A minha casa

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Houve uma altura em que a casa esteve silenciosa. Tínhamos conseguido resolver o problema das barracas nas periferias das grandes cidades, ainda não se tinha dado a explosão do AL, nem os nómadas digitais beberricavam cappuccinos nos novos espaços de co-working. Aí há dez anos ainda nos interrogávamos como é que o tema da habitação não era mais central na campanha para as eleições autárquicas.

Mas ele estava a crescer subterraneamente, inexoravelmente, até se transformar no “problema”. Se há outras crises em que se esgrimem percepções, em que uns acham que tudo está mal e outros nem por isso, a crise da habitação tornou-se consensual para todos os agentes públicos, mesmo que a forma de a resolver possa tomar diferentes caminhos.

Uma razão para isto é que o problema é por demais evidente e não pára de crescer. Nos números que vamos publicando regularmente, temos o diagnóstico do tanto que falta fazer. Na história de quem tem de encontrar casa a mais de 80 quilómetros do sítio onde trabalha diariamente, vemos o exemplo dos danos que isso está causar na vida de milhões de portugueses.

A outra grande razão para esta centralidade da habitação é que a casa é mesmo algo intrínseco à condição humana, uma necessidade que, por vezes, toma a forma de sonho, porque é absolutamente determinante para a capacidade de sermos ou não felizes. Daí que seja matéria para tantas diferentes perspectivas sobre o assunto, que, evidentemente, não se esgotam nesta edição especial.

Não faltam respostas para percebermos como chegámos aqui. Como durante um período demasiado longo nos esquecemos da habitação social, das cooperativas, das responsabilidades do Estado, até chegarmos ao desequilíbrio de sermos um dos países da Europa com menor percentagem de habitação pública. De como o fraco planeamento, o inexistente investimento público, as leis ineficazes, a regulamentação excessiva, os fundos imobiliários, o turismo em expansão contínua desempenharam o seu papel. Como é que, erradamente, houve quem acreditasse que o mercado era a solução para tudo.

Hoje já estamos em excelentes condições para perceber o problema em que estamos metidos e aquilo que urge é começar a debater as soluções que estão a ser colocadas em cima da mesa. Há coisas a acontecer, mesmo que demorem a produzir efeito, e já não temos desculpas para não exigir o maior empenho na resolução do problema. Porque todos, e cada um, sabemos que não há nada melhor do que poder dizer “a minha casa”.

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