As famílias portuguesas de hoje vivem entre horários apertados, exigências profissionais, filhos em diferentes ritmos e uma gestão diária feita quase sempre no limite. Tudo anda para a frente — a casa funciona, os filhos são acompanhados, as responsabilidades cumprem-se —, mas quase sempre à custa de alguém que sustém esse malabarismo.
Chamamos a isto resiliência. E elogiamos. Mas quando a capacidade para dar resposta a fases exigentes deixa de ser exceção e se transforma num modo de funcionamento permanente, algo se perde. O cansaço descura-se, a sobrecarga normaliza-se e o seguir em frente torna-se automático.
O que começa como adaptação pontual necessária acaba por se instalar como regra porque é preciso. Aguenta-se porque não há alternativa. Por fora, a vida é funcional: aposta-se nos filhos, na carreira, na casa, na estabilidade possível. Por dentro, acumula-se desgaste. Esquece-se de quem se é. Desiste-se de sonhos próprios e substituem-se, pouco a pouco, pelas vontades dos outros.
Muitas mães vivem neste registo sem se renderem ao cansaço. Continuam presentes, responsáveis, empenhadas. Não falham. Não param. Mas vivem num alerta persistente, sono fragmentado, irritabilidade e ansiedade. Não por fragilidade emocional, mas porque viver continuamente em esforço tem consequências. O corpo acusa. A paciência encurta. A margem desaparece.
Quando uma família funciona assim durante demasiado tempo, gera impacto em todos os elementos: nos adultos, que vivem em modo de compensação constante; e nas crianças, que reagem a ambientes tensos, acelerados e cansados — não por falta de amor ou cuidado, mas porque o cansaço também educa, mesmo quando não é evidenciado.
No desporto, esta lógica é simples e amplamente aceite. Resiliência não é treinar sem descanso nem competir lesionado, é saber parar, recuperar e voltar com mais vigor. Um atleta que vive sempre no limite não é admirado, é protegido porque qualquer treinador sabe que o esforço contínuo conduz à rutura.
Na vida familiar, fazemos muitas vezes o contrário. Valorizamos a mãe que aguenta tudo, que se ajusta sempre, que não pede. E, ao fazê-lo, transformamos o esgotamento numa virtude silenciosa.
Ser resiliente é importante em momentos difíceis, mas viver permanentemente em modo de resistência não é força, é sinal de que algo precisa de ser revisto. Famílias sustentáveis não se constroem à custa do cansaço prolongado de quem cuida.
Talvez esteja na altura de mudarmos o elogio. Menos exaltação da mãe que aguenta. Mais atenção às condições que permitem cuidar, educar e viver sem estar sempre a abdicar de si.
Porque resistir pode ser necessário, mas viver não devia significar desistir de quem se é.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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