em que o mundo debate se vivemos numa nova época geológica, o Antropocénico, em que o aumento da temperatura planetária está ligado ao aumento da concentração de CO2 (de génese humana) na atmosfera, o que é consistente com as conclusões do seu artigo de 1856 e particularmente relevante no contexto de emergência climática global.

Repensar a ciência com olhos no futuro e no passado

Contar a história de Eunice Foote não é apenas um exercício de recuperação histórica, é um lembrete de que a ciência não é neutra na forma como reconhece os seus protagonistas. Dar lugar às vozes silenciadas no passado é uma condição necessária para construir uma ciência mais justa e verdadeiramente inclusiva.

Hoje existem sinais de mudança. Pela primeira vez na história do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, as mulheres representam cerca de 46% dos autores, um avanço face ao passado. Ainda assim, persistem formas de invisibilidade fruto de fatores interseccionais e de hierarquias de conhecimento que afetam não só mulheres, mas também cientistas fora das instituições de elite, investigadores do Sul Global, jovens e comunidades locais, limitando o espetro de questões científicas colocadas e, consequentemente, de respostas possíveis.

Aprender com Eunice Foote é reconhecer que a ciência só se torna completa quando todas as vozes capazes de contribuir são ouvidas. Neste Dia Mundial das Mulheres e Raparigas na Ciência, a melhor homenagem não está apenas nos números, mas na capacidade de evitar que os silêncios do passado se repitam no presente nem no futuro.

As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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