Obama condena comportamentos do ICE e responde a vídeo racista publicado por Trump

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O ex-presidente norte-americano Barack Obama condenou no sábado as operações da polícia federal de imigração dos Estados Unidos (ICE) no Minnesota, comparando-as a práticas observadas em “ditaduras”, e criticou o vídeo partilhado por Donald Trump nas redes sociais que retrata o casal Obama numa animação com corpos de macacos.

“O comportamento desviante de agentes do governo federal é profundamente preocupante e perigoso”, afirmou Obama no podcast do comentador político de esquerda Brian Tyler Cohen, referindo-se a comportamentos “que vimos no passado em países autoritários e ditaduras”.

Em Minneapolis, maior cidade do estado de Minnesota, milhares de agentes do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) e da polícia de fronteira realizaram nas últimas semanas rusgas que a Administração do Presidente Donald Trump apresenta como tendo como alvo criminosos. Um grande número de imigrantes e vários cidadãos norte-americanos foram detidos antes do fim da operação, decretado na semana passada.

Dois cidadãos norte-americanos que tentaram opor-se ao ICE, Renee Good e Alex Pretti, foram mortos a tiro por agentes federais no mês passado, o que desencadeou uma onda de indignação e manifestações.

O ex-presidente democrata (2009-2017) havia já criticado as acções dos agentes do ICE no mês passado, apelando a uma “reacção” dos cidadãos em defesa de valores fundamentais, que, segundo Obama, estão a ser “atacados”.

No podcast transmitido no sábado à noite, Obama saudou a resistência contra as operações da polícia de imigração. “São cidadãos que dizem, de forma sistemática e organizada: “esta não é a América em que acreditamos”, e “vamos resistir, vamos ripostar com a verdade, com câmaras e com manifestações pacíficas”, afirmou.

“Este tipo de comportamento heróico e persistente por parte de pessoas comuns, apesar das temperaturas negativas, é o que nos deve dar esperança”, acrescentou Barack Obama. “Enquanto tivermos pessoas que fazem isso, acho que vamos conseguir”.

Tom Homan, braço-direito do Presidente Donald Trump, anunciou na quinta-feira o fim da operação no Minnesota. A oposição democrata continua a exigir amplas reformas no funcionamento do ICE, incluindo o fim das patrulhas aéreas, proibição de os agentes esconderem o rosto e obrigação de um mandado judicial antes da detenção de um imigrante. Para o efeito, os líderes democratas no Congresso ameaçam não aprovar o projecto de financiamento de 2026 do Departamento de Segurança Interna (DHS).

“Espectáculo de palhaços”

No mesmo podcast, o ex-Presidente norte-americano criticou também o “espectáculo de palhaços” que existe nas redes sociais e na televisão, aludindo ao vídeo publicado por Donald Trump em que o casal Obama aparece numa animação com corpos de macacos.

“É importante destacar que a maioria dos americanos considera este comportamento muito problemático. É verdade que chama a atenção. É verdade que é uma distracção”, afirmou Obama durante a entrevista.

Obama sublinhou que, nas suas viagens pelos Estados Unidos, viu muitas pessoas que “ainda acreditam na decência, na cortesia, na gentileza”. “Há um certo espectáculo de palhaços que ocorre nas redes sociais e na televisão e é verdade que aqueles que costumavam acreditar que deve haver um certo decoro e senso do apropriado, de respeito pelos cargos, não parecem envergonhados. Isso perdeu-se”, acrescentou.

Em questão está um vídeo publicado por Donald Trump, a 5 de Fevereiro na sua rede social, a Truth Social. O vídeo é, em grande parte, atribuído ao portal ultraconservador Patriot News Outlet e fala sobre a alegada manipulação das eleições de 2020 — em que o democrata Joe Biden derrotou Trump, que concorria a um segundo mandato e que o Presidente republicano tem vindo a denunciar desde então sem qualquer prova.

No entanto, aos 59 segundos, o vídeo é interrompido por uma curta animação que mostra os rostos dos Obama, o primeiro casal afro-americano na Casa Branca, estampados em dois macacos durante alguns segundos antes de retomar o conteúdo original.

A animação é atribuída ao utilizador da rede social X, “xerias_x”, que criou o vídeo, através da inteligência artificial (IA), intitulado “Trump: Rei da Selva”, datado de 24 de Outubro de 2025, um filme rudimentar em que os rostos de líderes políticos são inseridos em corpos de animais. Todos se prostram perante Trump, cujo rosto aparece no corpo de um leão.

O vídeo acabou por ser removido, após uma dúzia de horas, da conta do líder norte-americano, onde tinha sido publicado “por engano” por “um funcionário”. “Um funcionário da Casa Branca publicou este conteúdo por engano. Foi apagado”, disse um alto executivo à agência noticiosa France-Presse (AFP), depois de a publicação ter desencadeado uma onda de condenação, incluindo no Partido Republicano, do Presidente Trump.

Inicialmente, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, denunciou uma “falsa indignação”, sem mencionar que se tratava de uma publicação errada na conta de Donald Trump na rede social Truth Social. A publicação gerou indignação e acusações de racismo contra o Presidente norte-americano.

Na ocasião, o líder da minoria democrata no Congresso norte-americano, Hakeem Jeffries, apelou aos republicanos para que denunciassem “a repugnante intolerância de Donald Trump”. Barack e Michelle Obama, sublinhou o líder democrata, ele próprio afro-americano, são “americanos brilhantes, compassivos e patriotas e representam o melhor deste país”. Já o Presidente Trump, acrescentou, é “desprezível, desequilibrado e pernicioso” e “um indivíduo doente”.

O republicano Tim Scott, o único senador negro do seu partido no Congresso dos Estados Unidos, tinha pedido a Donald Trump que removesse o vídeo. “Rezo para que esteja errado, porque é a coisa mais racista que já vi sair desta Casa Branca. O Presidente deveria retirá-lo”, disse então o senador conservador na rede social X.

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