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Segunda-feira, 9 de março, às 10 horas, António José Seguro entra no Parlamento para jurar a Constituição. Quarenta anos depois de Mário Soares, um socialista volta a Belém com a maior votação da história portuguesa: 66,84%. Haverá salva de 21 tiros, hino nacional, jardins abertos ao povo. Na terça-feira, o presidente recém-empossado acordará com uma guerra no colo.
Enquanto Portugal preparava a cerimônia, o preço do gás na Europa quase dobrou. O contrato de referência, o TTF holandês, saltou de cerca de 30 euros por megawatt-hora para mais de 60 euros em questão de dias. As reservas de gás da União Europeia estão a 30% — abaixo do nível do ano passado. E a guerra no Irã, que começou em 28 de fevereiro, não dá sinais de arrefecer.
Portugal não importa gás do Oriente Médio desde 2020. Os principais fornecedores são Nigéria e Estados Unidos. Seria tentador imaginar que estamos protegidos. Não estamos. O mercado de energia é global. Quando o Irã ataca Ras Laffan, a maior instalação de gás natural do mundo, no Qatar, o preço dispara em Amsterdã — e chega a Lisboa. Quando 150 petroleiros ficam encalhados fora do Estreito de Ormuz, a conta aparece na fatura de luz do Alentejo.
O governo português fez sua escolha. A Base das Lajes está disponível para operações americanas, dentro dos limites do tratado. Enquanto a Espanha dizia não, Portugal honrou a aliança atlântica. Não é uma posição fácil, mas é coerente. Um país pequeno na ponta da Europa precisa de aliados fortes — e aliados se cultivam nos momentos difíceis, não nos fáceis.
O regime iraniano que agora arde não é uma vítima inocente. Décadas de financiamento ao terrorismo, ameaças nucleares, repressão brutal ao próprio povo. Quando o aiatolá Ali Khamenei caiu, iranianos celebraram nas ruas de Lisboa. A operação conjunta de Israel e dos Estados Unidos pode ser muitas coisas, mas surpresa não é uma delas.
Acontece que tais escolhas também têm custos. E a conta está a caminho. Não virá por mísseis — o Irã não tem alcance nem interesse em atacar os Açores. Virá na fatura da eletricidade, no preço dos combustíveis, na inflação que corrói salários já curtos. O excedente orçamental que o Governo celebrava pode virar memória. Acabaram as vacas gordas.
Seguro prometeu ser um presidente “livre e sem amarras”. Herda, porém, um país que já fez escolhas. A questão agora é outra: como pagar a conta sem que os portugueses paguem duas vezes? Uma vez pelo preço da energia, outra pelo preço da inação.
O novo presidente não governa. Mas pode usar a magistratura de influência para pressionar por respostas: diversificação energética, proteção das famílias vulneráveis, diplomacia europeia coordenada. A cerimônia de segunda-feira será solene. A terça-feira, implacável.
Seguro tomará posse com pompa. Mas precisará provar que o nome não é mera coincidência.
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