Há uma tendência crescente de olhar para o Alentejo através de duas lentes opostas, ambas construídas de fora para dentro e redutoras.
Por um lado, existe, factualmente, uma mercantilização cultural: um Alentejo pop, formatado por algoritmos, desenhado à medida de um romantismo bucólico e bacoco para consumo urbano. É a ficção de um sul idílico e solar que serve, de facto, de biombo para esconder os problemas estruturais gravíssimos que, pelo menos desde há 27 anos, vejo.
O Alentejo é uma terra esquecida. No Alentejo, não temos auto-estradas para todo o lado, não temos constantemente rede 5G, não temos rede de fibra, não temos comboios electrificados para todo o lado. No Alentejo, existem, de facto, problemas de saúde mental gravíssimos, potenciados pela falta de oportunidades, pelo desinvestimento, pelo abandono. No Alentejo, os hospitais falham.
Evidentemente, é importante e muito pertinente rejeitar a ideia da imagem de “Alentejo fofo”. Contudo, a contra narrativa não pode assentar em princípios de generalização bacoca e perversa.
O Alentejo não é um parque temático para as gentes urbanas, mas também não é um museu de fatalidade. Nesta narrativa, cai-se no erro de reduzir o Alentejo a um poço de isolamento e depressão, em que as pessoas se arrastam pelas tabernas e não são culturalmente estimuladas. É importante não trocar a crítica social pelo paternalismo e pela condescendência.
Os problemas estruturais da terra prometida não são falhas da população, nem tão pouco uma herança cultural inescapável; são, sim, o resultado de décadas de desinvestimento crónico do Estado. Quando é dado palco a discursos públicos focados numa alegada ignorância da população, promove-se o elitismo.
Ademais, a narrativa da miserabilidade define quem tem o direito de pertencer ao Alentejo “real”. Argumenta-se, então, que a verdadeira face da região não é a dos imigrantes, mas sim a de um povo autóctone esquecido. Quem vive no território, quem trabalha a terra nas condições mais miseráveis, quem sofre de exploração que parece saída de um filme da Idade Média faz, inequivocamente, parte do Alentejo de hoje. Esta é a retórica excludente, que procura dividir, como se diz nas gírias xenófobas que todos os dias nos entram em casa, a população de “bem” da do “mal”.
O país precisa de ver o invisível, sim. O país precisa de não reduzir o Alentejo a um cenário fofo e bucólico, mas tornar a nossa terra em sinónimo de tragédia, retira a agência, a voz e, diga-se, a dignidade de quem vive no sul do país.
O Alentejo existe, o Alentejo precisa de ser visto, as nossas gentes merecem mais e merecem melhor. No entanto, não precisamos de escolher entre a ficção de um sul sorridente e a ficção de um território condenado ao atraso e à ignorância. O que a região exige é respeito. Respeito pelas suas gentes, pela sua cultura, pela sua força. É necessário olhar para o Alentejo, reflectir e agir sobre os seus problemas estruturais, mas é preciso fazê-lo com o respeito que o povo alentejano merece.
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