Quando o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, soube que uma escola de samba do Rio de Janeiro iria basear o seu desfile de Carnaval deste ano no seu percurso de operário fabril a Presidente, desatou a chorar e depois sorriu para as fotografias a segurar a bandeira da escola.
Mas, à medida que o mundialmente famoso desfile de Carnaval do Rio se foi aproximando, a homenagem tornou-se uma dor de cabeça política.
Partidos e políticos da oposição apresentaram uma enxurrada de acções judiciais alegando que Lula está a beneficiar do que descrevem como uma forma ilegal de campanha eleitoral antecipada, em ano de eleições presidenciais. O Presidente espera ser eleito em Outubro para o quarto mandato não consecutivo.
Os tribunais rejeitaram quase todas as acções judiciais, incluindo uma que pedia aos juízes para impedir a realização do desfile. Mas podem ser apresentadas mais se os críticos acreditarem que os políticos usaram o evento, agendado para domingo à noite, para pedir votos, o que seria ilegal.
Ainda assim, Lula da Silva planeia assistir à escola de samba Académicos de Niterói a cantar e dançar as histórias da sua vida e da mãe no domingo no Rio, disseram os assessores do chefe de Estado à Reuters, mas não falará em momento algum. Os planos da mulher do Presidente, Rosângela “Janja” da Silva, de participar no desfile estão a ser revistos, disseram à Reuters fontes próximas do Governo.
“Não é campanha”, disse Tiago Martins, designer dos Académicos de Niterói. “É um enredo que conta a história de vida de um homem guerreiro, que apesar de todos os obstáculos chegou à presidência.”
Os críticos discordam, apontando, por exemplo, para menções ao número 13 na letra da canção, o mesmo que Lula e o seu Partido dos Trabalhadores usam na urna eleitoral. “Este é o tipo de coisa que se vê numa União Soviética, na Coreia do Norte, uma ode ao grande líder”, disse o deputado Marcel Van Hattem, líder do Partido Novo da oposição, que apresentou uma das acções judiciais contra Lula.
Festa com contenção, dizem os ministros
O desfile concebido pelos Académicos de Niterói descreve a infância de Lula da Silva no empobrecido Nordeste do Brasil e a jornada da mãe para São Paulo com os filhos, à procura de uma vida melhor. “Me vi nos olhares dos meus filhos, assombrados e vazios. Com o peito em pedaços, parti atrás do amor e dos meus sonhos”, diz a letra.
Os artistas dos Académicos de Niterói procuraram a autorização do Presidente para usar a história da sua vida no ano passado, antes de avançarem com o plano. Depois de autorizados, Lula recebeu Tiago Martins e outros membros da escola de samba, em Setembro, para um jantar na sua residência presidencial do Palácio da Alvorada, em Brasília.
Enquanto cantavam a canção que tinham escrito para o desfile, Lula emocionou-se e chorou, disseram à Reuters pessoas que estavam na reunião. Mais tarde, descreveu-a como uma homenagem à mãe, Dona Lindu, e não ao próprio.
Os assessores de Lula reconheceram à Reuters a sensibilidade política do momento. Depois de as acções judiciais se multiplicarem, a equipa do Presidente brasileiro consultou assessores jurídicos para esclarecer que restrições se aplicam durante o período de pré-campanha.
Os ministros que assistem ao desfile foram instruídos a permanecer sentados na plateia, a abster-se de participar no próprio desfile, a evitar fundos públicos para viagens e a não realizarem quaisquer gestos relacionados com eleições, declarações ou publicações ao vivo nas redes sociais. Lula não falará publicamente no desfile.
Oposição diz que a homenagem ultrapassa limites legais
Figuras da oposição argumentam que as precauções mostram que o Governo sabe que a homenagem ultrapassa os limites legais. Queixam-se de que os Académicos de Niterói receberam centenas de milhares de reais de fundos públicos para fazer o desfile, mas os advogados do Governo sublinharam que todas as escolas de samba do Rio que participam nos desfiles oficiais receberam a mesma quantidade de recursos e que os fundos não estão ligados a escolhas artísticas.
Todos os casos foram rejeitados porque os juízes concordaram com os argumentos do Governo ou apontaram questões processuais. Um caso ainda está pendente no Tribunal de Contas da União, embora uma decisão preliminar também tenha rejeitado o bloqueio de fundos ao desfile.
Embora Lula já tenha assistido ao desfile de Carnaval do Rio antes como Presidente, tal não é comum. Um antigo líder, Itamar Franco, ficou famoso por ter tido problemas nos anos 90 depois de ter sido fotografado no desfile ao lado de uma mulher sem roupa interior.
Para Tiago Martins, o confronto político ofuscou o que, para ele, é uma conquista artística profundamente pessoal. “O samba diz ‘Tem filho de pobre virando doutor’. E eu, filho de pobres, a tornar-me um designer de Carnaval”, disse. “Queríamos contar a história de um homem que fez muito pelos pobres e pelo Brasil.”
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