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A pesquisa liderada pela bióloga Tatiana Coelho Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o laboratório Cristália, já soma cerca de 4,6 milhões de euros (R$ 28 milhões) em investimentos e apresenta resultados animadores no tratamento de lesões na medula espinhal. Desenvolvida ao longo de mais de 25 anos, a Polilaminina é uma substância aplicada diretamente na área lesionada da medula e, em testes iniciais com pacientes, mostrou recuperação de movimentos sem registro de efeitos colaterais.
A Polilaminina é produzida em laboratório a partir da laminina, que é uma proteína natural presente em diversos órgãos do corpo humano. Quando aplicada na medula espinhal lesionada, estimula os neurônios a se reorganizarem e restabelecerem a comunicação interrompida entre o cérebro e o restante do corpo. Na prática, isso pode permitir resultados interessantes, como os de pacientes com paralisia que recuperam parcial ou totalmente movimentos e funções fisiológicas perdidas após acidentes.
“Nós temos uma substância que até agora tem se mostrado muito promissora. Tem trazido resultados que não tinham sido observados anteriormente. E existem alguns resultados em seres humanos que também são surpreendentes. Então, tudo indica que estamos indo no caminho certo, mas ainda é uma pesquisa em andamento”, informa Tatiana Sampaio.
Lesões medulares
O projeto começou no fim dos anos 1990, sob coordenação da bióloga, que é chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. Em 2018, o Cristália passou a apoiar a iniciativa e, três anos depois, firmou parceria oficial com a universidade para viabilizar a produção em escala e a condução dos estudos clínicos. A UFRJ detém a patente de uso da substância, enquanto o laboratório solicitou patente para o processo de fabricação.
Todos os anos, até 500 mil pessoas sofrem lesão medular no mundo, segundo dados do laboratório Cristália. Além da perda de movimentos, esses pacientes enfrentam diversas alterações, como as urinárias, intestinais, sexuais, além de sofrerem impactos na saúde mental e na qualidade de vida. Até hoje, não havia tratamento aprovado capaz de regenerar a medula espinhal sem comprometer sua função. A nova medicação surge como alternativa promissora ao estimular a reconexão neural.
“As lesões medulares são muito temidas e têm toda uma imagem de que, geralmente a pessoa jovem, que tem uma vida normal, de repente, num passe de mágica, fica dependente. E isso mexe muito com o imaginário das pessoas, além de que, claro, traz muito sofrimento para a pessoa (afetada). É lógico que, se não existe nenhuma resposta e, de repente, aparece alguma, as pessoas vão se empolgar e buscar isso”, acrescenta Tatiana.
Dois casos de sucesso
Ainda de acordo com o laboratório Cristália, fundado em 1972 e, desde então, presidido pelo doutor Ogari de Castro Pacheco, nos estudos clínicos iniciais, dez pacientes vítimas de acidentes receberam a aplicação. Segundo os pesquisadores, houve melhora significativa de movimentos, sem registro de efeitos adversos relacionados ao medicamento.
A próxima etapa da pesquisa, que aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), deve incluir mais cinco pacientes e será conduzida por cirurgiões experientes em hospitais de referência em São Paulo. Dois dos pacientes já submetidos ao tratamento são os brasileiros Bruno Drummond de Freitas, que teve lesão causada por acidente de trânsito em abril de 2018, quando tinha 23 anos, e Hawanna Cruz Ribeiro, que, após uma queda, sofreu lesão aos 19 anos, em 2017.
Bruno fraturou a coluna vertebral na altura do pescoço. Ficou sem sensibilidade e controle dos braços e das pernas. O tratamento com Polilaminina começou 24 horas depois do trauma. Ele fez fisioterapia e, com o auxílio da medicação, foi recuperando os movimentos. Segundo o prognóstico original, ele deveria ficar permanente tetraplégico. Entretanto, aos 31 anos, pratica esportes, sobe escadas e pula cordas.
Já Hawanna, durante crise de sonambulismo, caiu do terceiro andar do apartamento em que morava. Ela fez tratamento à base de fisioterapia e recuperou os movimentos dos braços parcialmente. Há seis anos, ela participou de pesquisa experimental com Polilaminina e agora, com 27 anos, é atleta da seleção brasileira paralímpica de rugby em cadeira de rodas.
“A laminina tem uma forma de cruz. Isso é um fato e não tem como evitar que seja assim. E eu acho que as pessoas, que são religiosas e que têm fé, podem se apropriar dessa imagem como uma metáfora do que elas acreditam. Acho que não cabe a mim se isso está certo ou errado. Eu consigo perceber muito claramente a fronteira entre a ciência e aquilo que não é ciência”, diz Tatiana.
Ela complementa: “Eu tive um treinamento científico e estou habituada a produzir e trabalhar dentro desses limites da ciência. Eu me vejo como cientista e como uma pessoa, e acho que os limites não são os mesmos. Consigo botar o chapéu de cientista e o chapéu de não cientista”.
O procedimento
O procedimento com a Polilaminina é feito uma única vez, durante cirurgia já indicada para descompressão da coluna após o trauma. A aplicação ocorre diretamente no local onde houve a lesão. A recomendação é de que o tratamento seja realizado preferencialmente nas primeiras 24 horas após o acidente, embora existam relatos de resposta positiva mesmo quando administrado dias depois. Após a cirurgia, o paciente é assistido e faz sessões de fisioterapia, que é uma etapa considerada fundamental para potencializar os efeitos da substância.
Antes de chegar aos testes em humanos, a Polilaminina passou por experimentos em laboratório e em animais, como ratos com lesão medular, utilizando modelo reconhecido internacionalmente. Essa fase é obrigatória para avaliar segurança e eficácia em organismos vivos mais complexos. A substância não utiliza células-tronco embrionárias. A laminina empregada na produção é extraída da placenta humana, material que normalmente é descartado após o parto. Com autorização das mães, as placentas são coletadas e processadas em ambiente controlado.
As doadoras passam por exames rigorosos, considerados ainda mais exigentes que os realizados em bancos de sangue. Segundo os pesquisadores, a doação não oferece risco à mãe nem ao bebê e não há possibilidade de transmissão de doenças, já que apenas placentas de mulheres saudáveis são aproveitadas.
Os responsáveis pelo projeto também destacam diferenças em relação às terapias com células-tronco. Como essas células podem se transformar em diferentes tipos celulares, há risco de formação de cicatrizes que dificultam a regeneração. A Polilaminina, por atuar diretamente no estímulo ao crescimento e à reconexão dos prolongamentos dos neurônios, apresenta comportamento mais previsível.
Para os pesquisadores, o avanço coloca o Brasil em posição de destaque na pesquisa sobre regeneração da medula espinhal. Além do impacto para pacientes e famílias, a tecnologia pode representar economia futura para o sistema público de saúde, ao reduzir complicações e ampliar a autonomia de pessoas com paralisia.
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