O dia 7 de Março de 2011 marcou uma ruptura simbólica na história política contemporânea de Angola. Naquele momento, jovens angolanos romperam o silêncio e ousaram desafiar uma cultura política marcada pelo medo, pela submissão e pelo conformismo. Inspirados por ventos de mudança que atravessavam outras partes do mundo, decidiram afirmar algo profundamente simples e humano: o direito de viver com dignidade.
Mais do que um protesto, o 7 de Março de 2011 em Angola foi um grito coletivo contra a injustiça estrutural. Foi o início de uma geração que recusou aceitar a fome, a exclusão e a desigualdade como destinos naturais. Porque a fome não é apenas um problema económico — é um problema humano, ético e político. Uma sociedade que se habitua à fome dos seus cidadãos é uma sociedade que já começou a abdicar da sua própria humanidade.
Desde então, muitos de nós entrámos no ativismo movidos por valores simples, mas fundamentais: justiça, dignidade e liberdade. Esses valores deveriam sempre estar acima de interesses pessoais ou conveniências momentâneas. Valores éticos nunca podem ser subordinados ao cálculo do poder ou ao medo das consequências. No entanto, ao longo dos anos, a sociedade angolana revelou uma tensão profunda entre esses princípios e a realidade das escolhas individuais e coletivas.
Uma parte significativa da sociedade permanece suspensa entre a consciência e a conveniência. Entre a coragem e o silêncio. Entre a defesa dos valores e o apego ao “eu”. Muitas vezes, a solidariedade cede lugar ao individualismo, e a causa coletiva é substituída pela busca de reconhecimento pessoal, posição ou sobrevivência política.
Esta fragilidade não surge por acaso. Ela tem raízes profundas na história política e social do país. Angola herdou estruturas de poder marcadas por lógicas coloniais de senhorio e subordinação. Durante décadas, criou-se uma cultura política onde o “patrão” manda e os outros obedecem. Nessa lógica, quem ousa levantar a voz é frequentemente alvo de intrigas, difamações, perseguições ou isolamento.
Esse método não é novo. Sempre que alguém se afirma com firmeza numa luta por transformação social, surgem estratégias para descredibilizar, dividir ou neutralizar essa voz. Assim tem caminhado a nossa revolução em muitos espaços sociais: fragmentada, vulnerável e muitas vezes desviada.
Há quem tenha passado a ver a luta como uma ilusão. Outros continuam a vê-la como um caminho necessário para a transformação social e para o bem-estar coletivo — o que, naturalmente, não é errado. O problema surge quando a ideia de revolução deixa de estar centrada na transformação do sistema e passa a girar em torno de figuras individuais.
Durante muitos anos, grande parte da crítica política concentrou-se na figura de José Eduardo dos Santos. Quando surgiu a mudança de liderança, muitos acreditaram que o problema essencial tinha sido resolvido. No entanto, a realidade revelou algo mais complexo.
O poder mudou de rosto, mas muitas estruturas permaneceram intactas.
Sob a liderança de João Lourenço, alguns mecanismos de controlo tornaram-se até mais sofisticados. O espaço político continua marcado por fortes pressões sobre tribunais, meios de comunicação e instituições públicas. Jovens que ousam reivindicar direitos continuam a enfrentar repressão, intimidação e, em alguns casos, violência extrema.
Essa realidade levanta uma pergunta inevitável: se a mudança de liderança não resolve o problema, então onde está o verdadeiro problema?
A resposta começa a tornar-se evidente. A luta não pode estar centrada apenas em pessoas. Deve estar centrada nas estruturas que produzem e reproduzem injustiça.
Enquanto a revolução for dirigida apenas contra indivíduos, ela será sempre vulnerável. Personalidades podem cair, desaparecer ou ser substituídas. Sistemas, porém, permanecem — a menos que sejam profundamente transformados.
Por isso, a luta pela justiça em Angola precisa de amadurecer politicamente. Não se trata da luta de um pequeno grupo de ativistas. Trata-se da construção de uma consciência coletiva. Uma sociedade com valores claros, capaz de rejeitar abusos, fraudes ou corrupção — mesmo quando praticados por amigos, aliados ou figuras admiradas.
Recordar o 7 de Março é, por isso, um exercício de memória e também de autocrítica. Obriga-nos a perguntar para onde deveria ter caminhado a nossa luta. Talvez tivéssemos avançado mais se tivéssemos construído estratégias verdadeiramente coletivas e estruturadas.
O ativismo real não se limita à indignação momentânea. Ele nasce muitas vezes de três forças humanas profundas: a raiva diante da injustiça, a revolta contra a opressão e o desejo de revolução. No entanto, essas forças só se tornam transformadoras quando são orientadas por valores de coerência, consistência e responsabilidade coletiva.
Uma revolução verdadeira não depende de um único indivíduo. Ela depende de uma comunidade inteira que decide não se curvar diante da mentira, do medo ou das recompensas superficiais.
Mobilização real não é apenas simbólica. Não é apenas presença nas redes sociais ou discursos inflamados. Mobilização real exige organização, comunicação eficaz, disciplina ética e compromisso contínuo.
Infelizmente, ao longo do caminho, alguns perderam esse horizonte. Seduzidos pela fama, pelo populismo ou pela ilusão de poder, afastaram-se dos princípios que originalmente os motivaram.
Ainda assim, uma nova geração de ativistas continua a emergir. Jovens que tentam ser o exemplo que muitos dos mais velhos nunca foram capazes de oferecer. Durante anos ouvimos conselhos contraditórios: “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. Esse tipo de liderança moral frágil revelou-se insustentável.
Muitos dos que falavam em princípios foram os primeiros a desaparecer quando o poder mudou de mãos.
Essa experiência ensina uma lição importante: a revolução não pode ser construída sobre figuras momentâneas. Quando ela se apoia apenas em personalidades, basta uma mudança de vento para que tudo desabe.
Então, a pergunta permanece: onde anda a revolução?
Talvez a resposta seja desconfortável: a revolução nunca saiu completamente do lugar onde começou. Ficou muitas vezes presa à construção de heróis e adversários simbólicos, enquanto o sistema que sustenta a injustiça continuou intacto.
É preciso ter coragem para reconhecer algo que muitos evitam dizer. O sistema político dominado pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) tornou-se, para muitos cidadãos, um mecanismo estrutural de reprodução de poder e controlo. Um sistema que, ao mesmo tempo que cria heróis, também absorve ou neutraliza opositores.
Isso não significa que a luta terminou. Pelo contrário.
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