Cientistas apontam a Portugal falhas estruturais que agravam efeitos das tempestades

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As nove tempestades que atingiram a Península Ibérica e o Norte de África entre Janeiro e Fevereiro de 2026 deixaram um rasto de destruição que, segundo uma nova análise do consórcio científico World Weather Attribution (WWA), revelam tanto a crescente pressão das alterações climáticas como fragilidades profundas no ordenamento do território e na protecção civil portuguesa.

Desde 16 de Janeiro, nove tempestades atingiram a região do Mediterrâneo, trazendo chuvas torrenciais e ventos de força quase ciclónica. A ciência confirma: este Inverno não foi uma excepção — foi um aviso.

Os cientistas analisaram as alterações nas precipitações extremas num único dia na Península Ibérica ocidental e no norte de Marrocos entre Outubro e Março, para tentar compreender como estes eventos muito perigosos estão a mudar à medida que o mundo aquece.

Como explica a WWA, “os dias mais chuvosos estão agora cerca de um terço mais húmidos do que antes de o planeta aquecer 1,3 graus Celsius”, com aumentos observados de 36% nos eventos extremos de um dia na região sul estudada [Sul da Península Ibérica e Norte de Marrocos] e 29% no norte [Norte da Península Ibérica].

Em Portugal, a violência da tempestade Kristin — com rajadas até 202 km/h — provocou seis mortes e deixou um milhão de pessoas sem electricidade, segundo o resumo técnico da WWA. Porém, os números oficiais contabilizaram, pelo menos, 16 mortes relacionadas de alguma forma com as tempestades. O Governo já se comprometeu com um pacote de 2500 milhões de euros para apoiar famílias e empresas afectadas.

Alterações climáticas: impacto claro, mas complexo

A análise mostra que, apesar de nove tempestades terem atingido as regiões de estudo, o evento de precipitação extrema apresenta períodos de retorno muito distintos: cerca de 40 anos no Sul, mas apenas cinco anos no Norte — embora, localmente, algumas das chuvas correspondam a eventos “com períodos de retorno superiores a 100 anos”.

No Norte, os modelos climáticos permitem identificar um sinal humano claro: “Um aumento de cerca de 11% na intensidade da precipitação pode ser directamente atribuído às emissões de carbono”. No Sul, os modelos não reproduzem a tendência observada, sugerindo que outros factores atmosféricos podem estar a influenciar os resultados.

“Seja o aumento de 11% que podemos atribuir directamente às actividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis, ou as tendências muito mais elevadas que observamos no terreno ao longo das décadas, estamos confiantes de que as alterações climáticas tornam estas chuvas intensas mais severas”, refere Friederike Otto, professora de Ciência Climática no Centro de Política Ambiental do Imperial College London.

Na conferência de imprensa, Maja Vahlberg, também fez a chamada à realidade que se impõe: “Estudos como este mostram realmente que as alterações climáticas não são algo que está a acontecer a outras pessoas ou no futuro. Acho que existe esta percepção de que as alterações climáticas são um problema abstracto, que está a chegar e que é algo com que teremos de lidar, mas, na verdade, já está aqui. Os impactos estão a acontecer agora. As pessoas estão a morrer agora. As pessoas estão a perder as suas casas agora”.

Friederike Otto completa: “Temos as ferramentas e o conhecimento para impedir que isto piore, mas precisamos da vontade de as pôr em prática mais rapidamente e mudar os nossos sistemas sociais para melhor. Vale a pena lutar pela redução de cada fracção de um grau de aquecimento, ou as chuvas torrenciais só irão piorar.”

Apesar da clara relação com as alterações climáticas, a investigação sublinha que os padrões de precipitação extrema na região continuam difíceis de interpretar. “As tendências em termos de precipitação extrema no Sul de Espanha e Portugal deverão ser variadas (…), pelo que os efeitos das alterações climáticas poderão ser difíceis de detectar e caracterizar utilizando apenas métodos probabilísticos”.

“Em algumas partes da região estamos a assistir a aumentos dramáticos na precipitação extrema que são atribuíveis ao aquecimento causado pelo homem”, alerta Clair Barnes, investigadora associado em condições meteorológicas extremas e alterações climáticas no Centro de Política Ambiental do Imperial College London, citada na nota de imprensa.

“Os fortes aumentos observados em algumas regiões devem servir de alerta para nós. Sabemos que uma atmosfera mais quente transporta mais humidade e, portanto, quanto mais carbono emitirmos, mais perigoso será o cenário para tempestades de Inverno como estas”, acrescenta.

Desigualdades e turistas em risco

O padrão geral apresentado pelos cientistas é claro: eventos extremos estão a tornar-se mais frequentes e mais destrutivos, e Portugal permanece “altamente exposto”.

A vulnerabilidade portuguesa é assinalada de forma notória no relatório, que contou com a participação de Filipe L. M. Santos, da Universidade de Évora, e é, dizem os cientistas, marcada por desigualdades territoriais e sociais.

A análise da WWA reforça que centros urbanos densamente povoados, sobretudo onde o turismo expandiu a construção para zonas inundáveis, enfrentaram níveis de exposição particularmente elevados.

A investigação aponta o dedo a décadas de decisões urbanísticas que aumentaram a exposição ao risco. Em muitas zonas costeiras e ribeirinhas, “não há ‘espaço para a água’, uma vez que a construção urbana (…) impermeabilizou o solo, aumentando significativamente o risco de inundações”.

A expansão turística e imobiliária em antigas dunas e zonas baixas pôs milhares de pessoas em áreas de risco. O relatório é claro: “A expansão impulsionada pelo turismo (…) está a deixar os turistas em risco, em áreas de alta ocupação, como praias e parques de campismo, durante eventos de tempestade.”

As desigualdades socioeconómicas também pesam: “As comunidades de baixos rendimentos e socioeconomicamente desfavorecidas (…) enfrentam riscos agravados devido a habitações precárias e capacidade de recuperação limitada”.

Um duro golpe na economia

Na conferência de imprensa David Garcia-Garcia, investigador de Geodesia por Satélite para Observação da Terra e Estudos Climáticos, do Departamento de Matemática Aplicada e Engenharia Aeroespacial na Universidade de Alicante, em Espanha, enumerou os fenómenos climáticos que explicam a força destrutiva das tempestades: um deles foi o bloqueio anticiclónico sobre a Gronelândia e a Península Escandinava que empurrou uma tempestade depois da outra, e o outro a posição do anticiclone dos Açores (que normalmente nos protege) para uma posição mais a sul do que o habitual.

“A chegada de rios atmosféricos que transportam massas de ar carregadas de humidade do Atlântico e se originam nas Caraíbas foi facilitada”, disse o investigador. Além da chuva forte, “em Espanha, foram registados ventos com força de furacão de categoria 2, enquanto em Portugal foram relatados ventos de categoria 3, que excederam os 200 quilómetros por hora”, relatou. “As precipitações bateram recordes nos três países”, concluiu.

A sucessão de tempestades provocou danos de grande escala. No distrito de Leiria, os ventos fortes destruíram infra-estruturas industriais e até aeronaves militares. O relatório destaca “uma destruição parcial do centro desportivo municipal de Leiria” e danos significativos em fábricas, empresas, escolas e monumentos.

A economia sofreu um golpe duro: “Algumas fábricas estão completamente danificadas e inoperacionais, e outras tiveram de interromper a produção e as operações por vários dias”. A queda de mais de “450 linhas de alta tensão” agravou o impacto económico. Só em Meirinhas, no município de Pombal, “95% das casas ficaram danificadas”, exemplificam.

As estimativas dos cientistas ficam-se por mais de 4000 milhões de euros em custos directos de reconstrução e entre 300 e 450 milhões de euros em perdas cobertas por seguros.

Crise humanitária

As cheias provocaram também milhares de deslocados — 3000 em Portugal, mais precisamente em Coimbra. O documento acrescenta que, em Espanha, 12.400 pessoas foram retiradas de casa, 115.000 ficaram afectadas na Sierra de Cádiz, e o Governo espanhol já mobilizou 9000 milhões de euros, com mais 1780 milhões da Andaluzia.

Em Marrocos, as cheias provocaram 43 mortes, 300.000 deslocados e danos em 110.000 casas, levando à criação de um plano de recuperação de 280 milhões de euros.

Maja Vahlberg, consultora técnica do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, deixa o aviso: “As vidas perdidas e as centenas de milhares de pessoas deslocadas em Marrocos, Espanha e Portugal são uma trágica lembrança de que as nossas defesas estão a ser sobrecarregadas. Embora os sistemas de alerta precoce tenham melhorado, é um grande desafio proteger totalmente as pessoas quando chove com este nível de intensidade”.

Para a investigadora, “não estamos apenas a lutar contra uma mudança no clima, estamos a lutar contra uma crise humanitária impulsionada por uma mudança climática.”

As autoridades europeias e internacionais não registaram surtos epidémicos associados às cheias, embora o risco exista: “As inundações criam condições propícias à proliferação de vários agentes patogénicos (…), aumentando significativamente o risco de epidemias e surtos”.

O documento reforça que a saturação dos solos ao longo~e.s da estação agravou as inundações subsequentes, aumentando o impacto cumulativo das tempestades.

O evento de precipitação mais extremo foi causado por um rio atmosférico que foi intensificado ao passar por uma onda de calor marinho muito forte no Atlântico. As temperaturas mais quentes da superfície do mar fizeram com que mais humidade fosse captada e transportada para a Península Ibérica e Marrocos, caindo como chuva. Segundo os especialistas da WWA, a probabilidade de uma onda de calor marinha como esta acontecer aumentou dez vezes, devido às alterações climáticas.

Danos das tempestades de 2026
Tiago Bernardo Lopes

Um sinal do futuro?

Os investigadores sublinham que a variabilidade natural — em particular a Oscilação do Atlântico Norte (NAO, na sigla em inglês) — pode amplificar ou mascarar o impacto das alterações climáticas. “As fortes influências de modos de variabilidade, como a NAO, podem amplificar (ou enfraquecer) os sinais associados ao aquecimento global”, escrevem. A NAO contribuiu com 5% adicionais para a intensidade da precipitação extrema no Sul, e 2% no Norte.

Ainda assim, todas as linhas de evidência apontam para “um aumento da intensidade dos eventos de precipitação mais extrema”, especialmente no Norte da região estudada, adiantam os cientistas.

A climatóloga Friederike Otto resume: “Isto é exactamente o que as alterações climáticas parecem: padrões meteorológicos que antes se conseguia gerir e que estão agora a transformar-se em desastres perigosos”.

“Este estudo confirma que a atmosfera mais quente, criada pelas nossas emissões colectivas de carbono, cria um padrão de chuvas mais extremas e intensas, para o qual os decisores políticos precisam de se preparar e adaptar para proteger vidas, meios de subsistência e infra-estruturas na nossa região”, alerta David García-García.

O resumo técnico destaca que os sistemas de aviso prévio funcionaram bem nos três países, permitindo evacuações atempadas e reduzindo o número de vítimas. “A combinação de aviso antecipado e resposta decisiva reduziu significativamente o custo humano do evento”, diz o documento.

A Protecção Civil em Portugal mobilizou “26.504 funcionários e 10.505 activos terrestres” em apenas seis dias, incluindo vigilância aérea com helicópteros e o Governo aprovou apoios de emergência até 30 mil euros por família. Mas a WWA alerta para problemas estruturais: “Os relatórios destacam casos de falta de planeamento urbano adequado e uma dependência excessiva de infra-estruturas de engenharia pesada”.

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