A organização ambiental Zero considera que o anúncio de que a construção da barragem de Girabolhos vai avançar, feito esta semana, é “inoportuno e manipulador”. Esta barragem será um erro estratégico que não elimina o risco de cheia no Mondego e desviará recursos de outras soluções eficazes, afirma a associação.
A Zero reagiu desta forma ao anúncio do Governo de que incumbiu a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) de lançar o concurso público para a construção e exploração da barragem de Girabolhos até ao fim de Março, depois de ter sido cancelada em 2016, num quadro em que terá havido desinteresse da Endesa, a quem foi atribuída a concessão da barragem. Anos mais tarde, a Endesa queixou-se de “pressão política”.
A organização ambientalista lamenta que esta medida esteja a ser apresentada como solução para o problema das cheias na bacia do rio Mondego, numa altura em que a região de Coimbra enfrenta consequências imediatas de fenómenos extremos de precipitação.
“Esta proposta constitui uma falsa solução, tecnicamente questionável e politicamente instrumentalizada, numa altura de grande fragilidade das populações afectadas”, lê-se no comunicado divulgado pela organização.
“Infra-estruturas hidráulicas desta escala exigem uma análise séria, com processos de decisão sustentados em estudos actualizados que abranjam vertentes como a hidrologia, o ordenamento do território, análises de custo-benefício e impactes ambientais, distanciados do contexto emocional provocado por eventos recentes. Não podem nunca ser substituídos por anúncios políticos enganadores em contexto de crise”, sublinha a Zero.
Considera esta organização que, “entre projecto, avaliação ambiental, financiamento e execução da obra, decorrerão vários anos até à eventual entrada em funcionamento [da nova barragem], não respondendo, portanto, às necessidades imediatas das populações afectadas”. Por isso, “não fará qualquer sentido que seja apresentada como solução para a emergência que se vive”, frisa.
Barragem enchia em sete dias
No comunicado, a Zero explica como a construção desta barragem não resolveria os episódios de cheia, pois a sua capacidade de encaixe ficará muito aquém do necessário para travar cheias causadas por episódios extremos de chuva como os que vivemos.
“Considerando os dados de precipitação no período decorrido entre 3 e 12 de Fevereiro, na estação meteorológica de Mangualde/Chão de Tavares, nas proximidades do local previsto para a construção da barragem, foram registados valores acumulados de precipitação de 315,6 litros por m2, ao longo de nove dias. Aplicando este valor à área da bacia hidrográfica associada à famigerada barragem, estimada em 980 Km2, obtém-se um volume potencial de cerca de 309,3 milhões de metros cúbicos de água, valor superior à capacidade total de encaixe da barragem, que é de 244,7 milhões de metros cúbicos (193 hm3 de Girabolhos + 51,7 hm3 no contra-embalse de Bogueira)”, diz a Zero, fazendo contas.
A área da barragem de Girabolhos não chega a ser 15% do total da área da bacia hidrográfica do rio Mondego, sublinha.
Para a Zero, feitas as contas, “num cenário idealizado de retenção total, que na realidade nunca ocorreria, a barragem de Girabolhos poderia teoricamente encher em cerca de sete dias”, se houvesse um episódio de precipitação semelhante ao actual.
“Deve ser dada prioridade absoluta às medidas de resposta rápida, à protecção das populações e à mitigação rápida dos impactos”, aconselha a Zero. “Qualquer reflexão sobre soluções de fundo deve ocorrer num quadro temporal próprio, com distanciamento técnico e participação pública efectiva, para que não se corra o risco de optar por escolhas erradas e irreversíveis, tomadas num momento manifestamente inadequado”.
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