Neste dia 22 de fevereiro assinalam-se 20 anos do assassinato de Gisberta Salce, no Porto. Duas décadas depois, o seu nome continua a ecoar como ferida aberta na consciência coletiva , não apenas pela brutalidade do crime, mas pelo que ele revelou: um sistema que permite que certas vidas sejam consideradas descartáveis. Gisberta não foi apenas vítima de um ato isolado de violência. Foi vítima de um contexto social onde a marginalização de pessoas “trans”, pobres e migrantes se entrelaça com estruturas profundas de desigualdade. Nem todas as vidas são reconhecidas como dignas de serem choradas e essa hierarquia diz muito sobre quem consideramos plenamente humano. Vinte anos depois, é legítimo perguntar: o que mudou? E talvez mais importante: o que ainda não fomos capazes de transformar?
Temos hoje mais linguagem, mais visibilidade, mais direitos formais. Mas também vivemos num tempo em que o debate público é mediado por plataformas que amplificam conflito, simplificam identidades e capturam a nossa atenção. O capitalismo contemporâneo reorganiza a experiência social através dessa captura, criando a ilusão de participação enquanto fragmenta a possibilidade de construção coletiva. Neste cenário, a luta LGBTI+ enfrenta um desafio duplo: resistir à violência direta e, ao mesmo tempo, à erosão subtil da capacidade de escuta e de construção comum.
Talvez por isso seja urgente repensar o que significa “unir”.
Unir não é exigir que todas as pessoas pensem da mesma forma, ao mesmo tempo. É reconhecer que habitamos tempos diferentes, percursos distintos, níveis desiguais de consciência. A transformação cultural não acontece de forma linear, é um processo de disputa pelo sentido comum. Se quisermos honrar verdadeiramente a memória de Gisberta, precisamos de mais do que indignação. Precisamos construir condições para que ninguém fique para trás nesse processo de transformação, nem mesmo aqueles que ainda não compreendem plenamente as nossas existências.
Isso implica recusar tanto o isolamento como a pureza política. Implica criar pontes onde hoje há desconfiança. Implica sustentar conversas difíceis sem abdicar da dignidade. E implica reconhecer que a mudança de paradigma não se faz apenas nas leis, mas também na forma como nos relacionamos, nos vemos e nos permitimos existir.
O Orgulho do Porto nasce exatamente desse compromisso: memória, resistência e construção de futuro. Um espaço onde a diversidade não é obstáculo, mas condição de possibilidade. Vinte anos depois, Gisberta continua connosco, não apenas como símbolo de dor, mas como convocatória. A sua história obriga-nos a perguntar que cidade queremos ser, que sociedade estamos dispostos a construir e que vidas ainda continuamos a empurrar para as margens. Em junho, voltamos às ruas do Porto. Não apenas para celebrar quem somos, mas para afirmar que nenhuma vida é descartável. Porque a mudança de paradigma começa quando deixamos de aceitar o mundo tal como ele é, e começamos, juntas e juntos, a transformá-lo.
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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