Já provou “hambúrguer sem pão”? É criação de uma brasileira

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Apesar de dialogar abertamente com a cultura estadunidense do hambúrguer, a inspiração para a composição do menu do Café do Rio, no centro histórico de Lisboa, tem, na verdade, muito mais a ver com Portugal. É uma mescla de tradição e uso de ingredientes locais, com um toque de criatividade brasileira, que resultou no hambúrguer sem pão, carro-chefe do restaurante.

Dona do Café do Rio, a empresária brasileira Andréa Zamorano, que vive em território luso há mais de 30 anos, explica: “Servimos hambúrguer sem pão, algo que os portugueses faziam quando marcas de fast food chegaram por aqui, ainda durante a ditadura. Mas o nosso conceito é diferente: os discos de carne envolvem recheios generosos. Ou seja, os hambúrgueres substituem o pão”.

A empresária carioca Andréa Zamorano criou, ao lado do marido, um hambúrguer onde a carne faz as vezes de pão
Pat Cividanes

Só a título de curiosidade, a primeira grande marca de hambúrguer a desembarcar em Portugal foi o McDonald’s, no início dos anos 1990, em Cascais. Teria sido nessa época que o nome carne picada moldada, servida no prato, ganhou a companhia do pão e tornou-se o hambúrguer como é popularmente conhecido hoje.

Na escolha dos ingredientes, também há um belo toque de portugalidade. O hambúrguer “Nemésio”, que homenageia o escritor açoriano Vitorino Nemésio, tem queijo da Ilha São Jorge e o ananás dos Açores. Já no “Alentejano”, o diferencial é a salada com coentro. Some-se ao tempero bastante tradicional desta região do país, o pimentão em conserva e o presunto.

Produtos locais

Há, ainda, o “Mirandelês”, que faz referência à cultura gastronômica de Trás-os-Montes, cuja carne é misturada com alheira (um embutido típico de Portugal) de caça. E, nesse caso, esqueça o cheeseburguer com cheddar. Aqui, o queijo é uma homenagem à Beira-Alta.

No cardápio, é possível encontrar versões vegetarianas, em que a carne é substituída, por exemplo, por lentilha e tofu ou pela mistura de feijão com cogumelos. Quem preferir, pode pedir petiscos ou saladas, acompanhados de cocktails ou sucos naturais, que podem ter frutas misturadas — algo que é a cara dos comércios de esquina em bairros cariocas como Copacabana.

Hambúrguér vegetariano com lentinha e tofu com húmus de beterraba
Pat Cividanes

Para além dos ingredientes especiais e regionais, os do dia a dia são comprados nos arredores do Café do Rio. “Somos uma empresa familiar, e é natural que valorizemos o espírito de comunidade. Nossas frutas, legumes e verduras vêm do quitandeiro que fica na rua atrás do restaurante. O açougue, que oferece nossa carne orgânica, fica logo ali, na Graça. O azeite é do Alentejo, também de uma pequena produtora. Isso agrega valor ao que vendemos”, garante.

Percurso

Andréa se mudou para Portugal em 1992, quando o escudo ainda era a moeda corrente — o euro só viria a circular em 2002. Com apenas 23 anos, trabalhava para estudar literatura e passou a explorar o universo da pós-graduação nesta seara. E a sede de conhecimento segue firme. Recentemente, ela concluiu mestrado de escrita criativa pela Universidade de Coimbra, uma das mais prestigiadas de Portugal.

“Minha área originária é letras, mas logo vi oportunidade na comunicação. Trabalhei até em multinacionais, mas surgiu a vontade de ter meu próprio negócio, primeiramente, nesta área”, relembra.

E foi a partir desta experiência de mercado que surgiu a oportunidade de empreender na gastronomia. “Estava ajudando um cliente que queria abrir um restaurante na região do Parque das Nações. No meio do processo, ele desistiu após um desentendimento com o sócio e desafiei meu marido, que sempre quis ter um restaurante. O investimento, há vinte anos, ficou em torno de 200 mil euros. “Não sei dizer o quanto seria hoje, mas era um bom valor”.

De início, eles seguiram a proposta vigente no mercado, oferecendo pratos do dia no cardápio. Mas, pouco a pouco, a proposta criativa e livre de glúten, que surgiu antes de o tema ganhar visibilidade, a clientela foi se formando.

“Hoje, 90% dos nossos clientes são portugueses e a maioria trabalha ou vive nos arredores”, diz. Na parcela restante, há turistas que passam por ali, incluindo brasileiros. Afinal, o endereço do restaurante fica no meio à efervescência turística da região.

Foi desses clientes, aliás, que surgiu a ideia de solicitar a certificação da Associação Portuguesa de Celíacos. A opção de hambúrgueres sem glúten também atrai cada vez mais pessoas que têm restrições em relação ao consumo de ingrediente.

Diálogos

Por sinal, o diálogo estreito com sua clientela lusa, que notadamente sente-se em casa no salão do Café do Rio, provoca uma reflexão sobre passado e presente na relação entre portugueses e brasileiros.

De acordo com Andréa, quando ela chegou a Portugal, os nativos chegavam a pedir que ela falasse para ouvirem o seu sotaque. “Todo mundo dizia que o português do Brasil era o português com açúcar, tal como mencionava Eça de Queiroz. Veio do hábito da escuta da nossa música, das nossas novelas”, diz.

Hoje, reforça que se vive um outro momento, que faz parte da dualidade da relação entre os países. “Há momentos em que ela está mais próxima, e há aqueles em que a relação ela está mais distante. Estamos em um desses momentos, que, se por um lado pode parecer mais tenso, também tem mais pontes”, compara.

E ela fala com propriedade. Afinal, mudou de para estudar em uma época em que nem internet havia. “Era uma jovem inconsequente. Agora, sou apenas inconsequente”, brinca. Afinal, o seu projeto gastronômico, que contou com a parceria do marido bom de prato — e de panela —, surgiu de uma oportunidade fortuita, mas cresceu com altas doses de criatividade e dedicação. “Sigo com a mesma inquietude”, finaliza.

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