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Há imagens que não deveriam existir. E, quando existem, não deveriam circular. A postagem que associava o ex-presidente Barack Obama e Michelle Obama à figura de macacos — atribuída ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — é uma dessas. Mesmo apagada, mesmo relativizada, mesmo empurrada para o colo de assessores anônimos, ela permanece. Porque há coisas que não se apagam. Há imagens que, uma vez lançadas no mundo, revelam mais do que pretendiam esconder.
Não se trata de um episódio menor das redes sociais, nem de uma provocação política mais agressiva. Trata-se de um gesto que convoca um dos códigos mais antigos e brutais da história humana: a desumanização. Comparar pessoas negras a animais é uma linguagem conhecida, recorrente, testada ao longo dos séculos. Foi com ela que se justificaram a escravidão, o colonialismo, a segregação, os linchamentos. Não há inocência possível nesse imaginário. Ele é estruturalmente violento.
O que torna o episódio ainda mais perturbador é o lugar de onde ele parte. Um presidente — ou ex-presidente — não comunica como um cidadão comum. Fala a partir de um ponto de poder simbólico, institucional, global. Quando esse poder mobiliza imagens primitivas, ele não apenas ofende: ele autoriza. Autoriza o ódio a circular sem vergonha, a violência a se sentir respaldada, o preconceito a se apresentar como opinião legítima.
Há algo de profundamente inquietante em perceber que, em pleno século XXI, com todos os avanços científicos, culturais e sociais acumulados, ainda precisemos reafirmar o óbvio: pessoas não são animais; diferenças não justificam humilhação; poder não concede licença para negar humanidade. Quando o óbvio precisa ser defendido, é sinal de que algo essencial se rompeu.
Mais do que um escândalo isolado, o episódio funciona como sintoma. Revela um tempo em que a brutalidade se disfarça de franqueza, o racismo de provocação, a regressão moral de autenticidade. Um tempo em que o inaceitável é testado aos poucos, normalizado em doses sucessivas, até que já não choque tanto.
É aí que mora o perigo. A barbárie raramente chega gritando; ela costuma entrar pela fresta da tolerância, pelo cansaço moral, pela relativização constante. E quando vem de cima, quando se instala no discurso do poder, ela contamina o chão.
Falar sobre isso é necessário. Não por indignação passageira, mas por responsabilidade histórica. O silêncio diante da desumanização nunca foi neutro — sempre foi cumplicidade. E toda vez que uma sociedade aceita calada esse tipo de imagem, ela abdica de um pouco daquilo que a fez avançar.
Talvez o que mais assuste não seja a postagem em si, mas a pergunta que ela nos devolve: até que ponto estamos dispostos a regredir sem reagir? A resposta a essa pergunta diz menos sobre um presidente e mais sobre nós.
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