Seguir aves em risco ajuda a preservá-las. Mas dados ainda “morrem no computador de alguém”

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Em todo o mundo há investigadores atarefados a perceber melhor algumas espécies de aves aquáticas, o que as ameaça e o que se pode fazer para impedir que venham a sofrer um declínio do qual já não é possível regressar. Mas grande parte dessa informação acaba por não ser disponibilizada para toda a comunidade científica, o que prejudica não só a partilha de conhecimento, como o desenvolvimento das medidas mais adequadas de protecção. Um artigo científico agora publicado revela que, entre um conjunto de aves aquáticas em risco, cerca de 50% das espécies não tem informação de monitorização contínua e, nos casos em que houve informação recolhida, menos de 30% foi introduzida online.

E isso é algo que é urgente mudar, defende-se no artigo Global review of shorebird tracking data to identify research gaps and conservation priorities (Revisão global da informação de monitorização de aves limícolas para identificar falhas na pesquisa e prioridades de conservação), publicado na edição de Fevereiro da Conservation Biology, e que conta, entre os seus autores, com José Alves, especialista em aves limícolas do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro. “Com o artigo, quisemos explicar o que há em termos de monitorização contínua, como está disponível, se está e onde essa informação pode ser utilizada para conservação de modo quase imediato”, explica.

Para tal, foram seleccionadas 195 espécies limícolas em risco e esmiuçados quantos estudos de monitorização existiam sobre elas. Foram consideradas 351 publicações, produzidas entre 1989 e Julho de 2023, às quais foram acrescentados dados disponíveis na plataforma Movebank, que congrega informações sobre monitorização de todos os animais que existem.

As conclusões indicam que “faltava monitorização para 50% das espécies” e que das publicações analisadas, apenas “29,6% da informação reportada foi introduzida num repositório online”.

A boa notícia é que, com o avançar dos anos, a tendência para disponibilizar essa informação online tem vindo a aumentar – em 2022, 75% das publicações científicas com dados originais já estavam nessas condições. A menos boa é que há um claro viés do material produzido, com as regiões mais ricas do globo (a América do Norte, a Europa e a Austrália) a concentrarem a maior parte dos estudos e algumas espécies, sobretudo marcadas no hemisfério Norte, a receberem muito mais atenção do que outras.

Espécies a precisar de mais

Esta análise permitiu também aos autores identificarem uma lista “conservadora” de 16 espécies de limícolas que mais podem beneficiar de monitorização contínua (através de GPS, por exemplo) e da partilha dessa informação. Espécies que estão muito concentradas no Sudoeste Asiático, Indonésia e Austrália, além de quatro endémicas da América do Sul e uma de Madagáscar. A selecção inclui espécies como o pilrito-de-bico-comprido (Calidris ferruginea), o borrelho-de-madagascar (Charadrius thoracicus), a narceja-imperial (Gallinago imperialis) ou a galinhola-das-molucas (Scolopax rochussenii).

“A informação de monitorização de limícolas representa um recurso enorme e em crescimento para a ciência e a conservação”, conclui o artigo agora publicado. “Dado o aumento do impacto e potencial de reutilização de dados de monitorização arquivados em repositórios online, enfatizamos a necessidade para melhorar a coordenação entre equipas de investigadores de limícolas para colocarem tags estrategicamente e para arquivarem dados de monitorização em estudos revistos pelos pares, para que a sua utilidade possa ser maximizada no futuro”, acrescenta-se.

“Estes resultados podem ajudar a guiar o desenvolvimento de uma estratégia global coerente para monitorizar este grupo de espécies entre as mudanças globais em curso, climáticas e no uso dos solos, com a aceleração da perda de biodiversidade”, escrevem os cientistas.

A plataforma

O artigo segue-se a um trabalho precisamente nesse sentido já iniciado em 2023, por um grupo de investigadores que incluem José Alves, Camilo Carneiro e Hugo Ferreira – todos da Universidade de Aveiro – além de outros cientistas nacionais e internacionais. Foi nesse ano que lançaram a Global Wader (GW), uma plataforma em que é possível perceber que espécies e onde estão a ser seguidas cientificamente, permitindo a qualquer investigador do planeta solicitar informação que lhe possa interessar sobre os dados ali congregados.

“Tentamos partir algumas barreiras. O primeiro direito a utilizar os dados é sempre do investigador que os recolhe, mas oferecemos a possibilidade de estabelecer contacto entre a comunidade”, explica José Alves.

Ou seja, um investigador que esteja, por exemplo, a estudar o maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa), a ave central do trabalho de José Alves, mas que não tenha oportunidade de seguir todo o ciclo migratório da espécie, limitando-se à área do globo onde se encontra, pode solicitar à plataforma o contacto com colegas que estejam a estudar a mesma ave noutros pontos do planeta, permitindo um conhecimento mais abrangente do que está a acontecer.

Jose Alves acompanhou e estudou a nidificacao de várias especies de limicolas na Islândia
Nuno Ferreira Santos

“A génese da ideia foi pensarmos que nos nossos próprios trabalhos recolhemos uma série de informações, por exemplo, sobre a utilização de uma área húmida, para espécies que, em parte do tempo, não estão aqui. Elas interagem, migram, vão para outros espaços e deixamos de ter acesso à informação do que se passa fora da nossa área. Pensámos que, se pudéssemos potenciar o uso desses dados, criar uma plataforma onde possamos colocar toda a informação, teríamos todos a ganhar com isso. Não queremos que os dados morram no computador de alguém”, explica.

A plataforma já dá frutos. Recolhe actualmente dados de 53 investigadores de todo o mundo, promove trabalhos colaborativos e é chamada para ajudar, por exemplo, ao desenvolvimento de projectos em curso, como aconteceu com a candidatura do arquipélago de Bijagós a Património Mundial Natural da Unesco (o que se concretizou em Julho do ano passado) ou a instalação de um projecto eólico no Mar do Norte. Em ambos os casos, foi solicitado à plataforma que fornecesse dados relacionados com as aves limícolas migratórias que atravessam ou vivem parte da sua vida naquelas áreas.

Convencer os cientistas a partilhar informação nem sempre é fácil – há muito trabalho e custos avultados envolvidos –, explica José Alves. Mas a expectativa é que plataformas como a GW ajudem a desbravar esse caminho. “É isso que queremos fazer. É muito fácil continuarmos no nosso cantinho, a colocar tags na nossa área de estudo, quando para a conservação da espécie, se calhar, era mais interessante colocá-las noutro local. A partilha de informação permite coordenar esses esforços de conservação à escala global, e conseguir isso era espectacular”, defende.

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