Do caso da baleia azul ao desafio do paracetamol

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As epidemias de suicídio, pelo potencial de mimetismo, remontam há séculos. Talvez uma das mais antigas tenha sido relatada por Plutarco, no século I, em relação às virgens de Mileto da Grécia Antiga: “Todas foram possuídas por um desejo de morrer e uma vontade furiosa de se enforcar. Palavras e lágrimas não adiantavam; elas enforcavam-se.” Para acabar de vez com essa tragédia contagiosa, foi decretado que o cadáver seria exposto nu na Ágora, isto é, no mercado. O medo da desonra superou o desejo de morte.

Já neste século, em 2013, alguns adolescentes foram manipulados pelo “jogo” da baleia azul, temática que tive ocasião de abordar, em Lisboa, no VII Congresso da Patologia Dual, em 2017. Tudo apontava para que as origens provinham da Rússia, alegadamente polarizadas em Filipp Budeykin, um lunático que “queria limpar a sociedade”, prenúncio de uma ideologia de crueldade, isto apenas para simplificar. A partir do momento em que um jovem curioso, inquieto e fragilizado, entrava naquele labirinto, irrompiam dezenas de tarefas por etapas controladas pelo “curador” ou “administrador”, desde exploração mental à volta do número 3 e suas crendices, desenhos na pele, automutilações, até ao suicídio na quinquagésima paragem.

Internado numa unidade psiquiátrica, o russo seria considerado imputável a nível da psiquiatria forense. Ou seja, diagnosticado supostamente por um quadro de distúrbio da personalidade, um não louco, responsável do ponto de vista judicial. A denominação desse condicionamento e perversão, portanto, jamais um jogo (sendo o título um engodo de consequências perigosas), baseava-se no mito do suicídio de baleias, algumas de 160 toneladas e 30 metros de comprimento, encalhadas e agónicas em praias. A resposta científica mais plausível é de que tais mamíferos, gigantes infaustos, foram afetados nos sensores biológicos de geolocalização, não estando os humanos isentos desse transtorno de navegação, exemplificado no caso de ondas emitidas pelos submarinos. Portanto, as baleias não se suicidam em massa.

Não foi ainda há muitos anos que Google hits como “How to Kill Yourself” ou “Suicide Methods” registavam o dobro ou o quadruplo de “Suicide Prevention”, respetivamente! Um alerta para as políticas de saúde mental. Esta badalada competição do paracetamol (este conhecido medicamento principalmente para a febre e as dores), desde 2023, levantou novos demónios que continuam a minar a sociedade. Mais uma vez, uma força de maléfica manipulação cognitiva coloca os jovens numa ardilosa coragem, transformando comportamentos de risco, por vezes, em espetáculo com direito a imagens. Tudo transitório e pretensamente grandioso! Estamos a falar de comportamentos autolesivos no “fio da navalha”. Nada é inócuo. Nada é pueril. Serem incentivados a tomar sobredosagens de paracetamol a ver quem aguenta mais até às náuseas, vómitos, icterícia, hipersónia e falência hepática, com eventual transplante hepático ou mesmo morte, não é um exercício de intrepidez, mas sim o risco real de um possível não retorno. A finitude. É necessário e obrigatório que alguém grite que só os vivos podem jogar e brincar.

Mas, afinal, quem são estes jovens fascinados pelos abismos ou prisioneiros dos tédios? Há abraços nessas famílias? Olham-se nos olhos? Serão equivalentes suicidas, como os condutores de motocíclicos em contramão na autoestrada? Que linguagens comunicacionais nos querem mostrar? E a sociedade, está preparada para compreender e encontrar alternativas e estratégias inteligentes? Para alguns jovens, a apropriação do corpo é uma grande vitória. “A minha pele é a minha tela”, quantas vezes ouvi esta frase! A perda do sentimento de pertença (a algo ou alguém) e a incapacidade para agarrar uma causa que entusiasme ou apaixone são frequentes nestes adolescentes desconectados ou zangados com o mundo. Já foi dito e redito que, a nível da saúde mental, uma sociedade civilizada terá que se focar prioritariamente na prevenção primária. Ir à fonte das “moratórias desviantes”. Às chamadas famílias disfuncionais, um eufemismo para não chamar de doentes. Ao fundo dos porquês.

Quando, há 25 anos, disse num congresso no auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra que às crianças deveriam ser oferecidos um lápis, para criar, uma bola, para brincar, um palco, para fazer de conta, e um cão para cuidar, alguns amigos sorriram candidamente e chamaram-me de utópico! Pois… Em certos países estamos a voltar “ao giz e à lousa”, à valorização das expressões dramáticas, ao contacto intenso com a natureza. Tal não será por acaso. Os afetos têm que ser retocados. Enaltecidos. Precisamos deles, tal como respirar. É imperativo estarmos mais atentos. O Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (2013) já contempla orientações para lidar com tais comportamentos de risco, de modo a melhorar a autoestima, esbater a impulsividade e lutar contra o isolamento. Só já falta “dar corda aos sapatos”. Menos retórica, mais ação. A recente Linha 1411 é uma âncora de apoio a jovens desesperados, tal como outros telefones SOS há muito existentes. Todavia, ninguém substitui a família e a escola. Onde tudo começa. “Rafting” no rio Paiva, escalada e “rappel” na serra da Lousã ou voo de parapente em Linhares da Beira não seriam muito mais estimulantes?

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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