O coração no prego

0
2

Ele pensava que podia existir sem coração, que praticamente não se dava pela falta dele, apenas dois ou três amigos se queixaram da ausência do batimento cardíaco e recomendaram uma ida ao médico, a uma bruxa, a um desfibrilhador, qualquer coisa que o animasse, porque ninguém vive realmente depois de deixar o coração espetado num prego irresgatável.

Mas ele não acreditava que o coração fosse a alma em forma de carne, acreditava que era a cabeça, e só a cabeça, que nos faz existir. Por isso tomava vitaminas, gastava os serões e os olhos em leituras técnicas de letra miudinha, prestava atenção ao mundo com uma curiosidade de algoritmo e fazia do corpo e dos dias um frigorífico operacional.

Pensava que se podia existir sem coração porque antes doía e agora não — e isso tinha de ser uma coisa boa, não é? —, e agradecia diariamente a bênção da anestesia. Achava que tinha posto o coração num prego irresgatável, mas ela apareceu com dois braços fortes, capazes de o trancar num abraço que soava a refúgio ou de o empurrar com força até ao fim do mundo e mais além, e juntos decidiram tomar de assalto a loja onde estava o seu coração, recuperar o coração desperdiçado, vendido, não estavam dispostos a pagar por ele, afinal não se deve pagar por aquilo que é nosso e não pode ser vendido.

Decidiram que entre os dois seria amor a preto e branco, como nos filmes antigos, que iam recuperar o coração, tê-lo de volta, e lá foram, a meio da noite, sorrateiros e encapuzados, tomar de assalto a casa de penhores. Sob a luz certeira da lanterna viram o coração dele dependurado entre um relógio caro e uma chave inglesa, um coração humano etiquetado cujo valor equivalia a um par de sapatos gastos.

Ela não gostou do que viu. Surpreendeu-se com o valor tão baixo a que tentavam vender o coração dele e fez então marcha-atrás nos planos em conjunto. Afinal já não seria para sempre, nem a preto e branco, queria outro negócio para a sua vida, tinha de fazer uma melhor aquisição. Ele pensou — não sentiu — quão frágil era, ainda assim, um homem sem coração.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com