A mudança da hora e o sono: uma exigência que nos desregula?

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Duas vezes por ano, milhões de pessoas fazem o mesmo ritual: acertar os relógios. No final de março, dorme-se menos uma hora e, no outono, recupera-se esse tempo. A mudança da hora tornou-se um gesto quase automático, aceite como uma inevitabilidade. Mas talvez esteja na altura de fazer uma pergunta simples: porquê?

A mudança da hora em Portugal tem raízes na Primeira Guerra Mundial, em 1916, quando o país implementou pela primeira vez o horário de verão. Para muitos, trata-se apenas de um pequeno ajuste e é uma mudança muito querida por estar associada aos dias maiores, com mais luz e com cheiro a verão. Mas, para muitos outros, implica uma adaptação, por vezes longa, com consequências reais no bem-estar.

Hoje, 13 de março, assinala-se o Dia Mundial do Sono, e continuamos a ignorar uma contradição evidente. De um lado, multiplicam-se as campanhas sobre a importância de dormir bem, de respeitar os ritmos biológicos e de prevenir os efeitos da privação do sono; do outro, mantemos uma decisão política que, duas vezes por ano, força toda a sociedade a alterar, artificialmente, o seu ritmo biológico.

Os seres vivos, incluindo os humanos, não funcionam segundo os ponteiros do relógio. O organismo funciona segundo um relógio biológico interno, conhecido como ritmo circadiano. Este sistema regula ciclos fundamentais do organismo, incluindo o sono e a vigília, a temperatura corporal, a libertação de hormonas e até o metabolismo. Ao longo de milhares de anos de evolução, este relógio sincronizou-se com o ciclo natural do dia/noite. Quando alteramos, artificialmente, o horário social de um dia para o outro, criamos um desalinhamento entre o tempo biológico e o tempo imposto pelos relógios.

Pode parecer apenas uma hora, mas para o organismo, essa mudança equivale, em muitos casos, a um pequeno jet lag. Estudos realizados em diferentes países mostram que, após a mudança da hora na primavera, muitas pessoas dormem menos e aumentam temporariamente problemas como fadiga, sonolência diurna e dificuldades de concentração.

Alguns trabalhos sugerem também um aumento de acidentes rodoviários e de trabalho, nos dias seguintes. O impacto não é igual para todos: adolescentes, pessoas com horários laborais rígidos ou trabalhadores por turnos tendem a sentir este desalinhamento de forma mais acentuada e a adaptação pode ser ainda mais difícil.

Para além das consequências individuais, existem também implicações sociais e económicas. Uma população cronicamente privada de sono é menos produtiva, mais propensa a problemas de saúde e mais vulnerável a acidentes. A qualidade do sono não é apenas uma questão de bem-estar pessoal, é também um fator relevante para a saúde pública e para o funcionamento das sociedades modernas.

Nos últimos anos, o debate sobre a utilidade da mudança da hora ganhou força, gerando polémica e discordâncias. Curiosamente, a mudança da hora nasceu por motivações económicas. Foi introduzida com a promessa de poupar energia, aproveitando melhor a luz solar. No entanto, num mundo onde os padrões de consumo energético mudaram profundamente, os benefícios são cada vez mais questionados.

A União Europeia tem colocado na agenda a discussão sobre a possibilidade de abolir a mudança sazonal da hora. Milhões de cidadãos participaram em consultas e vários países manifestaram abertura para rever a medida. No entanto, a decisão continua adiada, presa entre divergências políticas e dificuldades de coordenação entre Estados-membros.

Entretanto, os relógios continuam a avançar e a recuar, ano após ano. E milhões de pessoas continuam a pagar o preço biológico dessa decisão. Talvez seja hora de olhar para o sono com a mesma seriedade e valorização com que olhamos para a alimentação ou para o exercício físico. O sono não é um luxo nem um capricho individual, e não podemos ignorar medidas que perturbam, desnecessariamente, os ritmos biológicos de milhões de pessoas. Promover bons hábitos de sono é importante, mas também o é garantir que as políticas públicas não dificultam esse objetivo.

Se queremos sociedades mais saudáveis, produtivas e seguras, está na hora de reconhecer que o organismo não é uma máquina que se ajusta ao calendário político. E insistir em mudar a hora pode ser apenas uma tradição, política e economicamente egoísta, que não tem razão de existir.

Se sabemos hoje mais do que nunca sobre a importância do sono, talvez a pergunta já não seja científica, mas política. Porque é que queremos continuar a repetir o erro de mudar os ponteiros duas vezes por ano?

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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