Precisamos falar do Vini Jr.

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Um café, um papo de anjo e amigos faz a vida ganhar um sentido maior. Esses momentos dão-nos a certeza de que a humanidade é boa e está destinada a ser feliz. Tudo se fala ao café e alguém comenta, a dado momento, não sei mais por que motivo, que tudo é argumentável, mesmo uma mentira. E é fato, algo poder ser muito bem argumentado não garante que seja verdade, como bem se deram conta os sofistas há 2500 anos. O ilustre escritor brasileiro José de Alencar tinha, no século XIX, argumentos muito fortes para justificar a escravidão no Brasil. Argumentos que visavam, segundo ele, sobretudo ao bem dos escravizados. Dito isso, muitas argumentações que correm soltas por aí, ainda mais em época tão tecnológica como a nossa, valem mais pelo que elas dizem sobre aquele que argumenta do que sobre o que se procura defender ou atacar.

É neste contexto que julgo importante falarmos – ainda e muito – sobre o que sucedeu ao Vini Jr. O episódio é bem sabido, mas em síntese, ocorreu que o Vini Jr. marcou um golaço e depois houve um mal-estar entre os jogadores do Benfica e do Real Madrid, que teve seu ápice com a acusação que o jogador brasileiro fez a um adversário de injúria racial. O árbitro ativou o protocolo antirracismo e o caso ganhou uma dimensão enorme e o desenrolar dos fatos ainda promete muitos capítulos. Terá ou não o jogador do Benfica, que se dirigiu ao Vinicius com a camiseta a lhe tapar a boca, dito o que o brasileiro afirma e o Mbappé diz ter ouvido?

Até aí foi, de modo muito resumido e com todos os problemas que as sínteses trazem consigo, o que ocorreu. Não vou me debruçar sobre quem tem a razão, mas sobre as reações de quem argumentou a favor do Benfica. De modo especial, no calor dos acontecimentos, o coração fala mais alto e diz coisas que podem assustar porque revelam muito daquele que se esconde no nosso íntimo. E assustaram-me, honestamente, nem sei bem por quê. Talvez porque eu insista em desejar um mundo caracterizado pelos valores que me ensinaram e nos quais acredito: que as pessoas são iguais e que merecem ser respeitadas na sua própria realidade, na realidade delas, não na nossa.

A começar pela torcida que naturalizou o racismo e que fazia gestos e barulhos de injúria racial, o que já revela a realidade: o racismo, independentemente do que de fato ocorreu, está alicerçado e naturalizado na sociedade portuguesa. A rapidez com que os brancos dizem “eu não sou racista”, definindo porque não o são, é muitas vezes, de uma pessoa rir-se (ou chorar). Algumas coisas são negadas sem reflexão, apenas porque a sociedade assim o exige e quem o nega não pensa muito no que faz e até acredita que não tem nada contra “eles”. Mas o que grita, afinal de contas, não é o que digo ou berro, mas o que faço. Ali, no anonimato produzido pela multidão, sinto-me livre para revelar o racista aprisionado que sou e nego em palavras.

É fato que o racismo estrutura a sociedade portuguesa. E, sim, a brasileira também, talvez até mais. O racismo está embutido nos hábitos sociais, nas piadas, nas relações profissionais, na geografia das cidades, nas desigualdades contínuas, tais como renda e oportunidades de trabalho e moradia, mesmo que não haja ofensas explícitas com intenção de ser racista. O racismo estrutura a sociedade naturalizando palavras e condutas, como se não existisse, sem que nos demos conta que ele ali está, sem que saibamos que ele orienta aquilo que consideramos certo. Então aparecem os comentários “mas ofender-se só por causa da cor da pele” ou “eu até tenho um amigo preto e para mim é como se fosse branco” ou coisas que revelam o longo caminho que ainda temos a percorrer.

Isso fica bem visível na fala inicial do Senhor José Mourinho à imprensa que, para defender o jogador do Benfica, afirma ser sempre o Vinícius, o qual não deveria celebrar seus gols como o faz, mas seguir o modelo de outros jogadores, como o Eusébio e o Pelé, e que seguem o bom modelo de celebrações dos brancos, como o Di Stéfano. A culpabilização da vítima é moeda comum no preconceito que estrutura a sociedade portuguesa, como quando se argumenta que a moça é estuprada porque usa roupas indecentes. Pobres coitados que não têm como suportar a provocação de um decote mais ousado ou de homem preto a dançar e, por isso, veem-se obrigados a se defenderem como podem. A contra-atacar esquecendo a própria história e realidade em que estão e tornando-se piores que animais.

Os meios de comunicação esportiva então foram, em grande parte, um show de horrores. A defesa que esses, na sua maioria, bons homens e brancos fizeram ao jogador do Benfica foi que agora não se pode chamar de preto a um preto, vejam só! Perdemos o direito (que nunca tivemos diria eu, mas…) de trazer à tona de modo ofensivo a história degradante que nós, brancos, construímos ao longo de séculos com as etnias africanas. Só por causa da cor da pele, mas é verdade, eles são assim, são diferentes, mas nós não somos racistas, então qual o problema? Pode-se chamar de nomes à mãe de alguém, mas não se pode chamar de macaco? Argumentos que extrapolam quaisquer limites de bom senso.

Mas é importante notar que o racismo não é apenas – ou sequer principalmente – sobre a cor da pele, um problema que parece a esses candidatos a parvalhões não ser tão grave como lembrar de forma duvidosa a mãezinha. Até porque há macacos brancos, argumentou uma professora portuguesa à sua aluna brasileira que foi inferiorizada pelos colegas de escola com o termo “macaco”. Não é nada de mal chamar a alguém de macaco, argumenta a pessoa branca sobre a realidade da pessoa preta, depois de, entre toda a possibilidade de nomes a expressar sua fúria ignorante, escolher esse. Eu nem me ofendo quando me chamam de “branquelo”, complementa. Então… e aquela vez que ele fez isso e fez aquilo, isso não conta? Ah, se calhar, só ele é santo! Agora andam aí uns melindres sem qualquer motivo. Não, isso não está certo… Eu falo macaco e não tenho intenção nenhuma de ofender… É um bicho tão lindo, dizem entredentes, rindo-se e felizes porque cauterizaram a consciência. E continua a naturalização do que não é normal nem natural, o preconceito racial.

Aqui cabe uma explicação que deveria ser desnecessária, mas não o é: quando se chama ofensivamente a uma pessoa preta de um nome que faça alusão à sua etnia, não se está a xingar a cor da pele, o que, em si mesmo, seria uma coisa sem qualquer sentido, como dizer que alguém é branco. A pele é preta, sim, é fato… O problema é que se está a retomar uma história escrita com muito sangue e dor, em que a raça negra foi humilhada e condicionada a uma situação contínua de inferioridade durante séculos, por questões que ultrapassam a cor da pele. Por exemplo, na própria história do Brasil, o movimento de receber imigrantes europeus na virada do final do século XIX e em boa parte do século XX tinha esse propósito: clarear o povo brasileiro, diluir a suposta má influência que o excesso de afrobrasileiros e indígenas trazia para a sociedade.

Trata-se de apropriar-se de uma suposta superioridade étnica por meio da palavra, fazendo alusão a um conjunto biológico e cultural de valores, que incluem – vejam só! – a forma de celebrar que os povos de origem afro têm e têm direito a ter. Mesmo que não o entendamos ou não nos agrade. Simples desse modo. Então usamos um termo racista qualquer, acreditando que o fazemos por acaso e sem intenção má nenhuma, e revitalizamos todo esse passado que dizemos ter superado. Mas não o superamos porque é o que estrutura o cotidiano e garante que seja mais fácil vivermos. O preconceito, velado, escondido, mas presente, organiza a nossa própria identidade. Uma sociedade assim constituída dá aos pretos e a outras etnias, como os latino-americanos e os árabes, certos direitos, como o de serem bons em esportes e atividades físicas, mas dentro de um protocolo traçado pelos brancos. Raramente lhes permite méritos em outras dimensões, como a intelectual. Essa atitude reforça a certeza de uma sociedade que tem nas mãos o que acredita ser a única verdade possível e, por isso, pode criticar outros modos de pensar.

Por isso também temos de ter bem claro que nada, absolutamente nada, justifica uma palavra ou uma atitude racista. Não há povos sem problemas. Não há pessoas sem erros. Não se trata disso. O Brasil tem inúmeros problemas, inclusive de racismo estrutural. Está-se aqui, como Estado de Direito, temos leis melhores que as portuguesas sobre o racismo, mas no dia a dia, as leis não dão conta de tudo. E, não, senhores, não se trata de quem falou o quê, mas da oportunidade de nos ensimesmarmos e, levando um espelho para dentro de nossa alma branca, perguntarmos quem queremos ser, não quando dizemos isto ou aquilo, mas quando fazemos o que fizermos. Quando, por exemplo, suportamos como normal uma torcida a imitar macacos ou, diante da suspeita de uma palavra racista (ou xenófoba ou misógina ou homofóbica ou…) por um colega de trabalho, culparmos a vítima. Não está certo. Por isso precisamos falar do Vini Jr. Não porque ele seja bom, mas porque nós não o estamos a ser.

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