Sucesso de Manoel Carlos, remake de Páginas da Vida estreia em Portugal

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Um dos grandes autores da teledramaturgia brasileira, Manoel Carlos, que faleceu há pouco mais de um mês no Rio de Janeiro, aos 92 anos, criou novelas marcantes na TV Globo como Por Amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas, além de minisséries de sucesso como Presença de Anita e Maysa: Quando Fala o Coração. Ele também foi responsável por Páginas da Vida, trama exibida há 20 anos no Brasil e que agora ganha remake em Portugal.

A partir desta segunda-feira (23/02), a emissora portuguesa SIC coloca no ar a nova versão do folhetim, com elenco português, direção de Jorge Queiroga, produção da SP Televisão e ambientação dividida entre Brasil e Portugal. Exibida originalmente em 2006, a novela conquistou o público ao acompanhar personagens como Nanda (Madalena Almeida), Leo (Lourenço Ortigão), Marta (Maria João Bastos), Helena (Sofia Alves), Clara (Margarida Moreira) e Francisco (Martim Elias), e tratar de temas delicados como racismo, preconceito contra pessoas com Síndrome de Down, bulimia, violência doméstica e os desafios da maturidade feminina.

Na história original, Nanda engravida de Leo durante uma temporada em Amsterdã, na Holanda. Abandonada pelo namorado e sem o apoio da mãe, Marta, ela retorna ao Rio de Janeiro, onde dá à luz gêmeos, Clara e Francisco, mas a jovem morre em decorrência de complicações no parto. E Clarinha é rejeitada pela avó, por ter Síndrome de Down.

Preconceituosa, Marta doa a neta e mente, afirmando que ela morreu. A médica Helena, comovida com o caso, adota a menina. Anos depois, Leo descobre que Nanda teve filhos, mas acredita que apenas Francisco sobreviveu e foi criado por Marta. A disputa pela guarda do menino e a revelação de que Clarinha está viva conduzem o desenrolar da história.

Acidente de Nanda

A versão portuguesa preserva o eixo central, mas introduz alterações narrativas. No remake, Nanda conhece Leo durante um intercâmbio no Rio de Janeiro. O relacionamento é interrompido quando ele retorna a Portugal a pedido da mãe, Eugénia, que corta os contatos entre o casal. Ao descobrir a gravidez, Nanda enfrenta o silêncio e o medo de contar à família que terá um bebê.

Sem recursos, volta a Portugal, onde encontra o desprezo da mãe, Marta, mas apoio do pai, Alex (Filipe Vargas), e do irmão Ricardo (João Bettencourt). Após uma discussão violenta, ela sofre um grave acidente e é levada em estado crítico para a clínica da obstetra Helena, que tenta salvar a mãe e os bebês.

Adaptação à realidade portuguesa

A adaptação promove fusões de personagens e ajustes estruturais, segundo uma das autoras do remake, Sandra Santos. “Podemos dizer que esta é uma Páginas da Vida 2.0. As personagens são basicamente as mesmas, tendo havido fusão entre algumas do original”, destaca.

Ela acrescenta que, por questões de produção, é “incomportável ter 80 personagens na narrativa”. Outro motivo é a dispersão causada por tantas histórias, diz ela. “Consequentemente os plots (enredos) também foram reajustados, não apenas para a atualidade e para a realidade portuguesa, mas tendo o cuidado de afastar temáticas de outras novelas que estão atualmente no ar, bem como a necessidade de ir ao encontro dos pedidos da SIC”.

Ela destaca que, em termos de estrutura, o remake é fiel ao original, entretanto o conteúdo e o ritmo foram pensados para atender às exigências do público de 2026. A maior diferença entre as duas tramas é o mistério que cerca a morte de Nanda, “uma opção que costuma agradar ao público português. Óbvio que as comparações vão ser inevitáveis e estamos preparados para elas. Mas também temos consciência de que estamos a fazer um trabalho de qualidade e que leva o nosso cunho”, afirma Sandra.

Peso do legado

O outro autor do remake, Alexandre Castro, enfatiza a permanência da essência dramática e diz que um elemento foi mantido e percorre toda a trama: o realismo e a profundidade com que são exploradas as relações familiares. “Além, naturalmente, do amor, ódio ou ciúme, etc, há núcleos onde a dependência emocional e/ou psicológica é abordada intensamente e de forma muito verosímil. De resto, os principais temas do original são igualmente abordados, como adoção, preconceito, racismo ou distúrbios alimentares”.

Os autores reconhecem o peso do legado. Sandra comenta que cresceu com as novelas brasileiras e também com o aparecimento das novelas portuguesas. E garante: foi influenciada pelos grandes nomes dessa arte nos dois países e que isso lhe traz enriquecimento. Já Alexandre, que viveu a infância e parte da juventude no Brasil, relembra a influência do dramaturgo paulista em sua trajetória e particularmente duas obras por ele assinadas: A Sucessora e Baila Comigo.

“Ainda estava longe (na época) de imaginar que 45 anos depois estaria a fazer um remake de uma novela sua (de Manoel Carlos). A memória que trago das suas novelas e que mais tarde tive a oportunidade de analisar já como guionista (roteirista) é o realismo das suas personagens e histórias que vivem”, reitera.

Outro sotaque

Em um cenário audiovisual transformado pelo streaming, ambos defendem atualização de linguagem. “As plataformas tiraram público à TV aberta, as opções multiplicaram-se e até a forma como se vê ficção mudou radicalmente. Hoje, a atenção do espectador é muito difícil de captar, portanto diria que todas as histórias são atuais, mas têm de ser contadas ao ritmo moderno. Especialmente, num formato tão longo como a novela”, avalia Sandra.

Alexandre complementa: “O ritmo de se contar histórias alterou-se significativamente. Olho para essa mudança com naturalidade. Dito isto, há algo que permanece intocável que é essa lente profunda que Manoel Carlos punha na suas personagens e histórias do cotidiano. Esse olhar permanece intacto e será sempre um ensinamento para todos nós”.

Duas décadas após emocionar o público brasileiro, Páginas da Vida retorna como prova da permanência de um autor cuja marca foi transformar o cotidiano em drama universal — agora sob uma nova paisagem e outro sotaque, mas com o mesmo foco nas relações humanas.

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