Entre-os-Rios: uma tragédia que permanece viva

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Passaram 25 anos desde a queda da ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios. Tal como neste inverno, também em 2001 a chuva foi persistente e intensa. O Douro encheu-se e a força das águas, conjugada com outros fatores, acabou por expor uma tragédia que nunca poderia ter acontecido.

Além do autocarro com 52 passageiros e o motorista, a queda da ponte arrastou ainda três viaturas ligeiras para o leito do rio. A violência da corrente foi tal que, dias depois, corpos deram à costa na Galiza. No total, perderam-se 59 vidas, permanecendo, ao longo dos anos, 36 corpos por recuperar.

A força das águas levou vidas, mas não levou a memória, nem a dor, nem as cicatrizes. Para muitas famílias, permanece um sentimento profundo de injustiça perante a falha de quem tinha o dever de proteger.

A tragédia de Entre-os-Rios não passou. Ficou, também, no silêncio de quem viveu demasiado de perto uma das operações de busca e resgate mais exigentes da história recente do país. Durante dias e semanas, homens e mulheres enfrentaram condições extremas, num esforço físico e emocional difícil de descrever. Muitos carregam ainda hoje marcas invisíveis desse momento: bombeiros, mergulhadores, forças de segurança, militares, profissionais de saúde, autarcas, entre outros.

Dessa tragédia nasceu também um compromisso político claro, transversal a diferentes governos: garantir melhores acessibilidades, mais segurança e maior coesão territorial. Entre essas promessas destacou-se a construção do IC35, uma via estruturante para servir de alternativa à congestionada EN106, que liga Penafiel através da nova ponte entretanto erguida.

Esse compromisso foi assumido há 25 anos. Entretanto, nas últimas duas décadas, morreram mais 14 pessoas em acidentes rodoviários na EN106, uma estrada que já deveria ter uma alternativa segura.

Hoje, do IC 35, apenas está construída uma ponte e pouco mais de um quilómetro de via. Falamos da necessidade de um investimento na ordem dos 90 milhões de euros, numa obra que será um verdadeiro instrumento de transformação territorial. Um investimento com efeito multiplicador, capaz de abrir novas oportunidades na frente ribeirinha do Douro, potenciar o turismo, criar condições para novas áreas de solo industrial e, acima de tudo, garantir mais segurança para milhares de pessoas que diariamente dependem da EN106.

Nunca é tarde para cumprir e, sobretudo, nunca é tarde para fazer justiça. Honrar a memória das vítimas e de todos os que carregam a dor dessa tragédia é também garantir que o compromisso assumido não fica por cumprir.

Há responsabilidades que não podem ser adiadas e há momentos que exigem decisão. Hoje, sentimos que esse caminho está a ser feito, com maior proximidade, compromisso e sentido de responsabilidade. É tempo de transformar essa vontade em ação e, finalmente, cumprir um desígnio que a região espera há demasiado tempo.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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