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O que me trouxe aqui foi um acidente. Há cerca de dez anos, fui atropelada por um caminhão desgovernado que me acertou em cheio, sem que me apercebesse de onde surgiu. Atropelada é a forma simbólica para descrever o que senti ao descobrir que fui física e mentalmente abalroada pela menopausa.
Aos 42 anos começaram os problemas para dormir e uma irritabilidade astronômica. Claro que, de nenhuma maneira, relacionei-os com uma possível pré-menopausa. Isso só acontecia às mulheres mais velhas.
No meio da rotina, trabalho, casa, quatro adolescentes em idade escolar, de vez em quando, esquecia uma palavra. Aquilo me angustiava porque, como não conseguia me lembrar, obrigava o meu interlocutor a um jogo de adivinha: “Aquela fruta amarela… em meia-lua…”. Até alguém gritar: “Banana!”.
Comecei a recear serem os primeiros sinais de algo sério, uma afazia ou até demência. Porém, ao comentar os episódios com o médico, ele me respondia: “Todos esquecemos palavras”. Nunca reconheceu o que sei hoje chamar-se névoa cerebral.
Naquela fase, não sentia os ditos calores. Evidência inequívoca da chegada da menopausa, pensava. Os fogachos ou afrontamentos são o sintoma mais difundido e também usado para nos estigmatizar: “Cheia de calores?” “Tá ficando velha!”
Decidi ir a um ginecologista de “notório saber”. Disse-me de chofre: “A senhora está na menopausa. Faça os exames por rotina”. Nem pré-menopausa, nem perimenopausa, era um veredito. Regressei à consulta, pensei que me aconselharia terapia de reposição hormonal, já me imaginava usando um adesivinho no braço… nem um pio. No ano seguinte, sem nenhum ciclo menstrual em doze meses, o médico me deu a sentença: “está na pós-menopausa”.
Foi devastador. Saí do consultório com a alma extirpada. Faltava uma fase da minha vida. Que mulher era eu? Não tive menstruações difíceis, as minhas gravidezes transcorreram sem problema e, de repente, o meu útero me fazia uma falseta daquelas? Passei a odiar o tal médico.
Fui noutra doutora que associou as variações de humor à menopausa. Mas ao invés de estrogênio, receitou-me Prozac. Além dos estigmas do sexismo e do etarismo, existe outro persistente de que as mulheres na menopausa são descontroladas. Não somos emocionalmente mais instáveis do que os homens. Temos é um sistema que liga os nossos cérebros ao útero e fazemos uma transição neuroendócrina distinta no fim do período fértil. Essa mudança impacta em múltiplas áreas, inclusive no cérebro.
Os sintomas espalhavam-se por outras partes do corpo. Nas minhas pesquisas, encontrava fontes de informação contraditórias. Acreditei, erroneamente, na ideia de que a reposição hormonal na pós-menopausa teria pouca serventia, para além da possibilidade (equivocada) de desenvolver câncer de mama.
A menopausa ainda é um tabu. Ninguém nos prepara para o que enfrentaremos. Ao contrário do que ocorre na puberdade ou na gravidez. E isso deve-se em parte à forma como a sociedade está organizada. O valor social da mulher está associado à sua capacidade reprodutiva. Logo, uma mulher na menopausa perde o seu valor.
A medicina está permeada por perspectivas históricas e sociais e, como sistema, ainda não está preparada para nos acolher. Teremos de encontrar caminhos para a nossa saúde. E podemos fazer isso juntas, partilhando informação. A menopausa é inevitável para quem tem ou teve útero. Mas com conhecimento e autoconhecimento pode ser mais leve.
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