Não sou influencer. E, como já escrevi noutras crónicas, embora reconheça o talento de quem nasce para esse ofício, espero nunca fazer da troca entre elogio e estadia gratuita um modo de vida. Prefiro pagar para poder olhar, observar e escrever com a liberdade de quem não deve nada a ninguém.
No recente Dia dos Namorados, a oferta do meu companheiro levou-me a um lugar que desconhecia e a uma realidade ainda menos visível: a perseverança em manter uma unidade hoteleira cinco estrelas no interior do país. Falo do Hotel Palacete do Guerreiro, em São Gião, concelho de Oliveira do Hospital. Uma presença improvável e imponente que se ergue solitária na paisagem. Tem apenas nove quartos, como convém a um hotel que prefere ser refúgio e um pequeno spa onde podemos escolher a música e a cor das luzes, impressionando pelos detalhes. A designação da unidade hoteleira não é acaso. “Guerreiro” evoca a memória de Viriato, que terá percorrido estas terras, e cria uma ponte simbólica com o património romano da vizinha Bobadela e por isso cada quarto recebe o nome de uma figura desse período, Viriato, Tito Lívio, Cipião, como se a estadia fosse também uma travessia discreta pela memória antiga do território.
O proprietário, cozinheiro, rececionista e tudo o mais que for preciso é Javier Diaz, 37 anos, natural de Salamanca. Economista de formação, traz no olhar a vivacidade castelhana de quem se apaixonou pela Serra da Estrela e por uma arquiteta portuguesa que o ajudou a desenhar por dentro o sonho que decidiu erguer por fora. Desde agosto que o palacete ganhou vida e simultaneamente a vida de Javier ganhou combates diários. Logo após a abertura, os incêndios à porta. Depois, a constatação crua do que significa empreender no interior: acessos difíceis, comunicações frágeis, uma rede elétrica que se ressente quando os nove quartos estão ocupados e o spa ligado. O investimento aproxima-se dos dois milhões de euros e o retorno depende de uma taxa de ocupação que esta geografia, por si só, não facilita.
Além de outros detalhes, há realidades menos poéticas. Empreiteiros caros deixaram a humidade escorrer meses depois das obras, estuques que cedem, infraestruturas que falham. E, apesar de tudo, um homem que insiste. Pela estrada que conduz ao hotel, as árvores tombadas sucedem-se. Mesmo em pleno inverno, quando a vegetação devia expor apenas a nudez da estação, é impossível não notar o abandono. A falta de limpeza das florestas acompanha todo o percurso como um aviso silencioso do que pode voltar a acontecer.
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Mas a memória que fica deste hotel é sobretudo a gustativa. Javier traz o vinho no ADN familiar e são esses vinhos que serve a quem chega, ao lado de uma tábua de charcutaria espanhola em contraste com os queijos da região. E depois há a cozinha. Não há chef importado de Lisboa nem carta pretensiosa. Há Javier, que conta que um familiar, entendido no assunto, lhe passou meia dúzia de receitas simples, que treinou até não falhar. E não falha. Umas bochechas de porco preto que cedem ao toque do garfo. E um puré que sabe a batata e a nata. Simples. Bom. Há também a Ana, colega de Javier, que mantém a lareira acesa toda a noite e pela madrugada, até ao pequeno-almoço, servido à hora a que saem do forno o pão quente e os croissants a estalar, regados com mel da serra.
Nos primeiros quilómetros, já de saída do hotel, a estrada estreita obriga os carros a alternar a passagem, tempo para recordarmos a comida deliciosa e rirmos de a surpresa da luz ter ido abaixo enquanto estávamos no spa. Pormenor que não beliscou a experiência, mas que revela, sem dramatismo, o que significa escolher investir no interior em vez de procurar a velocidade confortável do litoral.
Javier dirigiu uma reconhecida cadeia hoteleira em Lisboa, mas percebeu que o seu verdadeiro lugar era aqui, em S. Gião. Chegou com entusiasmo e a coragem tranquila de quem decide começar onde outros desistem. Resta saber se será, de facto, guerreiro o suficiente para permanecer no Interior e se haverá quem continue disposto a dormir num lugar onde ver as estrelas é mais do que uma promessa romântica. Da minha parte, sei apenas que há noites que justificam todos os desvios.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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