Portugal entre números e silêncio psíquico

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Quando observo os dados recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), procuro evitar leituras simplificadas. Prefiro situar Portugal no contexto europeu, onde o consumo de antidepressivos tem aumentado de forma contínua nas últimas duas décadas. As análises mais recentes de 2024 e 2025 mostram que o ranking continental é liderado por países do norte e do sul da Europa.

A Islândia mantém a primeira posição, com valores entre 157 e 168 Doses Diárias Definidas (DDD) por cada 1.000 habitantes. Portugal surge como o maior consumidor da União Europeia e o segundo na Europa, com cerca de 150 a 163 DDD. O Reino Unido apresenta índices historicamente acima de 100 DDD. A Suécia se situa entre 105 e 121 DDD. A Espanha regista números entre 87 e 92 DDD. Bélgica e Dinamarca mantêm patamares próximos de 80 e 77 DDD, respectivamente. Eslovénia e Finlândia acompanham a tendência de crescimento na Europa Central e nos países nórdicos. A Alemanha apresenta cerca de 62 DDD, com volume total expressivo pela dimensão populacional.

Esses indicadores revelam aumento consistente no recurso a antidepressivos em diferentes sistemas de saúde europeus. Países com maior capacidade diagnóstica e menor estigma tendem a identificar mais casos e, consequentemente, a prescrever mais. Ao mesmo tempo, a República Checa registou o maior crescimento percentual nas últimas duas décadas, ultrapassando 500%, ainda que não lidere o volume absoluto.

Em Portugal, além do consumo de antidepressivos, se observa uso relevante de ansiolíticos, incluindo benzodiazepinas. Esse dado amplia a reflexão sobre como o sofrimento psíquico tem sido manejado farmacologicamente.

Considero essencial acrescentar um ponto técnico muitas vezes omitido. Antidepressivos não apresentam taxa de sucesso elevada em todos os casos. Há percentagem significativa de pessoas que não responde de forma satisfatória ao primeiro fármaco prescrito. A chamada depressão refratária representa realidade clínica concreta, exigindo abordagens combinadas e, por vezes, estratégias terapêuticas mais complexas.

Isso não invalida a utilidade dos medicamentos. Eles podem reduzir sintomas, melhorar funcionalidade e diminuir risco em situações específicas. No entanto, não constituem solução universal. Quando analisamos rankings de consumo, é preciso reconhecer que aumento de prescrição não significa necessariamente aumento proporcional de remissão completa.

A depressão envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. Desemprego, instabilidade econômica, solidão e pressão laboral funcionam como moduladores de risco. O sistema nervoso responde ao contexto. Estados prolongados de ameaça ou sobrecarga alteram padrões de sono, apetite, motivação e energia. O sintoma emerge como expressão de adaptação a circunstâncias persistentes.

Diretrizes internacionais recomendam, em quadros moderados ou graves, combinação entre psicoterapia estruturada e acompanhamento médico quando indicado. Essa integração aumenta probabilidade de desfechos favoráveis. Entretanto, limitações de recursos humanos e listas de espera prolongadas criam desafios práticos para implementação desse modelo.

Também é necessário evitar leitura que associe consumo elevado exclusivamente a excesso de medicalização. Parte do crescimento pode refletir maior reconhecimento diagnóstico e redução do estigma. Pessoas que antes não procuravam ajuda hoje recorrem aos serviços de saúde.

Ao mesmo tempo, não podemos ignorar que a persistência de taxas elevadas de depressão, mesmo com aumento de prescrição, sinaliza necessidade de ampliar estratégias. Investimento em prevenção, educação emocional, políticas de combate à precariedade e fortalecimento de redes comunitárias integra resposta mais abrangente.

Portugal enfrenta realidade complexa dentro de um panorama europeu igualmente desafiante. Cada dose diária definida corresponde a alguém que busca alívio para sofrimento real. Se quisermos alterar a trajetória desses números, precisamos ir além da contagem de comprimidos e intervir nas condições que sustentam o adoecimento psíquico.

A discussão sobre consumo de antidepressivos deve, portanto, ser conduzida com equilíbrio. Nem desqualificar o recurso farmacológico, nem supor que ele, isoladamente, resolverá um problema que é, ao mesmo tempo, clínico e social. A saúde mental exige visão integrada, sustentada por evidência, responsabilidade técnica e compromisso coletivo.

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