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Lisboa passou a abrigar a primeira turma do Programa de Incubação deStartups da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a ApexBrasil, numa iniciativa em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, Sebrae, que pretende transformar Portugal em plataforma de entrada para empresas brasileiras inovadoras no mercado europeu. Instalado no escritório da agência na rua Rosa Araújo, o projeto oferece às selecionadas até nove meses de apoio, mentorias, aceleração e acesso a uma rede de investidores e parceiros estratégicos.
No lançamento, o chefe de assuntos estratégicos da Apex Europa, Aloysio Nunes, procurou situar a iniciativa numa linha histórica mais ampla e deu o tom político e simbólico do programa ao afirmar que Portugal “é a terra da inovação”. Ao evocar o final do século XV, lembrou que o sul do país, com a chamada Escola de Sagres e o desenvolvimento de instrumentos de navegação e da caravela, abriu caminho para a expansão marítima portuguesa. “Portugal foi o primeiro país a promover a globalização no mundo, juntando todos os continentes”, disse, acrescentando que o Brasil também é resultado desse impulso inovador português.
A fala de Aloysio serviu de moldura para uma aposta que a Apex quer apresentar como contemporânea, mas conectada a uma antiga vocação luso-brasileira de atravessar fronteiras. Para ele, a chegada das startups a Lisboa coincide com uma conjuntura favorável, marcada pela aproximação entre Mercosul e União Europeia, pela convergência regulatória entre Brasil e Europa em temas digitais e pela possibilidade de Portugal funcionar como “porta de entrada” para o continente.
Além da Web Summit
O presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, afirmou que o programa nasceu depois de uma percepção prática. Segundo ele, não fazia sentido mobilizar centenas de startups brasileiras para eventos como o Web Summit sem construir uma presença mais permanente em Lisboa. “A gente não vai ficar com ninguém? A gente volta todo mundo?”, recordou, ao explicar a origem da incubação. Viana disse que a proposta é dar escala internacional a negócios que já saíram do estágio da ideia e agora buscam consolidação. “A presença das startups brasileiras em Lisboa simboliza um novo momento da nossa inserção internacional, em que tecnologia, criatividade e sustentabilidade caminham juntas. Estamos fortalecendo a ponte entre Brasil e Europa por meio da inovação”, afirmou.
Felipe Eduardo Varela
O presidente da Apex também insistiu que as empresas selecionadas não chegam a Portugal em ambiente de conforto. “Eles estão vindo aqui no sacrifício, no risco”, disse, ao destacar que a agência e o Sebrae ajudam com parte da estrutura, mas que a aposta empreendedora continua a depender da disposição de cada fundador para enfrentar a internacionalização. Para Viana, o objetivo é acompanhar os primeiros meses de validação do plano de expansão e, numa segunda etapa, apoiar a consolidação das operações, o fortalecimento de parcerias e a aproximação com investidores.
No evento, o embaixador Juliano Féres, representante permanente do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, ampliou o horizonte do projeto ao defender que Portugal não seja visto apenas como ponte para a União Europeia, mas também para a CPLP. “A Apex teve o entendimento de perceber Portugal não só como uma plataforma para a Europa, para as empresas e para os empreendedores brasileiros, mas também para os países da CPLP”, afirmou. Ao lembrar que a comunidade completa 30 anos em 2026, Juliano sustentou que há “um potencial inestimável” de crescimento conjunto, sobretudo nos países africanos de língua portuguesa, onde há populações jovens e forte demanda por soluções em áreas como saúde, tecnologia, gestão e serviços.
A primeira turma reúne dez startups de diferentes setores, entre elas Wood Chat, 593ICAN, Onco.AI, Just Travel, SleepUp, PixNow, AIPER, Sandora, Catena e BioLinker. O recorte escolhido pela Apex procura refletir não só a diversidade temática, com empresas de biotech, healthtech, traveltech, fintech, climatech e HRtech, mas também a diversidade regional e de liderança, com representantes do Norte, Nordeste e Sudeste do Brasil e presença expressiva de mulheres à frente dos negócios.
Algumas das startups
Entre as selecionadas, a BioLinker chega a Lisboa com o discurso de quem já testou sua tecnologia em ambiente de alta pressão. Fundadora da empresa, Mona Oliveira afirma que a startup trabalha com uma plataforma de ponta a ponta para o desenvolvimento de proteínas recombinantes, antígenos, enzimas e sistemas de expressão, voltada sobretudo a cientistas e laboratórios. Na prática, explica, a empresa acelera processos de pesquisa biotecnológica que impactam o desenvolvimento de vacinas, diagnósticos, proteínas funcionais e soluções para saúde humana e animal. “A nossa empresa já resolve um problema global que movimenta cerca de um trilhão de dólares”, disse.
Mona lembra que a BioLinker ganhou tração justamente durante a pandemia de covid-19. Segundo ela, a startup cresceu cinco vezes naquele período, quando passou a fornecer proteínas do vírus e a colaborar com universidades e laboratórios brasileiros num contexto em que o país importava a maior parte desses insumos. “Com a nossa plataforma a gente fez proteína do vírus. Era uma empresa que tinha acabado de nascer”, contou. Para a fundadora, a incubação em Lisboa representa um passo decisivo para entender o ambiente regulatório europeu, encontrar parceiros e transformar a chegada ao continente num verdadeiro processo de soft landing (pouso suave). “Esse movimento é extremamente importante para que a gente conheça melhor esse mercado e consiga conversar com as pessoas corretas”, afirmou.
Viagens
Na Just Travel a aposta é outra, mas o diagnóstico parte igualmente de uma transformação acelerada. Diego Rydz, à frente da traveltech, sustenta que as agências de viagem não desapareceram com a internet, mas foram obrigadas a se reinventar. A plataforma criada pela empresa funciona em modelo B2B white label e permite que pequenas e médias agências vendam online com marca própria, disputando espaço com as grandes OTAs, as agências de viagem online. “Hoje existe um novo agente de viagem”, afirmou. Segundo ele, esse profissional está muitas vezes nas redes sociais, produz conteúdo, orienta passageiros e se especializa em destinos, mas ainda precisa de ferramentas tecnológicas para competir em preço, conveniência e experiência.
Para Diego, o desafio do setor é concreto. “Hoje imagine que 25% das agências, das pequenas e médias, estão com risco de fechar o negócio justamente pela competição com as grandes online”, disse. A Just Travel, acrescenta, oferece uma solução de e-commerce que ajuda essas empresas a continuar no mercado, combinando tarifas competitivas com a curadoria de quem conhece o destino e pode evitar o “perrengue chique” da viagem mal planejada. A relação com Portugal já vinha sendo construída em participações anteriores no Web Summit, mas, segundo ele, a incubação da Apex tem potencial para encurtar o caminho. “Sem esse apoio, eu acho que a gente ainda ia demorar mais uns dois anos para começar a enfrentar o desafio”, afirmou.
Saúde Mental
A Sandora, liderada por Meline Lopes, chega ao programa com uma plataforma voltada à prevenção de riscos psicossociais e assédio no ambiente corporativo, antes que eles se convertam em afastamentos, processos judiciais e passivos trabalhistas. Com foco no mercado B2B, a startup atende empresas com mais de 100 colaboradores e combina questionários, análise documental e inteligência artificial para prever níveis de risco por função e setor, sem individualizar trabalhadores. “A saúde mental, o adoecimento mental, na verdade, é uma epidemia global”, disse Meline, que relaciona o agravamento do problema ao período posterior à pandemia e ao embaralhamento das fronteiras entre trabalho e vida pessoal.
A executiva afirma que a Sandora começou a gerar receita em agosto de 2025 e já incorporou a empresa no Canadá, também de olho na demanda internacional. Agora, a expectativa é usar Lisboa como base para validar o modelo na Europa com apoio especializado. “A expectativa é a melhor possível”, afirmou. Segundo Meline, a incubação permitirá entender melhor o mercado europeu, refinar a proposta de valor e identificar o público ideal com mais rapidez do que no processo de validação feito no Brasil. “Sem dúvida, é uma validação muito mais simplificada do que a que a gente fez no Brasil, com base no feeling, no erro, no acerto, nas tentativas”, disse.
Divulgação
Madeira certificada
Também entre as selecionadas, a Wood Chat aposta em inteligência artificial aplicada à rastreabilidade da madeira amazônica. A empresa, representada por Fernanda Onofre, desenvolveu uma solução de visão computacional capaz de reconhecer espécies de madeira por imagem, substituindo um processo que ainda é feito, em grande parte, a olho nu. A tecnologia pode ajudar exportadores brasileiros e importadores europeus a comprovar origem legal, rastreabilidade e conformidade com exigências regulatórias da União Europeia. Segundo Fernanda, foi no Web Summit de 2024 que a startup percebeu com mais clareza o potencial do mercado europeu. Em 2025, a empresa voltou ao evento, avançou em programas de internacionalização e agora inicia formalmente sua expansão a partir de Lisboa.
A primeira fase do programa, entre Março e Maio, será dedicada ao teste e à validação dos planos de expansão. O cronograma inclui seminário de internacionalização, networking com hubs de inovação, sessões temáticas, mentorias individuais, diagnóstico de maturidade internacional, matchmaking, rodada de investimentos e um “dia do investidor”. Numa segunda etapa, entre Junho e Novembro, o foco passa a ser a consolidação da operação internacional e a permanência das empresas no mercado europeu.
Ao fim do lançamento, ficou clara a ambição da Apex de transformar a incubação num projeto estruturante da presença brasileira em Portugal. Ao recuperar o passado marítimo português, Aloysio Nunes procurou sugerir que a travessia de agora é outra, feita menos por caravelas do que por dados, algoritmos, biotecnologia e plataformas digitais. Mas a lógica, indicou ele, ainda é a de encontrar em Lisboa um ponto de partida para alcançar outros mercados. Desta vez, com startups brasileiras tentando navegar na economia global a partir de uma velha rota atlântica.
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