A criação de uma rede de lojas sociais, capaz de reforçar a resposta em situações de calamidade, foi uma das principais ideias debatidas no encontro de lojas sociais promovido pela Cáritas Diocesana de Lisboa. A iniciativa, integrada nas comemorações dos 50 anos desta IPSS, reuniu cerca de 30 instituições na semana passada na loja social Dona Ajuda, instalada no antigo Mercado do Rato. Teve como objectivo partilhar experiências, identificar desafios e lançar as bases para uma articulação entre projectos que, até à data, funcionam de forma autónoma.
Ao PÚBLICO, o presidente da Cáritas de Lisboa, Luís Fragoso, explica que a criação desta rede permitirá tornar o trabalho mais eficaz. “[Queremos] criar uma rede para que este esforço, que se faz com as lojas sociais, seja mais eficaz e chegue a mais pessoas. No fundo, a eficiência do sistema é o que nós procuramos, porque queremos ajudar mais pessoas”, afirma.
A instituição considera que esta articulação poderá ser especialmente relevante em contextos de emergência, como os que se verificaram no mês passado devido às intempéries, quando a capacidade de mobilizar rapidamente recursos e bens essenciais se torna decisiva.
Uma loja social, tal como explica Maria Cortez, representante da Cáritas, é um espaço que, “a partir de doações, permite o acesso a bens não alimentares a custo baixo ou mesmo nulo”. Acrescenta que é, também, uma “loja inclusiva, porque todos têm o acesso digno, tanto beneficiários como doadores e voluntários”.
Durante o encontro, foram apresentados vários exemplos de projectos no terreno que ilustram diferentes modelos de funcionamento das lojas sociais. Uma dessas experiências é a da Dona Ajuda, espaço anfitrião do encontro, que funciona com base em, principalmente, doações de particulares e num espaço cedido pela Câmara Municipal de Lisboa. Para além da venda de produtos em segunda mão, a loja promove actividades comunitárias, como ensaios do coro comunitário e residente A Dona Ajuda Canta ou eventos culturais. O projecto disponibiliza, ainda, aos seus beneficiários um plafond mensal no valor de 40€ para ser utilizado na aquisição de bens.
Também o projecto RE-Coopera, ligado ao Centro Comunitário de Carcavelos, foi apresentado como exemplo da iniciativa que nasceu da necessidade de gerir um elevado volume de donativos. Criado em 2004, começou com “um pequeno banco de roupa” que era vendida em feiras mensais com o propósito de “angariar fundos para o centro”, conta Natércia Martins.
Em 2012, a Câmara Municipal de Cascais cedeu um espaço para a abertura de uma loja, com o apoio da Galp Energia. No ano seguinte, em plena crise económica, o projecto foi convidado a ocupar uma loja vaga no Centro Comercial Riviera, o que representou um “grande salto qualitativo”, funcionando diariamente das 10h às 22h com o apoio de voluntários.
Actualmente, a loja continua a operar nas Galerias do Junqueiro e num mercado instalado numa tenda de eventos, criado durante a pandemia. Todas as semanas, passam pela iniciativa cerca de “cinco toneladas de materiais”, tendo sido já desviadas da reciclagem “cerca de 46 toneladas de bens”, explicita Manuel Abreu.
O trabalho da loja social da Cáritas Paroquial de Turquel, uma pequena vila no concelho de Alcobaça, foi outro dos exemplos apresentados. A loja nasceu em 2014, quando o centro paroquial, que já recebia doações da comunidade, decidiu vender alguns dos bens para angariar fundos. O projecto foi impulsionado pela chegada do padre Gonzalo Palácios à paróquia, que propôs a venda de peças através de plataformas online, como a Vinted.
Paula Félix Santos, responsável pela loja, revela ao PÚBLICO que já ajudou mais de mil pessoas ao longo dos anos e apoia, actualmente, mais de uma centena por mês.
Durante a sua intervenção, Pedro Folque, da Dona Ajuda, destaca que uma “boa organização do espaço” e uma gestão cuidadosa dos recursos são essenciais para o sucesso destas lojas sociais. Entre as práticas apontadas estão a reutilização de materiais, a recuperação de peças para evitar que acabem no lixo e a procura de doações junto de empresas antes de realizar qualquer despesa.
“O que não pode ser reaproveitado pode ainda encontrar outras utilidades”, refere Pedro, apontando exemplos como a doação de mantas para canis ou a entrega de livros para a campanha “Papel por Alimentos”, do Banco Alimentar.
O encontro foi encerrado pela directora executiva da Cáritas de Lisboa, Carmo Diniz, que sublinhou a importância de continuar a desenvolver o trabalho em conjunto. Apesar de já existirem várias lojas sociais em paróquias da diocese, estas “ainda não se encontram em rede”. Para a instituição, a articulação entre estes projectos poderá permitir responder de forma mais rápida e eficaz às necessidades das populações, especialmente em contextos de crise.
A Cáritas Diocesana de Lisboa pretende agora avançar com a criação dessa rede, envolvendo as lojas existentes e incentivando o surgimento de novos espaços solidários na diocese.
Texto editado por Ana Fernandes
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