Guerra Israel–Gaza libertou mais de 30 milhões de toneladas de CO2 num só ano

0
7

Um novo estudo publicado na revista One Earth revela uma dimensão pouco discutida da guerra entre Israel e Gaza: o seu invisível impacto climático. Segundo os autores, o conflito libertou 33,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2-e) num único ano. Estes números mostram “a necessidade de uma contabilização mais abrangente das emissões militares e dos seus custos climáticos”, sublinham os cientistas.

A guerra entre Israel e Gaza não tem sido observada apenas pelo número de mortos, pela destruição urbana ou pela crise humanitária que se prolonga há anos. Este novo estudo analisa o impacto climático. A investigação que olhou para diferentes fases deste conflito conclui que as emissões já somavam “quase meio milhão de toneladas de CO2-e”, na fase de pré-conflito, quando foram construídos os túneis do Hamas e fortificações de Israel em cimento, ferro e aço, antes de qualquer tiro ser disparado.

“Os inventários de emissões de gases de efeito estufa (GEE) são vitais para uma governança climática eficaz; isso inclui as emissões militares. No entanto, uma contabilização completa de todo o ciclo do conflito — pré-conflito, durante o conflito e reconstrução pós-conflito — continua a ser uma questão importante raramente analisada pelos investigadores”, escrevem os autores do artigo.

Tanto quanto as emissões da Jordânia

Num único ano, concluem os cientistas, foram libertadas 33,2 milhões de toneladas de CO2-e — um valor comparável às emissões anuais da Jordânia. A título de comparação, Portugal emitiu em 2023, em 2023, cerca de 53,3 milhões de toneladas de CO2-e.

O dióxido de carbono equivalente é unidade de medida utilizada para comparar as emissões de vários gases com efeito de estufa, baseada no seu potencial para alteração climática, sendo que esta medida converte quantidades de outros gases — como metano ou óxido nitroso — para a quantidade equivalente de dióxido de carbono com o mesmo potencial de aquecimento global, facilitando a análise e comparação de emissões.

“Para dar outro exemplo, usando a calculadora de equivalentes de gases com efeito de estufa da Agência de Protecção Ambiental dos EUA, descobrimos que 33,2 milhões de toneladas CO2 equivalentes são iguais à absorção total de carbono por 13,3 milhões de hectares de florestas em apenas um ano ou às emissões anuais de 7,6 milhões de carros a gasolina”, assinalam os autores. Note-se que em Portugal, em 2024, circulavam sete milhões de veículos, segundo dados da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, citados pelo jornal Expresso.

Ainda assim, o número, por si só, não surpreende os investigadores, que sublinham a urgência de incluir as emissões militares nas políticas climáticas — algo que um editorial publicado em Setembro de 2025 pela mesma revista, que faz parte do grupo Cell Press, já mencionava, ao alertar para o peso invisível das guerras no planeta.

Antes, durante e depois da guerra

O estudo agora publicado distingue três fases: pré-conflito, conflito activo e reconstrução. Muito antes do início das hostilidades, Gaza e Israel já tinham contribuído para um volume significativo de emissões associadas a infra-estruturas militares. A construção dos cerca de 500 km de túneis usados pelo Hamas terá emitido 176 mil toneladas de CO₂. Do lado israelita, a barreira conhecida como Iron Wall representou mais 320 mil toneladas.

Somadas, estas estruturas atingem quase meio milhão de toneladas — emissões que raramente entram no debate público e que o editorial da One Earth identifica como exemplo da “invisibilidade sistemática” das emissões associadas à preparação para a guerra.

Os investigadores explicam que recorreram a “dados de código aberto provenientes de relatórios governamentais, think tanks e organizações da sociedade civil” para avaliar as emissões do conflito, incluindo infra-estruturas prévias, operações militares e as necessidades de reconstrução.

Imagem captada por um drone mostra a destruição num bairro residencial, após a retirada das forças israelitas da área, no âmbito de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas em Gaza, na cidade de Gaza, em 16 de Outubro de 2025
REUTERS/Dawoud Abu Alkas

O peso climático da guerra

Durante os 15 meses de conflito, as emissões directas — provenientes de bombardeamentos, transporte militar, combustível para tanques e geradores — ultrapassaram 1,3 milhões de toneladas.

Só os bombardeamentos israelitas, estimados em 70 mil toneladas de explosivos lançados sobre Gaza, representam 390 mil toneladas de CO₂. A entrega de armamento dos Estados Unidos a Israel, através de 507 voos e 107 viagens marítimas, acrescentou mais 278 mil toneladas.

O estudo descreve também o colapso energético em Gaza: com a destruição da central eléctrica e dos painéis solares, a população passou a depender quase exclusivamente de geradores a diesel, responsáveis por 129 mil toneladas de CO₂.

Tal como o editorial da One Earth sublinhava, estes impactos — destruição de infra-estruturas críticas, libertação de poluentes, contaminação de solo e água — têm sido uma constante noutras guerras recentes, prolongando o custo ambiental muito para além do campo de batalha.

Mas é na fase de reconstrução que surge o maior peso climático. A destruição maciça de edifícios — 436 mil apartamentos, 721 edifícios públicos e industriais, além de 3045 km de estradas — deverá implicar uma reconstrução que, só por si, “emitirá 31,4 milhões de toneladas de CO₂”. Os autores alertam que “85% de todas as emissões pós-conflito resultam da destruição de infra-estruturas em Gaza”, estimando ainda que existem 61 milhões de toneladas de escombros por remover.

Um vazio nas políticas internacionais

Apesar da atenção crescente ao impacto ambiental da guerra na Ucrânia, o estudo nota que as emissões militares continuam praticamente ausentes das negociações climáticas internacionais. A equipa de investigadores, liderada por Benjamin Neimark, da Faculdade de Gestão Empresarial, Queen Mary, Universidade de Londres, e da Divisão de Investigação em Saúde, na Universidade de Lancaster, no Reino Unido, recorda que, mesmo na COP30, no Brasil, “as emissões de conflitos não foram reconhecidas nos procedimentos formais”, apesar de vários países e organizações terem levantado a questão.

A ausência de dados oficiais é apontada como obstáculo central. “Os militares têm sido menos transparentes na divulgação das suas emissões, citando preocupações de segurança nacional”, refere o estudo, recordando igualmente um relatório do Programa de Ambiente das Nações Unidas que considera estas emissões “insuficientemente contabilizadas”.

Palestinianos reagem enquanto fumo sobe da Torre Mushtaha após um ataque aéreo israelita no oeste da cidade de Gaza, a 5 de Setembro de 2025
EPA/HAITHAM IMAD

Um alerta para o futuro

Os autores defendem que contabilizar as emissões de guerra é essencial para qualquer estratégia climática credível. A decisão recente do Tribunal Internacional de Justiça — que reconheceu a relevância das emissões associadas a conflitos armados — é vista como um passo importante.

“Os conflitos armados causam graves danos humanitários e económicos, mas os seus impactos ambientais, especialmente as emissões de gases de efeito de estufa, são frequentemente ignorados e excluídos dos acordos climáticos internacionais”, afirmam no artigo. Acrescentam que “as emissões relacionadas com a guerra não provêm apenas dos combates, mas também da produção militar e da reconstrução, intensificando a crise climática”.

O editorial da One Earth também já descrevia um ciclo cada vez mais perigoso: as guerras agravam a crise climática; a crise climática, por sua vez, aumenta a probabilidade de novos conflitos. Sem transparência, sem regulamentação e sem considerar o peso climático das máquinas militares, argumentavam os editores, nenhuma política de sustentabilidade estará completa.

“Até que exista uma obrigação de reportar este impacto imposta aos militares através da UNFCCC, este trabalho terá de ser feito por investigadores e pela sociedade civil”, concluem os autores do artigo publicado esta quarta-feira.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com