Alden Biesen e o retiro espiritual europeu

0
2

A União Europeia dirige-se a Alden Biesen. Entre as muralhas, o castelo belga devia funcionar como um laboratório de decisões estratégicas, e não como um palco de devaneios simbólicos. Confiar que 27 líderes encontrarão iluminação nas névoas históricas é arriscar não apenas a crítica, mas a irrelevância. Alden Biesen não é um retiro espiritual: é uma oportunidade de converter intenção em ação, discursos em resultados palpáveis.

O mapa geopolítico mudou de forma irreversível. Não se trata de invocar Mark Carney ou idolatrar Mario Draghi ou Enrico Letta. O sistema de regras que outrora ordenava o mundo depende agora de potências externas que avançam com determinação, enquanto a Europa pondera. As crises geopolíticas e geoeconómicas – como Emmanuel Macron advertiu – não esperam por uma eventual iluminação: sem reformas rápidas, o continente arrisca perder relevância tecnológica face aos EUA, competitividade industrial perante a China e autoridade perante a Rússia. Há consenso quanto à urgência, mas uma divisão profunda sobre os meios.

Os encontros prévios à reunião informal dos líderes europeus revelam a magnitude das decisões em jogo. O chamado “momento Gronelândia” ameaça dissipar-se, lembrando-nos que a política internacional não se dobra à boa fé: uma administração norte-americana hostil não negoceia interesses. Explora divisões e fraquezas, mesmo que queiramos acreditar no contrário.

O renascimento europeu exige simplificação regulatória, redução de dependências externas e preferência estratégica em setores críticos. Investir em inovação, energia, inteligência artificial e cadeias produtivas essenciais já não é uma escolha: é uma condição de sobrevivência. Na defesa, a integração operacional, o desenvolvimento de capacidades conjuntas e a construção de alternativas europeias aos sistemas externos não são abstrações: representam autonomia e uma capacidade de ação concreta. Rafale sobre o Báltico ou submarinos em estaleiros portugueses não são metáforas – são sinais tangíveis de força.

O desafio é inequívoco: o mercado único e o Estado de direito só terão peso se se traduzirem geopoliticamente. Não porque os valores não importem, mas porque é preciso defendê-los. Alguns resistem à preferência europeia: Alemanha, Itália, países nórdicos e bálticos ponderam o dia de hoje, esquecendo o dia de amanhã. Compreensível, mas não desculpável.

Mas será também importante evitar soluções simplistas. O mercado único permanece fragmentado. Serviços e economia digital vivem ainda em nichos nacionais. A harmonização regulatória arrasta-se. Exige-se um Grito de Ipiranga tecnológico, mas reformas que beneficiem apenas as empresas – ignorando trabalhadores e cidadãos europeus – não são a solução.

Um exército europeu é hoje uma utopia. Mas as receitas para nos aproximarmos de uma defesa comum são conhecidas: desbloquear mercados de capitais, integrar capacidades operacionais, tecnologias críticas e sistemas de longo alcance. A tradição europeia privilegia relatórios e consensos. Mas precisa de um comando autónomo e de forças realmente separáveis. De revisitar a sinergia entre NATO e União Europeia, dos Acordos de Berlim Plus ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, oferecendo garantias alargadas em defesa dos interesses vitais europeus.

A invasão da Ucrânia expôs, com brutal clareza, a vulnerabilidade europeia. Surge, finalmente, a hipótese de integração acelerada: um estatuto inicial limitado, direitos graduais, condicionados a reformas. O modelo tradicional de adesão é hoje demasiado lento. Os tratados não fecham portas à flexibilidade – desde que os critérios sejam respeitados. São os obstáculos internos que tornam a decisão delicada. As alternativas são conhecidas: ativar o Artigo 7.º do Tratado da União Europeia, restringindo o direito de voto da Hungria no Conselho, ou isolar o regime de Orbán, caso sobreviva às eleições legislativas de 12 de abril. Não porque não tenha direito a discordar, mas porque não tem direito a sabotar uma União que o seu país decidiu integrar voluntariamente.

O mundo não espera. Os Estados Unidos, a China e a Rússia não contemporizam. A Europa debate e arrisca ficar para trás. Alden Biesen é uma oportunidade para estabelecer as fundações de uma União Europeia já não a várias velocidades, mas em diferentes dimensões. Se se limitar a elogios mútuos, apresentações formais e sessões de reflexão, demonstrará que até a autodefesa europeia dependerá de consensos. Pequenos sinais de alinhamento financeiro, tecnológico ou militar mostram, ainda assim, que um futuro diferente é possível.

As decisões políticas ficarão para o Conselho Europeu de março. Num mundo de monstros, a UE não pode parar para meditar, por muito que precisasse de uma terapia de grupo. Alden Biesen não será lembrado pelas palavras. Ficará na história apenas se for o mapa de compromisso, investimento e ação concreta. Se transformar boas intenções em gestos que se sintam nos portos, nas fábricas, nos céus e nas vidas de todos os europeus. Caso contrário, será mais um castelo no meio de um nevoeiro cada vez mais denso: imponente à distância, indefeso de perto.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com