Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.
Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.
O amor é um troço complicado. Estamos a vida inteira às voltas, à procura e loucos de vontade de sermos procurados. Quando algo nos atinge em cheio ou alguém, temos a tendência de agarrar com todas as forças. Gosto da definição de amor de bell hooks em All About Love: New Visions: amor é “a vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa”.
Bonito pensar nisso: o amor como ação deliberada e comprometida, ato, escolha, não um sentimento passivo. Amar é escolher estar junto na evolução espiritual de algo ou alguém.
E é pela lente do amor que reflito sobre a forma como o Benfica tem lidado com as acusações de racismo envolvendo Gianluca Prestianni e sobre parte da comunidade Benfiquista em relação à atitude do clube. Afinal, poucas coisas ganham mais amor do que um time do coração.
O que está em jogo aqui não é o clube, é a definição de amor que escolhemos praticar. Porque, se amor é ação deliberada para promover crescimento, então “amor à camisa” não pode ser sinônimo de silêncio cúmplice. Amor que protege o erro para preservar a imagem não é amor, é pacto de manutenção do poder.
O Benfica teve diante de si uma oportunidade pedagógica de afirmar publicamente que o racismo tem nome, forma, história e consequências. Quanto aos benfiquistas, o amor à camisa, quando maduro, deveria ser precisamente o contrário da atitude pública de alguns: a disposição de dizer “isso não nos representa”, de exigir mais. De entender que a grandeza de um clube não está apenas nos títulos, mas na ética que sustenta a sua história. Amar uma instituição é querer que ela cresça, e crescimento implica confronto com o erro.
O que se viu, no entanto, foram relativizações, silêncios estratégicos, discursos sobre “mal-entendidos”, “provocações”, apelos à prudência que soam como adiamentos morais e são exemplos concretos do que a psicóloga brasileira Cida Bento conceituou como “pacto narcísico da branquitude”.
Paralelamente, comentaristas de futebol portugueses ocupam estúdios de televisão para transformar racismo em debate opinativo, como se a existência do racismo fosse matéria de especulação. Discutir se houve ou não racismo diante de um histórico reiterado de violência racial no futebol não é exercício crítico, é exercício de poder. É a reafirmação do privilégio branco de duvidar da experiência do outro.
E é nesse ponto que a reflexão de Lilian Thuram, um dos grandes zagueiros da França, campeão do mundo em 1998, me volta à mente (e como não?). Ele, que há anos e por anos sofreu o mesmo que Viniciu Junior, no livro Pensamento Branco (Tinta da China), desloca a pergunta de “por que o negro sofre racismo?”, para “o que é ser branco?”.
O que é essa identidade construída historicamente como norma, como neutralidade, como ausência de raça? Ser branco, argumenta, não é apenas uma condição fenotípica; é uma posição estrutural. É ocupar o lugar de quem define o que é exagero, o que é sensível demais, o que é “mimimi”. É o poder de transformar a dor do outro em controvérsia televisiva.
Quando comentaristas brancos discutem racismo como hipótese e não como estrutura, estão performando esse pensamento branco: o direito de duvidar, de deslocar o foco para a vítima, para a “provocação”, para a “emoção” do jogo.
Volto a hooks. Para nós, pessoas brancas, amar o nosso time talvez seja também admitir que o problema não é a sensibilidade de quem denuncia o racismo, mas a estrutura que nos ensinou a não enxergá-lo. E nos responsabilizarmos.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com







