Continente Brasil

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Demorei a visitar a exposição Complexo Brasil, no Museu Gulbenkian, como quem adia um encontro, com medo de se apaixonar. E me apaixonei desde o título.

Da bossa nova ao funk, do manto tupinambá ao neoconcretismo, da construção de Brasília à destruição da Amazônia, a complexidade do Brasil provoca tamanho impacto, que me vi afetada psicofisicamente, entre os quatro elementos da natureza: ora sem ar, ora com os olhos turvos de água, ora com o peito em fogo, ora com os pés firmes nessa terra, tão distante e tão próxima, onde nasci e me tornei gente.

Gente (canção de Caetano Veloso, na voz de Xande de Pilares) é a mais bela apoteose para a mostra, num videoclipe de sorrisos que não deixa dúvida de que a alegria é a maior joia do povo brasileiro. Uma alegria carnavalesca. “Da adversidade vivemos”, diz o manifesto de Hélio Oiticica, que propôs a fusão entre arte e corpo, ciente de que a incorporação é um talento nosso.

Fusão entre arte e corpo e religião e erotismo e festa – essa intensidade criativa parece explodir, no espaço limitado para expor as obras. Explosão que também se sente na brutalidade do racismo, das chacinas, nos registros de uma história que não cessa de se reescrever – nos trabalhos de novos artistas, nas palavras de Conceição Evaristo, de Ailton Krenak, vozes tão poderosas que me emociona a sorte de habitar o mundo junto com elas.

Peço desculpa ao Bad Bunny. Eu também me comovi quando ele exaltou a pluralidade da grande América no Super Bowl, e adoraria testemunhar uma maior integração com os nossos vizinhos hispânicos. Mas, além de americano, o Brasil é um continente, num sentido mais poético do que geográfico: ele contém muito brasis.

A Bahia, por exemplo, guarda a pujança de um país inteiro, diferente de Goiás ou Minas Gerais, cada um com o seu universo de referências. E o que dizer de São Paulo e a sua cultura caleidoscópica, cunhada por imigrantes, e uma população quatro vezes maior que a portuguesa?

O Brasil contém a perpetuação do passado colonial, ainda em carne viva, e a fé no futuro (redentor como o Cristo do Rio de Janeiro), sempre renovada pela estética do improviso. Contém o impulso gregário dos povos originários, dos quilombos, das rodas de samba, do chimarrão compartilhado, das folias, dos bois, das danças em que o sujeito se amalgama na coletividade, numa epifania de pertencimento. E contém o ímpeto egoísta, segregacionista, manifesto inclusive nessas eleições em Portugal, por brasileiros que votaram na ultradireita, supondo-se imigrantes de primeira classe, identificados com o ideário supremacista.

O Brasil contém empatia e crueldade. Doçura e violência. Contém as contradições humanas, elevadas à máxima potência. Além do paradoxo, o Brasil contém a hipérbole – na biodiversidade das florestas, nos arranha-céus dos centros urbanos, no êxtase do júbilo popular. No desejo de sugar o sumo da vida até a última gota, e no risco de trombar com a morte atrás da próxima esquina.

O Brasil é a humanidade em brasa.

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