Há quatro anos que o “primeiro pensamento” de Kateryna Avdysh quando acorda é o mesmo: “A minha família estará viva?” É a nuvem impossível de dissipar que paira por cima da cabeça de alguém que, a viver em paz, não esquece a guerra que atormenta quem lá ficou.
Foi aos 19 anos que se mudou para Portugal, tinha a Rússia invadido a Ucrânia há dois meses. Veio com a mãe e o irmão. Para trás ficou, obrigatoriamente, o pai, em idade de serviço militar e, por isso, impedido de sair do país. E a ideia de gravar o seu primeiro álbum deixou de ser prioritária.
Primeiro para Lagos, depois para Lisboa, onde hoje continua a viver. A mãe e o irmão acabaram por voltar a Kiev dois meses depois de terem fugido: “O meu pai estava sozinho e era muito difícil. A minha mãe é professora de História e, para ela, a sua missão é estar na Ucrânia com as crianças”, conta.
Vir para Portugal foi uma sugestão de amigos que cá se tinham refugiado duas semanas antes: “Disseram-me que era o país mais seguro. E o mais longe de tudo aquilo.” Não se arrepende. Foi assim que descobriu um país banhado pelo oceano, que se tornou na sua “coisa favorita” – e que foi até inspiração para uma das músicas do seu álbum, que entretanto conseguiu gravar.
Rui Gaudêncio
Também a Anna Krotova, 28 anos, recomendaram a vida em Portugal. “A diáspora aqui é enorme, sempre me disseram coisas boas sobre as pessoas, o clima, tudo. Mas, para ser honesta, a coisa que mais pesou foi a rapidez para obter documentos”, diz.
Naquele 24 de Fevereiro de 2022, também a sua vida, como a de milhões de ucranianos, não voltou a ser a mesma. Tinha casado há dois anos, a sua filha tinha um. Estava ainda de licença de maternidade do seu emprego de professora numa escola em Kiev quando teve que fazer as malas e fugir para a Polónia e, de lá, para a Alemanha.
Foi com o marido, filha, mãe, irmã, sobrinhos, sogra. “Éramos muitos. Eles não tinham trabalho. Só nós é que conseguíamos trabalhar e ganhar algum dinheiro. A minha família acabou por voltar para a Ucrânia. A família do meu marido ficou na Alemanha.”
Anna, o marido e a filha seguiram para Vila Nova de Gaia, onde actualmente vivem. O marido conseguiu um trabalho numa empresa no Porto e Anna dá aulas online a alunos ucranianos. A vida está estabelecida, principalmente depois de terem feito amigos, encontrado uma comunidade e terem conseguido jardim-de-infância para a filha. “O primeiro ano foi mesmo difícil”, desabafa.
Os cerca de quatro mil quilómetros que separam Portugal da Ucrânia vão sendo encurtados através de mensagens diárias e “monitorização a toda a hora”: “Às vezes acordo a meio da noite e vou ver se há alertas de drones, para saber se estão em perigo. Leio todos os dias notícias sobre a Ucrânia.”
Nelson Garrido
“Para mim é super difícil porque são duas realidades diferentes. As pessoas que vivem aqui não sabem o que está a acontecer lá”, aponta Kateryna. “Regressei há pouco tempo de uma visita à Ucrânia e, em pleno Inverno, havia um apagão total. Imagina uma cidade, uma capital moderna, onde às vezes só há electricidade durante algumas horas. E lá fora estão -20ºC. Os meus pais tiveram que comprar coisas como pequenos fogões a gás para sobreviver.”
Ao quotidiano desestabilizado, juntam-se as vidas perdidas. Apesar de ser difícil apurar os números, uma vez que a Ucrânia não divulga números oficiais relativos a mortes e acredita-se que a Rússia os subestime, deverão ser 1,8 milhões nos dois países — 600 mil na Ucrânia e 1,2 milhões na Rússia —, de acordo com uma análise do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla original).
Ambas sonham com o fim da guerra — ainda um desejo sem concretização à vista —, mas já não pensam em voltar: “A Ucrânia é sempre o meu plano B. A nossa vida lá era mais rica, por assim dizer, porque tínhamos empregos melhores e tínhamos o nosso apartamento, não precisávamos de pagar renda – que é uma loucura aqui. Mas gostamos de viver cá, sentimo-nos muito bem e queremos melhorar, aprender a língua”, diz Anna.
Para Kateryna, o ideal seria “poder estar aqui e lá”. “O voo para Kiev são quatro horas, mas agora preciso de 36, entre aviões e comboios. É extenuante. A fotografia perfeita para mim é viver em Kiev por alguns meses, e alguns meses aqui. Comecei a minha carreira aqui e fiquei muito surpreendida porque os portugueses gostam da música que faço. Tenho muito respeito por este país.”
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